O luto e o cuidado
24/09/2019 17:59
Gustavo Magalhães e Tatiana Abreu

A terceira edição do Setembro Amarelo na PUC-Rio aborda a prevenção e a posvenção do suicídio

Izabela Guedes. Foto: Amanda Dutra

Desde 2015, a Campanha do Setembro Amarelo — inspirada no Dia Internacional de Prevenção do Suicídio, comemorado no dia 10 — busca a conscientização da causa. Na quinta-feira, 19, a palestra Sobreviventes do Suicídio: experiência e acolhimento debateu a dor e as problemáticas vividas pelos parentes de pessoas que morreram em decorrência de suicídio, chamados de sobreviventes. A mesa foi mediada pela coordenadora do Laboratório de Estudos em Família e Casal (LEFaC/PUC-Rio) Andrea Seixas Magalhães. O debate teve a presença de Ivo Oliveira Faria, palestrante sobre suicídio, e de Izabela Guedes — do grupo de Psicoterapia para pessoas enlutadas (LELu / PUC-SP).

De acordo com a OMS (2010), a taxa de suicídios aumentou 60% nos últimos 45 anos e a projeção para 2020 é o aumento de mais de 50% desses casos. Na palestra, foi apontado que o ato não deve ser entendido como consequência de uma única causa, porque é um fenômeno que envolve vários fatores, entre eles, biológicos, psiquiátricos, sociais, psicológicos, econômicos, religiosos, ambientais e culturais. 

Integrante do grupo de Psicoterapia para pessoas enlutadas (LELu/PUC-SP), Izabela Guedes discorreu sobre o pensamento da sociedade sobre do suicídio. Para ela, o estigma e a culpa são temas recorrentes quando se lida com a complexidade do luto. 

— A ideia de cometer suicídio vem mudando, porque vem de cometer crime. Esse ato já foi chamado de auto assassinato. As pessoas entendem que essa palavra traz muito estigma para a família, porque é comum que busquem culpados quando suicídio acontece. Em geral, culparão a família, a escola, o término de namoro, como se se fosse o fato isolado que faz a pessoa tirar a própria vida. É preciso notar que não tem como analisar isoladamente para saber o que teve mais força para levar a pessoa ao suicídio, porque os fatores precipitantes atuam juntos o tempo todo. 

Criador da página Luta em Luto, que reúne pessoas que perderam um parente vítima de suicídio, Ivo Oliveira Faria expôs a experiência em lidar com a morte da filha mais velha, Ariele, de 18 anos, em março de 2014. Segundo ele, a busca de novos caminhos é o que deve ser feito para lidar com a perda e ressignificar a vida, quando a pessoa se torna uma sobrevivente.

— Eu homenageio e reverencio a memória da minha filha toda vez que me exponho, que falo disso e contribuo para que a compreensão sobre esses acontecimentos aumente. Sou grato porque, hoje, as pessoas falam abertamente e espontaneamente sobre o suicídio de pessoas próximas. 

Faria não acredita que o luto se esgota e passa em determinado tempo após a morte do ente querido porque ele considera o pesar do suicídio algo insuperável. Por isso, ressaltou, os sobreviventes devem reconhecer a importância da dualidade da vida como elemento natural.

 — A perda de um filho é irreparável e inominável. Quando morre um cônjuge, chamam de viúvo; quando morre pai ou mãe; chamam de órfão; mas, quando morre um filho, não há nome para isso. A mensagem que eu sempre falo é que a vida não é só a lógica de sucesso e de felicidade que está presente nas redes sociais. A aceitação de que existe o sofrimento é a melhor forma de dialogar com a sina de viver.

O oficial de justiça aposentado contou a experiência adquirida em grupos de apoio — que buscam vivenciar uma atmosfera de auxílio e compreensão, além de compartilhar sentimentos, melhorar habilidades de comunicação e oferecer orientação emocional.

— Esse ambiente de grupo é onde vemos pessoas iguais a nós que estão passando pela mesma tragédia que a gente e lidando com a mesma situação. No geral, a sensação é de pertencimento, você fica acolhido pelos seus semelhantes.

Maria Helena Pereira. Foto: Amanda Dutra.

Na conferência Luto e Pósvenção, a criadora do LELu/PUC-SP, Maria Helena Pereira, pós doutora pela Universidade de Londres, definiu o termo como uma forma de prevenção e um conjunto de atividades feito com os sobreviventes do suicídio. Segundo a estudiosa, a história do movimento de apoio aos sobreviventes começou em 1970, na América do Norte, com a fundação do primeiro grupo de apoio ao luto por suicídio.

— Essa medida visa atenuar efeitos traumáticos desse tipo de morte e cuidar da saúde mental dos que ficaram. A ajuda é oferecida com auxílio em assuntos práticos, como documentação, por exemplo; informações sobre enterro, encontro com quem já viveu aquilo em grupos de apoio.

Maria Helena afirmou que, após um suicídio, é comum as pessoas próximas da vítima busquem respostas ao ato. De acordo com ela, o ato de amparar a própria dor e procurar novas saídas ao sofrimento é importante para que esses indivíduos voltem a interagir com os outros. 

Ela definiu o luto como algo particular, mas reiterou que ele é vivido em um contexto social. Maria Helena criticou a visão reducionista sobre o suicídio — que considera o ato como se fosse igual em todos casos e tivesse impacto semelhante em todos os indivíduos. O sobrevivente não precisa ser delineado, pois é preciso respeitar a dor de cada um, ressaltou ela. Segundo a criadora do LELu/PUC-SP, o luto envolve oscilações entre viver a perda e restaurar a vida.

 

Prevenção do Suicídio

No encontro Abordagens Multiprofissionais na Prevenção do Suicídio, o psicólogo Victor P. Silva (UERJ) e o subtenente Daniel Carius, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ), discutiram a importância do suporte profissional na prevenção dos casos de suicídio e o diferencial da abordagem do Corpo de Bombeiros no Rio.

Psicólogo Victor P. Silva (UERJ) e o subtenente Daniel Carius (CBMERJ). Foto: Amanda Dutra.

Segundo Carius, a antiga tática de abordagem às pessoas quem tentavam tirar a própria vida era vista como violenta aos olhos da sociedade, pois solucionava o problema para o bombeiro, mas não para o tentante. Ele explicou que o novo método protege o bombeiro de transtornos e de um estresse pós-traumático, além de não gerar mais problemas psicológicos para quem tentou suicídio, que se sentia traído pelo bombeiro.

Carius comentou que essas pessoas se dividem entre o dilema de ter vontade de dar fim a sua dor e o instinto de sobrevivência, e que o bombeiro responsável precisa dominar técnicas que o faça enxergar o valor da vida. De acordo com o subtenente, em apenas 3% dos pedidos de atendimento os bombeiros não conseguem chegar a tempo.

O bombeiro-negociador deve conhecer os mecanismos de leitura corporal, ter paciência e tempo, e respeitar a questão de um silêncio inicial e a zona interpessoal de aproximação. Segundo Carius, é fundamental saber como se apresentar e estabelecer vínculos de confiança com o tentante.

- Eu me aproximo dizendo ‘estou aqui para te ouvir’, não posso dizer que estou para ajudar, pois não posso ajudar diretamente.

Subtenente Daniel Carius, do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Rio de Janeiro (CBMERJ). Foto: Amanda Dutra.

Diferenciar abordagem dirigida dos tentantes, que podem ser agressivos, depressivos ou psicóticos, é fundamental para iniciar o atendimento. O resultado da nova tática, segundo Carius, é positivo, pois possibilita uma saída digna para o tentante e uma maior humanização da tropa.

Victor Silva, que trabalha no Núcleo de Apoio Psicológico da UERJ, frisou a importância do psicólogo agir com o uso de palavras. Ao contar algumas histórias vivenciadas no atendimento de estudantes, o psicólogo lembrou a importância de dialogar sobre o assunto sem julgamentos. Para ele, é preciso entender cada caso em particular e superar o tabu.

- O suicídio chega na clínica como uma indecisão. O psicólogo deve ouvir, ver o que está em questão e tentar acolher o que o paciente trouxer como aflição.

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