Suzana Gonçalves (1914-2010)
15/03/2010 12:48
Edlange Valverde / Foto: Arquivo Comunicar

Obituário

Suzana Gonçalves como diretora geral das bibliotecas
Poucos conhecem o legado deixado pela diretora-geral das bibliotecas da PUC-Rio Suzana Gonçalves, mas muitos sentiram e vão continuar sentindo por muito tempo os resultados do grande trabalho realizado por ela ao longo dos 95 anos em que esteve entre nós. Conhecida por alunos e professores como uma pessoa sempre receptiva, consciente da situação da universidade e, sobretudo, preocupada com a inclusão social, Suzana Gonçalves, já no início dos anos 60, vislumbrava precocemente programas de inclusão para alunos carentes nas universidades, fato que somente se tornou realidade muitos anos depois.

 

O professor José Carmelo, do Departamento de Educação, que conviveu diretamente com Suzana, em meados dos anos 60, lembra com carinho uma frase que ela disse quando ele ainda era aluno: “você não devia pagar para estudar, você devia receber para estudar”. A Educação sempre foi a tônica de sua vida.  Ela acreditava que a Educação é a força motriz para que um país alcance o desenvolvimento.

 

Em 1964, começou a carreira como administradora na PUC ao assumir a presidência da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), indicada pelo então presidente Castelo Branco, num ambiente marcado por tensão e insegurança. Mas com habilidade e competência, Suzana continuou o brilhante trabalho realizado por Anísio Teixeira ­­– seu antecessor ­­– garantindo a manutenção e consolidação da política de pós-graduação.

 

A PUC-Rio foi pioneira na reforma estrutural e institucional que foi imposta pelo governo militar em 1968 a todas as universidades. Em 1967, Suzana foi nomeada assessora da Reitoria no Primeiro Plano Diretor e teve atuação marcante como uma das idealizadoras e principais responsáveis pelo sucesso do projeto. Á época, a universidade começou a dar efetivos incentivos financeiros à pós-graduação, mestrado e doutorado e promoveu a ampliação e aprofundamento da pesquisa nas áreas científicas. Para isso foi necessária uma profunda reestruturação do sistema de ensino da universidade.  A PUC deixou de ser um conjunto de faculdades fragmentadas e se tornou aos poucos a universidade que se conhece nos dias de hoje. O departamento se tornou unidade central e houve a divisão dos quatro decanatos. Sob o olhar atento de Suzana, a PUC-Rio foi a primeira universidade brasileira a adotar o modelo flexível de créditos e a substituir professores horistas por professores integrais que pudessem se dedicar a pesquisa e assim promover avanços no ensino acadêmico.

 

Com o endurecimento do regime militar, a PUC sentiu os efeitos da nova ordem política e se tornou um grande espaço de contestação, “naquela época a universidade se tornou um caldeirão”, afirmou Carmelo. Estudantes viram a liberdade de pensamento e de expressão cerceada e cobraram do corpo docente uma postura firme ante a repressão e os abusos cometidos pelos militares. Suzana Gonçalves, mesmo sendo uma senhora, não se omitiu e participou ao lado de alunos e outros professores da famosa Marcha dos Cem Mil, em 1968, ato que Carmelo descreveu como “uma atitude extremamente corajosa”.

 

Por fim, assumiu em 1975, a direção geral das bibliotecas onde desempenhou importante trabalho permanecendo no cargo até 1994. No comando da DBD Suzana redefiniu a estrutura e funcionamento da Divisão e criou novas seções que continuam a existir até hoje.  Na gestão de Suzana foi implantada também uma nova estrutura organizacional e novos serviços que dinamizaram o cotidiano de funcionários e frequentadores das bibliotecas. Salvo algumas alterações realizadas com os anos, o Organograma da DBD e sua estrutura mantém ainda características do projeto original de Suzana.

 

Sua conduta ética e moral e a visão apurada na administração conferiram, a cada cargo ocupado, credibilidade à PUC. Por ser uma pessoa apaixonada pela educação, Suzana deu contribuições especiais para a Educação Acadêmica e dedicou-se integralmente à PUC até a aposentadoria, em 1994.

 

Suzana faleceu no dia 9 de fevereiro deste ano, no Hospital Samaritano, Rio de Janeiro ­– poucos dias antes de completar 96 anos ­­­–­ de falência múltipla de órgãos causada pela idade avançada.

 

 

Edição 226

 

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