A riqueza do audiovisual brasileiro
15/03/2021 19:03
Giulia Matos

Equipe da TV-PUC Rio lança a série Cinema Brasileiro: Rotas de Persistência e mostra sete produções, três de ex-alunos da Universidade

O cinema brasileiro, assim como a cultura em geral, enfrenta dificuldades ao longo dos últimos dois anos, como corte de verbas, e a transferência da Secretaria de Cultura do Ministério da Cidadania para o Ministério do Turismo. Mas, apesar dos empecilhos, há muita riqueza, como no audiovisual brasileiro. E para mostrar o que se faz de bom por aqui, a TV PUC-Rio investiu em uma série batizada Cinema Brasileiro: Rotas de Persistência. São sete episódios, um a cada semana, e a data de estreia é o dia 17 de março.

O projeto apresenta a análise de filmes brasileiros, documentários e ficção, finalizados em 2019 e 2020, e que foram ou são exibidos em circuito internacional.

Foram realizadas entrevistas com os diretores sobre o processo de construção do fazer Cinema - argumento, roteiro, produção, montagem e distribuição. Durante a conversa com os entrevistados, também são abordados temas como a veiculação de produções durante a pandemia.

Os longas-metragens Protocolo da Morte (2020), de André di Mauro, Meu Querido Supermercado (2019), da diretora Tali Yankelevich, Libelu (2020) de Diógenes Muniz, Dentro da Minha Pele (2020), de Toni Ventura, Madalena (2020), de Madiano Marcheti, Narciso em Férias (2020), de Renato Terra, e Fico te Devendo uma Carta sobre o Brasil (2019), de Carol Benjamin, fazem parte da série. Os três últimos são assinados por ex-alunos da PUC-Rio.  

Todas essas narrativas têm um fator em comum: tocam em questões importantes, que precisam ser discutidas na sociedade atual. Entre elas estão a violência contra a comunidade LGBTQ+, o pensamento político, a ditadura, a pandemia e o próprio cinema.

Diretor de Narciso em Férias, Renato Terra é ex-aluno do curso de Publicidade do Departamento de Comunicação. O filme dele estreou simultaneamente no Festival de Veneza, na Itália, e na plataforma de streaming, Globoplay, no dia 7 de setembro de 2020, a data da Independência do Brasil. Com 90 minutos, o longa-metragem é sobre a prisão do cantor e compositor Caetano Veloso em dezembro de 1968, durante a ditadura militar brasileira. O documentário é narrado por meio das memórias do artista, que relata, em detalhes, tudo o que aconteceu a partir do momento em que ele foi retirado de casa por agentes à paisana da Polícia Federal.

Documento de prisão do cantor Caetano Veloso. Foto: Divulgação

Segundo Terra, a ideia do projeto partiu da empresária e esposa do músico, Paula Lavigne, após ela ter assistido a Uma noite em 67 (2010), documentário sobre o Festival de Música da Record de 1967, assinado pelo cineasta.

 - Ela me convidou, e eu chamei o Ricardo Calil, diretor que trabalhou comigo em Uma noite em 67, pois o Caetano já estava querendo lançar o Narciso em Férias, que era originalmente um capítulo dentro do livro Verdade Tropical, escrito por ele, como um trabalho à parte, o que acabou acontecendo.

 O diretor nasceu durante o regime militar, em 1981, e ressalta que é importante lembrar este período da história do país que ele define como “terrível”. Mas, segundo Terra, é fundamental trazer à tona o assunto para que as pessoas não esqueçam ou não desejem o retorno do sistema.

 - O AI-5 destruiu muitas famílias, destruiu o país, fechou o Congresso brasileiro, torturou muita gente, censurou a imprensa. Foi um dos períodos mais brutais da história brasileira.  Nós temos que deixar isto claro com os fatos, e o filme faz isto usando relatos, documentos, mostrando que não devemos romantizá-lo, distorcê-lo e o quanto precisamos entendê-lo, para que não se repita.

Madalena, do também ex-aluno e diretor, Madiano Marcheti, foi selecionado para o Festival de Roterdã, Holanda, e a estreia internacional foi no dia 3 de fevereiro deste ano mas, por causa da pandemia, não há previsão para o lançamento nos cinemas no Brasil. A ficção retrata o desaparecimento de uma mulher trans chamada Madalena, que ocorre em uma cidade do Centro-Oeste, no interior do país. A produção, de 85 minutos, acompanha três personagens diferentes que vivem nesta cidade e que, de alguma forma, possuem uma relação com a personagem desaparecida.

Madiano Marcheti, diretor e roteirista de Madalena. Foto: Divulgação

Marcheti conta que a ideia do filme surgiu enquanto estudava na PUC-Rio e que sempre pensou em falar ou situar a narrativa baseada no lugar onde cresceu, em Sinop, no Mato Grosso.

-Eu queria falar sobre o lugar de onde eu venho, de uma cidade pequena totalmente voltada para o agronegócio. Resolvi, também, trazer a questão da transexualidade para dentro do filme, para passar a sensação de não se sentir encaixado em um local assim. Os trans são as pessoas que mais sofrem com a violência contra a população LGBTQ+, perdem a vida pelo preconceito e a intolerância. Por isso eu quis colocar à frente do filme este tema, apesar de eu não ser uma pessoa trans.

Thiago Gallego assina o roteiro de Madalena com Marcheti e com Thiago Ortman. Ele revela que o processo de escrita demandou várias reuniões e pesquisas sobre os tópicos abordados no longa-metragem. Ele comenta que, embora seja uma ficção, a história procura retratar temas existentes na sociedade do país.

- Tivemos muitas reuniões, nós discutimos, conversamos muito. Fizemos diversas pesquisas nas quais fomos reunindo material sobre transfobia, agronegócio, associações e depois começamos a escrever. Não nos inspiramos exatamente em uma história real, o ponto de partida do filme é ficcional, mas fizemos muitas pesquisas para aproximar esta ficção do contexto brasileiro.

 

 

 

 

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