Por que não priorizar a educação?
21/05/2019 10:51
Padre Josafá Carlos de Siqueira SJ – Reitor da PUC-Rio

Em artigo, padre Josafá Carlos de Siqueira SJ questiona o contigenciamento de gastos no Ensino Superior e ressalta a importância do diálogo para um bom governo

       Somos conscientes que o futuro de uma nação se constrói pela educação, pois ela forma as pessoas, humaniza a existência, corrige a ignorância, conscientiza os cidadãos, ajuda a desenvolver os talentos e aptidões, eleva a autoestima, abre caminhos de integração e socialização, amplia o leque das possibilidades profissionais, dignifica o ser humano, corrige as injustiças e amplia os acessos aos saberes científicos. Todos, sonhamos com um país onde a prioridade deve se concentrar no investimento em educação, pois ela revoluciona os seres humanos nos seus princípios e valores, transforma a sociedade e possibilita a construção de uma cultura de paz, respeito e prosperidade.

       No entanto, apesar da consciência e dos sonhos de um Brasil melhor pela educação, a perplexidade aumenta em cada cidadão, quando o discurso não condiz com a prática, sobretudo quando somos surpreendidos pelos cortes ou contingenciamentos de recursos na área educacional, que já vive cotidianamente em dificuldades no ensino fundamental, médio e superior. Se já temos uma imagem internacional não muito boa no campo da educação, estas atitudes de cima para baixo acabam retardando os processos de melhoria, e gerando mais problemas para o futuro. Cremos que a melhor solução para sanar as dificuldades e corrigir distorções, ainda continua sendo o diálogo com quem administra a base da pirâmide e conhece o dia a dia dos avanços e dos entraves existentes na educação brasileira. Cortar recursos na educação, quando se deseja priorizar e melhorar o ensino fundamental é algo incompreensível, mesmo com todo esforço e lucidez racional. Cortar recursos na pós-graduação, quando se quer dar ênfase a uma boa e profunda formação nas áreas tecnológicas, também não dá para compreender, pois somente com uma sólida formação em mestrado e doutorado é que permite uma maior integração com empresas e indústria que hoje exigem conhecimentos específicos em diversos campos de saber. A produção científica de um país, gostando ou não, tem que passar pelo crivo da pós-graduação nas Universidades, pois quando estas instituições de qualidade formam profissionais competentes, aumenta a empregabilidade, intensifica a relação com a indústria, amplia os processos de internacionalização, e permite que a instituição de ensino superior cresça na relação entre ensino e pesquisa. Os programas de pós-graduação com conceitos elevados, jamais deveriam sofrer cortes de bolsas, pois eles estão contribuindo, local e nacionalmente, para a melhoria científica e educacional do Estado e do país.

       O Brasil, apesar dos problemas, tem crescido muito nos últimos anos na área educacional, onde as Universidades públicas, privadas e comunitárias têm contribuído para formar pessoas que mais tarde contribuem com a melhoria do ensino fundamental. Embora tenhamos que dar uma atenção especial ao ensino básico, não é aconselhável que o ensino superior seja penalizado, pois ambos estão inter-relacionados. Uma visão sistêmica entre ambos ainda é melhor do que uma concepção fragmentada. Se existem distorções, as correções devem ser feitas respeitando processos e dialogando com as lideranças na gestão das escolas e universidades. Na democracia, governar pelo diálogo ainda é melhor do que agir por decretos, pois estes desgastam quem tem a missão principal na gestão institucional, e provoca reações na base da pirâmide. Cortar recursos na educação não é o melhor caminho para quem ainda acredita num país melhor e mais próspero, ou mesmo em um novo Brasil.

                                                          Padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J. – Reitor da PUC-Rio

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