Projeto capacita ensino técnico para o empreendedorismo
01/08/2017 17:26
Fernanda Teixeira

Parceria inédita da PUC-Rio com MEC e Sebrae forma 150 professores do Pronatec de todo o país em curso de pós-graduação à distância. Baixo custo e interação foram pontos altos do projeto.

A formatura da turma, no RDC. Fotos de Isabella Lacerda

Cerca de 150 docentes do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec), de todos os 27 estados brasileiros, concluíram pós-graduação à distância gratuita pela PUC-Rio em educação empreendedora, em parceria interinstitucional inédita da Universidade com o Ministério da Educação (MEC) e o Sistema Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Um projeto desta abrangência teria poucas chances de êxito se pensado para encontros presenciais. Obstáculos como custos elevados, logística complicada e necessidade do afastamento dos profissionais das salas de aula, entretanto, foram superados graças ao ensino à distância. A tecnologia também se mostrou uma aliada na aproximação dos participantes e na troca de experiências improváveis sem ela, afirma a coordenadora do projeto, Julia Zardo, do Instituto Gênesis – que organizou o curso ao lado do Departamento de Educação e da Coordenação Central de Educação a Distância (CCEAD).

– Este curso, nas dimensões que teve, só poderia ter acontecido à distância. O Brasil é muito grande e presencialmente seria muito caro, com uma logística complicada. Esses professores estão em sala de aula e não precisaram parar suas atividades para se dedicar exclusivamente ao curso. Ao mesmo tempo, um curso à distância pode enfraquecer as relações entre a turma, mas usamos todas as ferramentas disponíveis para fazer com que os alunos se mantivessem próximos. Algumas avaliações, por exemplo, foram feitas por videoconferência. Por meio do Skype, poderiam ser montadas duplas com alunos de Roraima e do Rio Grande do Sul para realizarem os trabalhos juntos. Com essas ferramentas, a experiência de integrar os alunos deu certo.

Luana Carullo, João Hargreaves, Ralph Bannel e Rejane Botelho. Foto: Isabella Lacerda

Após 18 meses de 400 horas de aulas, em 12 disciplinas como Contexto do Empreendedorismo, Atitude Empreendedora, Plano de Negócios e Gestão de Projetos, os professores de ensino técnico lotaram o Auditório do RDC na quinta-feira, 27, para a cerimônia de abertura e um dia inteiro de apresentações de trabalhos de conclusão de curso.

A mesa foi composta pelos professores da PUC-Rio Ralph Bannell, diretor do Departamento de Educação, e João Hargreaves, diretor do Instituto Gênesis. Pelo Sebrae, vieram Rejane Botelho e Vânia Rego; e, pelo Pronatec, Luana Carullo. Todos fizeram reflexões sobre empreendedorismo e sobre o papel social dos professores na vida das pessoas. O destaque foi a palestra motivacional da analista Vânia Rêgo, que exibiu vídeo do filósofo Zygmunt Bauman para defender que “o mundo mudou e a escola não acompanhou”. Segundo ela, empreender é muito mais do que “apenas negócios”: é “sinônimo de liberdade e criatividade”.

A analista Vânia Rêgo (Sebrae). Foto: Isabella Lacerda

Após a abertura, os alunos se dirigiram às respectivas turmas para as apresentações de TCC, com duração de seis minutos cada, que foram avaliadas por bancas formadas por professores da PUC-Rio e de outras instituições, além de consultores e empreendedores convidados. As propostas de inovação passavam por temas diversos, desde prevenção de drogas, melhorias no sistema prisional e turismo até meios de maior divulgação de empresas e marcas pelo meio digital, todas unindo o conhecimento técnico ao empreendedor.

Natural de Toledo, Paraná, a publicitária Claudenice Siqueira, instrutora do Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), fez pela primeira vez um curso à distância e de imediato percebeu que sua ideia de maior facilidade estava equivocada. Segundo ela, um ambiente de aprendizagem virtual demanda maior esforço e organização do aluno. Lecionando em turmas formadas por jovens aprendizes e outras por profissionais adultos que buscam se capacitar em liderança, ela fez um balanço dos aspectos positivos do que aprendeu nos 18 meses:

–Vi que o empreendedorismo era muito diferente do que eu imaginava, e ter essa noção me abriu um leque de informações. Vi que empreender é possível por meio da educação e que é preciso se preparar, se planejar. Atuo em salas de aula com todos os públicos. Trabalho com adolescentes e com capacitação profissional para adultos. O que aprendi vai me ajudar tanto com o adulto que já tentou empreender e não deu certo quanto com o adolescente que quer empreender e tem dificuldades ou não sabe como fazer. Muitas vezes as pessoas são competentes, mas os erros estão no comportamento, na ausência de uma atitude empreendedora. Agora, consigo ajudar as pessoas a trabalhar suas marcas pessoais. Com o curso, sinto que minha formação está completa. Tudo se complementa com a educação empreendedora.

Claudenice Siqueira, Toledo (PR). Foto: Isabella Lacerda

Os coordenadores do projeto na Universidade consideram que a união da cultura do empreendedorismo com o ensino técnico, mais enxuto e prático, é estratégica e promissora, com potencial para democratizar o conhecimento e incentivar as pequenas empresas, que cada vez mais movimentam a economia do país. A expectativa é criar um círculo virtuoso de melhoria da qualificação do professor, do aluno e do empreendedor:

– Além de melhorar a experiência em sala de aula nas instituições de ensino técnico, a partir da visão empreendedora, os profissionais que fazem parte das redes municipais e estaduais de educação poderão disseminar o conceito de empreendedorismo e sua importância por meio de ações ou políticas públicas – completa a coordenadora.

É o caso de Edimilson Meira, que veio de Vilhena, Rondônia, para apresentar um projeto de empreendedorismo multiplicador. Formado em Serviço Social, ele coordena o Pronatec no campus Vilhena no Instituto Federal de Rondônia (IFRO) e propôs um ambiente virtual em que professores da rede pública municipal, estadual e federal no município pudessem fazer um curso de empreendedorismo, em parceria com as respectivas secretarias de Educação, tendo por base leis de Estados que já deram início à esta prática:

– Minha ideia é que os professores da rede pública sejam fomentadores do empreendedorismo. No meu trabalho trouxe uma tabela com dados de municípios que implantaram leis, inserindo o empreendedorismo nas escolas em estados como Santa Catarina, São Paulo e Rio de Janeiro. A ideia é partir do micro (município) e ir subindo até chegar ao macro (federal), e ter um currículo de base nacional comum que inclua o empreendedorismo. 

Edimilson, que já tinha feito um curso à distância pela Universidade Federal de Santa Maria, destacou que os encontros presenciais foram um diferencial deste curso: “Contribuíram para termos uma visão geral e uma aproximação maior com os professores tutores e com os colegas”.

Edimilson Meira, de Vilhena (Rondônia). Foto: Isabella Lacerda

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