Conferência debate os dez anos de influência chinesa na América Latina
30/06/2017 17:49
Dóris Duque

PUC-Rio sediou conferência sobre as relações da China com a América Latina durante a década de 2005 a 2015. Convidados de diversas áreas, como a historiadora chinesa Evelyn Hu-DeHart, se reuniram para refletir sobre o peso do país na região.

Nos últimos anos, a China se tornou não só a maior receptora de commodities produzidas na América Latina, como também sócia de empreendimentos estatais e privados. O peso que o país adquiriu no subcontinente, sobretudo na década de 2005 a 2015, marcada pelo estreitamento das relações diplomáticas e sobretudo econômicas entre o país e a região, foi tema da conferência A Década Chinesa na América Latina, realizada na PUC-Rio na última semana pelo Centro de Teologia e Ciências Humanas em parceria com o Instituto Confucius e a Universidade de Aalborg, da Dinamarca.

  

Professora Evelyn Hu-DeHart Foto: Lucas Simões

A historiadora chinesa Evelyn Hu-DeHart, professora de história e estudos americanos na Brown University, estudou a fundo a presença chinesa em Cuba, que começou ainda na época em que era colônia da Espanha. Trabalhadores chineses eram enganados e forçados a trabalhar como escravos na colônia, e muitos deles, assim como seus descendentes, participaram ativamente da luta pela independência cubana e da revolução de Fidel Castro. “Um dos principais comandantes de Fidel era filho de chineses que vieram para Cuba”, contou a professora, que apresentou imagens da época. Após o embrago movido pelos Estados Unidos, a presença oriental foi diminuindo na ilha, onde há atualmente um movimento de revitalização dos bairros “chinos” para tornar o país atraente novamente para os jovens.

O seminário, organizado pelo vice-decano do CTCH, professor Karl Erik Schøllhammer, do Departamento de Letras, pelo professor da UFRJ Giuseppe Cocco e pelos professores da Uerj Luiz Felipe Teves e Renan Porto, teve a intenção de ampliar a discussão sobre essa presença chinesa na América Latina.

As influências econômicas da China sobre a América Latina no período colonial foram tema do encontro do geógrafo Gerardo Silva, professor da Universidade Federal do ABC com o sociólogo Andrea Lampis, professor da Universidade Nacional da Colômbia, que identificaram hábitos econômicos e sociais que persistem até hoje. De acordo com Silva, a globalização e a descolonização dos países latino-americanos causou uma evolução econômica da qual a China se aproveitou, junto com outros países como os EUA. Lampis ressaltou aspectos comuns à maioria dos países latinos e a China: a forte presença militar, a exploração de recursos naturais e as desigualdades econômicas.

Professor Pablo Míguez Foto: Lucas Simões

Os professores Rodrigo Carmona e Pablo Miguez, da Universidade Nacional de General Sarmiento (UNGS), enfocaram a relação entre China e Argentina, particularmente a partir da entrada dos chineses no cenário das grandes economias, a partir do fim da Guerra Fria. Formado em ciências políticas e economia e doutor em ciências sociais, Pablo Míguez destacou o papel dos Kirchner no estreitamento de laços:

– Na Argentina, o forte vínculo com a China se formou a partir dos governos kirchneristas. Quando Néstor foi ao país, em 2004, a China se tornou um aliado chave, e essa relação continuou com Christina Kirchner. Agora, a recente visita do presidente Mauricio Macri indica que essa via continua aberta.

O professor Oscar Garcia Agustin, do Departamento de Cultura e Estudos Globais e Centro de Pesquisa em Desenvolvimento e Relações Internacionais da Aalborg University, na Dinamarca, argumentou que a relação de dependência da América Latina em relação às grandes potências mundiais (Europa, EUA, China) está se transformando em interdependência, pois países como Bolívia ou Colômbia têm ganhado importância e se libertado de entraves econômicos. Agustin falou também sobre a troca de parceria da Venezuela, que diminuiu sua dependência dos EUA e passou a se relacionar mais intimamente com a China: “Eles até adotaram o modelo econômico misto chinês de zonas econômicas especiais”.

O cientista político Paulo Esteves, professor do Instituto de Relações Internacionais (IRI) da PUC, falou sobre a inserção do grupo Brics (Brasil, Rússia, Índia e China) na dinâmica internacional, garantindo espaço para países que ficaram de fora da nova cartografia global desenhada desde o fim da Guerra Fria. Ele chamou atenção  para o fato de que o grupo não questiona a hegemonia vigente, nem exige compromisso de exclusividade comercial entre os países – “É como se o Brics fossem um friends with benefits (amizade colorida)”, brincou. Esteves acrescentou que está claro que os EUA estão se retirando da posição de provedores de “bens públicos globais” e que agora as outras potências vão começar a competir por esse espaço.

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