O Brasil é um continente em si mesmo
18/04/2022 18:24
Carolina Smolentzov

Em Aula Inaugural do IRI, economista Paulo Nogueira Batista Jr. traça possível futuro para o país após eleições

Economista Paulo Nogueira Batista Jr. (Foto: Jorge Paulo Araujo)

A grandeza brasileira, em ano de eleição, é assunto obrigatório. Na Aula Inaugural do Instituto de Relações Internacionais (IRI), o economista Paulo Nogueira Batista Jr. discutiu o futuro da política internacional brasileira e defendeu, assim como o título do seu livro, que o Brasil não cabe no quintal de ninguém. Ex-diretor-executivo do FMI e vice-presidente do banco dos BRICS, Batista apresentou um olhar ao mesmo tempo teórico, crítico, privilegiado e baseado em experiência, como resumiu o diretor do IRI, professor Luís Fernandes, que mediou a aula. 

Batista analisou o significado de um possível governo Lula em 2023 a partir da perspectiva internacional. De acordo com o economista, abre-se neste momento uma oportunidade para o Brasil, de acordo com o resultado da eleição. Para ele, são três os fatores que compõem este cenário. O primeiro é a figura do ex-Presidente enquanto líder político mundialmente respeitado, característica observada por Batista durante a carreira internacional. Depois, entra em jogo o tamanho do país: um dos maiores do mundo em termos territoriais, populacionais e econômicos.

- Eu vou falar ancorado na minha vivência. Passei dez anos no exterior, quando o Brasil estava em uma fase de muito prestígio internacional. Há um grupo de brasileiros que não acredita em um Brasil influente e autônomo. No governo Bolsonaro, o Brasil se apequenou e se isolou internacionalmente. Evidentemente, eu vou falar do futuro, especialmente daquele que pode ser nosso se elegermos um governo diferente para 2023.

O terceiro fator é mais recente. Segundo o especialista, atualmente, os grandes líderes do mundo estão no Oriente e não têm ampla aceitação internacional. É da união destas condições específicas que surge a oportunidade: a existência de um vácuo no campo político internacional que só pode ser preenchido, de acordo com economista, por um grande líder, experiente e reconhecido, de um grande país.

- Isso significa, concretamente, recuperar e colocar a máquina brasileira para promoção do desenvolvimento em funcionamento. Esta máquina existe, e eu a assisti, mas é necessário um governo que sabe deste potencial e designa para todas as posições desta máquina, inclusive para todos os postos internacionais brasileiros, o propósito comum de aproveitar esta oportunidade sensacional.

Um dos principais especialistas do sistema monetário no Brasil, Batista enfatizou a potência brasileira regionalmente e mundialmente. Ele afirmou que há também uma possibilidade de retomar o processo de integração latino-americana e caribenha, desmontado nos governos anteriores. Além disso, o economista lembrou da importância do respeito com todos os países, pequenos, médios ou grandes, em detrimento do conceito de ‘liderança’, historicamente associado à cultura norte-americana. Ele resumiu a política externa dos governos Lula parafraseando o músico Chico Buarque: o Brasil é um país que não fala grosso com a Bolívia nem pia fino com os Estados Unidos.

- Eu gosto muito do Nelson Rodrigues, e ele já lidava com este problema nos anos 1960 e 1970, da mentalidade pequena do brasileiro. Inclusive, ele cunhou a expressão que está no subtítulo do livro, ‘complexo de vira-lata’, ou ‘complexo de Narciso às avessas’, como característica do brasileiro que cospe na própria imagem. Ele não se dá conta, por exemplo, de que, se o Brasil não existisse, Madureira seria uma grande nação sul-americana. O Brasil é um continente em si mesmo. 

O economista explorou também as implicações da Guerra na Ucrânia para as relações diplomáticas do Brasil. Segundo ele, o Ocidente desencadeou uma guerra econômica e política sem precedentes como alternativa à intervenção militar. Nesse sentido, ele considerou a vocação pacífica do Brasil como peça relevante para uma possível solução da crise. Ao complementar a fala do palestrante, o diretor do IRI afirmou que a frase “o Brasil não cabe no quintal de ninguém” retrata esta qualidade diplomática.

- Traduzindo para uma visão do século XXI: o Brasil não tem que ter alinhamento automático com qualquer polo ou bloco no sistema internacional. Pelo contrário, eu acho que interessa ao Brasil pelas condições estruturais e pela composição uma política de diversificação de relações e valorização de capacidade de articulação com vozes críticas de governanças no mundo – comentou Fernandes.

#AulasInaugurais20221

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