As revelações de Nossa Senhora de Fátima, cem anos depois
30/05/2017 15:11
Bell Magalhães e Thays Viana

Como a padroeira de Fátima, há cem anos, restaurou a fé durante período de explosões sociais e econômicas

Arte: Diogo Maduell

A aparição de Nossa Senhora do Rosário de Fátima completou cem anos em maio deste ano. Nos festejos do centenário, em visita à cidade de Fátima, Portugal, o Papa Francisco canonizou os irmãos Jacinta e Francisco, que teriam testemunhado a revelação da Virgem. Entre os meses de maio e outubro, Nossa Senhora apareceu seis vezes para Lúcia, de 10 anos, Jacinta, de 7 anos, e Francisco, de 8 anos, popularmente conhecidas como os três pastorinhos. A maioria das manifestações ocorreu no dia 13, em um lugar conhecido como Cova da Iria, um terreno da família de Lúcia, na cidade de Fátima, em Portugal.

A cada encontro, a Virgem Maria pedia que eles rezassem o terço todos os dias pela paz no mundo e fizessem penitência pela conversão dos pecadores. Apesar de sofrerem com perseguições por parte dos poderes públicos, e até terem sido mantidos em cárcere, no mês de agosto, para evitar a possível aparição, os três nunca negaram a visão. Nos encontros, Nossa Senhora revelou a essas humildes crianças portuguesas os chamados três segredos de Fátima. Cada aparição gerava mais credibilidade e chamava ainda mais atenção para novos curiosos. Na última revelação, no dia 13 de outubro, havia quase 70 mil pessoas que, segundo relatos da época, teriam testemunhado “o milagre do sol”, em que o sol parecia mover-se e girava sobre si mesmo.

Segundo a Igreja Católica, o primeiro segredo falava sobre uma visão do inferno e a perda das almas durante a Primeira Guerra Mundial. O segundo dizia que se os homens não se corrigissem viria um castigo sobre as nações em forma de Segunda Guerra, e a Rússia espalharia os erros pelas nações do mundo. Já as explicações do terceiro segredo, que só foi revelado no ano 2000, foram visões sobre o século XX e são consideradas dogmas da fé. Em uma das partes da visão, um bispo vestido de branco (o Papa) é ferido de morte e cai por terra, que foi interpretado, décadas depois, como o atentado que o Papa João Paulo II sofreu em 1981, na Praça de São Pedro.

Francisco e Jacinta morreram pouco tempo depois das aparições, em 1919 e 1920, respectivamente, vítimas da gripe espanhola que se alastrava na Europa. Já Lúcia seguiu a vida religiosa e entrou para o convento da Ordem das Carmelitas Descalças. Ela morreu em 2005, e o processo de canonização dela prossegue no Vaticano. O que realmente marcou os cristãos portugueses não foram os segredos em si, mas o fato de Maria ter escolhido se revelar em Portugal para crianças pobres e simples. Segundo a professora Luísa Maria Almendra, da Faculdade de Teologia da Universidade Católica Portuguesa (UCP- FT- Portugal), os mistérios citavam a Rússia e o Santo Padre, porém, o mais importante para a sociedade portuguesa foi o olhar de Maria e a presença dela em terras portuguesas.

– Claro que o segredo foi importante e sempre houve a curiosidade de saber as diferentes partes dele, mas não foi o que mais marcou. Eu acredito até que muitos nem saibam o que eles significam, nem nunca ligaram para isso.

A professora emérita Lina Boff, do Departamento de Teologia da PUC-Rio, diz que quem cita as aparições não é a Igreja, mas o povo. Ela acrescenta também que o magistério da Igreja não nega nenhuma das manifestações, porém, como não existem provas concretas do surgimento de Nossa Senhora de Fátima, a posição da Igreja é de respeito e apoio.

– O mais importante é que essas visões sempre trazem uma mensagem de vida cristã, conversão, oração, jejum, perdão dos pecados, aceitação do outro. É uma mensagem de bem. No fundo, isso é estudado pela fenomenologia, como um fenômeno, uma visão, mas não podemos provar com algo tangível.

Nos últimos anos, a cidade de Fátima foi visitada pelos Papas Paulo VI, João Paulo II e, recentemente, pelo Papa Francisco. A professora Luísa Maria afirma que essa canonização serviu para fortalecer o que foi Fátima há cem anos, para reacender a fé cristã em Portugal. 

– Esse episódio veio, por um lado, reforçar esse vento que foi Fátima e também despertar a população cristã do país para a mensagem que esse vento trouxe, que é pensarmos nos outros. 

O professor José Ariolvaldo da Silva, do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis (ITF- Petrópolis), observa que, naquela época, as pessoas não tinham tanto contato com a vida cristã, viviam em um período conturbado. De acordo com ele, Maria se sentiu provocada por também ter passado por fases assim em sua vida humana.

– Deus usa Maria para mostrar que está presente, por meio de crianças humildes. Elas eram espaços abertos para acolher a presença de Deus. É isso que estamos precisando. Nosso ego está tão carregado que bloqueamos a ação de Deus dentro de nós. No fundo, a preocupação que Maria tem é de acordar o povo. As pessoas estão adormecidas e distraídas. Para mim, o segredo de Fátima está aí verdadeiramente.

Aviso de incêndio

As inquietações vividas pela humanidade, mencionadas pelo professor José Ariolvaldo da Silva, começaram no início do século XX, com a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), liderada pela Alemanha. O antagonismo econômico e político-militar entre as principais potências da Europa foram fatores determinantes para o início do conflito. A mudança no arranjo da guerra em volta das águas da Europa provocou a entrada dos Estados Unidos na guerra.

No Brasil, um país fundamentalmente agrícola, o conflito mundial soava apenas como um eco, cujos efeitos ficaram restritos às dificuldades econômicas. Com a ampliação da guerra submarina, inclusive aos navios de países neutros que navegassem nas águas da Europa, o comércio brasileiro passou a ter embarcações ameaçadas. Isso se confirmou depois dos ataques aos navios brasileiros Tijuca e Paraná, no litoral da França, e os mercantes Guahyba e Acary, em Cabo Verde. De acordo com o professor Fernando Vieira, do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro (IUPERJ), o Brasil já havia rompido relações com a Alemanha quando o Tijuca foi torpedeado.

– A medida tomada pelo governo foi o confisco 42 barcos alemães que se encontravam em portos brasileiros como indenização pelo ato de guerra. Os outros navios foram afundados ao longo de 1917, com o Brasil já em guerra contra a Alemanha.

A entrada dos Estados Unidos e da Grécia na Primeira Guerra reforçou o apoio aos Aliados — conjunto de países que lutaram contra os Impérios Centrais — como resultado da Tríplice Entente. Apesar da junção, os aliados sofriam derrotas intensificadas pelo combate aéreo. Na Europa, amedrontada pelo conflito, os ideais antiguerra se alastraram por todo o território, o que contribuiu para surgirem manifestações pacíficas em diversas cidades europeias. O Papa Bento XV, conhecido como o primeiro Papa pacifista, tomou uma posição pública sobre a Guerra. Ele declarou que a batalha era um “massacre inútil” que banhava o mundo de sangue e pediu o fim da Primeira Guerra Mundial.

Para garantir mais aliados durante o conflito armado da Primeira Guerra, a Declaração de Balfour foi um divisor de águas para a Grã-Bretanha no começo do século XX. A carta, redigida pelo então secretário britânico dos Assuntos Estrangeiros, Arthur James Balfour, ao Barão Rothschild, líder da comunidade judaica do Reino Unido, tinha a intenção de facilitar a constituição de uma pátria judaica na Palestina, caso a Inglaterra conseguisse derrotar o Império Otomano, que dominava a região. A carta de Balfour manifestava mais os interesses geopolíticos de Londres na região do que um apoio do Reino Unido ao movimento sionista. Mas, segundo Vieira, a declaração fortaleceu o movimento sionista europeu político e economicamente.

— As compras de terras de palestinos por imigrantes judeus aumentaram e, com isso, eles passaram a ter maior presença na região e cobravam do governo britânico o cumprimento da declaração.

Com a intensificação dos conflitos entre árabes e judeus, Londres não conseguiu sustentar a própria posição dentro do acordo e, em 1947, a Organização das Nações Unidas (ONU) sentenciou a divisão da Palestina em dois Estados: um para os judeus e outro para os árabes.

No Oriente, a Rússia vivia um clima de tensão, rodeada por greves e rebeliões. Em fevereiro de 1917, o czar Nicolau II foi forçado a abdicar em razão da constante desobediência militar e civil. Posteriormente, um Governo Provisório foi instalado e Alexander Kerensky, um dos líderes da Revolução de Fevereiro, foi nomeado como Ministro da Justiça. As reformas proteladas durante a vigência do sistema apontavam as fragilidades e instigavam a rejeição do povo. O Governo Provisório foi derrubado pelos bolcheviques, comandados por Leon Trotsky e Vladimir Lênin, que mais tarde instalaria o socialismo e criaria a União Soviética.

O ano de 1917 apontou as crises que o mundo enfrentaria ao longo do tempo. As primeiras décadas do século XX foram, segundo o professor Leonardo de Carvalho, do Departamento de História, de desencanto da euforia que existia anteriormente.

– É um momento em que esse desencantamento com a promessa de que o mundo provavelmente caminhava no sentido mais emancipador, de maior aperfeiçoamento, já tinha se modificado. O ano de 1917 foi um aviso de incêndio para as futuras crises – conclui.

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