Especial: Presença latina na Companhia de Jesus
17/11/2017 14:34
Ana Vitoria Barros, Karen Krieger e Natália Oliveira

Padre Arturo Sosa, S.J., diz que as pessoas devem lutar pela justiça social

O primeiro latino-americano a ocupar a função de Superior Geral da Companhia de Jesus, padre Arturo Sosa Abascal, S.J., visitou a PUC-Rio no dia 18 de outubro. Venezuelano, padre Sosa veio ao país para conhecer as instituições da Companhia. Durante o encontro com professores e alunos, o Superior Geral destacou a excelência acadêmica da Universidade. Desde que foi eleito para ser Superior Geral, em outubro de 2016, padre Sosa organizou uma agenda para visitar os centros jesuítas semeadas pelo mundo.

Em visita à PUC-Rio, o Superior Geral dos jesuítas visitou o Campus ao lado do Reitor, padre Josafá Carlos de Siqueira. Foto: Matheus Aguiar

As viagens de padre Sosa têm como objetivo encontrar pessoalmente os jesuítas e acompanhar de perto a atuação da Companhia de Jesus em diferentes países. O religioso evidenciou que a Companhia busca uma reconciliação dos seres humanos entre si e com Deus e ressaltou também a necessidade de motivar essa missão de uma maneira fraterna.

– Primeiramente, a Companhia procura estar perto das pessoas, do povo. É preciso compreender e ajudar a entender os processos sociais que são complexos. Além disso, temos que manter a esperança e colaborar para que as pessoas se organizem e se tornem agentes da sua própria democracia.

Para o sacerdote, ter representantes latinos em altos cargos na Igreja significa que a instituição latino-americana cresceu e amadureceu. Nesse processo, ela introduziu uma nova preocupação social no ambiente religioso. Segundo padre Sosa, a justiça social é outro valor ético da concepção do ser humano, que o leva a incluir, entre os critérios de escolha, o relacionamento com os outros. Ele observou que a justiça é a base da solidariedade.

– Tanto o Papa Francisco como eu somos filhos do processo da Igreja latino-americana depois do Concílio Vaticano II. É uma Igreja que saiu de si mesma e foi compartilhar a vida com as pessoas, para pensar na Teologia e participar da luta pela justiça. Esses ideais são reconhecidos pelo resto da Igreja e, nesse sentido, é importante manter esse compromisso.

O Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., presidiu uma missa em Ação de Graças na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, e o padre Sosa proferiu a homilia. Na celebração, o reitor destacou a importância de se ter um Papa e um Superior Geral da Companhia de Jesus latino-americanos. A convite do Reitor, o sacerdote plantou um pé de ipê amarelo em frente à Igreja.

– É nossa tradição que as autoridades religiosas de peso, no nível nacional e internacional, deixem uma marca registrada no nosso bosque quando vêm à PUC-Rio – comentou o Reitor.





1 - Padre Mário de França Miranda, S.J. – professor emérito do Departamento de Teologia

As reflexões de padre Arturo Sosa são as reflexões de uma pessoa que conhece o meio social e político. Ele tem também a doutrina social da Igreja, a preocupação com os mais pobres e com a falta de ética. Ele insistia nessa política com “p” maiúsculo. Eu creio que é um recado também para a Universidade Católica. A diversidade dentro da universidade é normal. Mas as pessoas deveriam saber dialogar em vista de um bem maior que é ajudar o Brasil. É preciso ter uma sensibilidade para com o brasileiro empobrecido, e creio que na visita do Padre Geral, muitos saíram animados. Mas é uma sensibilidade que deve se transformar em ação intelectual, de influenciar os outros, e também ações práticas, e a PUC tem feito isso. 


2 - Padre José Abel de Souza, S.J. – coordenador da Pastoral Universitária

Ter representantes latino-americanos em cargos importantes da Igreja significa uma mudança de paradigma. A Igreja e a cultura ocidental eram muito eurocêntricas. De repente, veio um Papa que é da Argentina. Ele mesmo disse que era um Papa que veio do fim do mundo. Nesse sentido, o fim do mundo se opõe à Europa. E ter um Papa e um Superior Geral da Companhia de Jesus latinos passa a mensagem de que não é só na Europa que existe religiosidade. Eles representam uma Igreja Católica que não é mais a Igreja toda poderosa, mas uma Igreja que deseja dialogar, valorizar o ensino que interage com a sociedade. A Igreja não é só social, mas também não é um espiritual isolado da vida. É uma espiritualidade encarnada na realidade. 


3 - Padre José Maria Fernandes Machado, S.J. – diretor do Centro Loyola

A base e o esteio de toda a sociedade é a família. Se você consegue dar uma boa estrutura para a formação dos jovens, eles vão constituir famílias estáveis. Isso é fundamental para a Igreja e para toda a sociedade. Uma base bem formada e bem informada, em todos os aspectos, é essencial para o convívio no conjunto social. Nesse sentido, a Companhia de Jesus sempre se preocupou com a educação integral de cada pessoa. A questão não é só dar conhecimento, é também ajudar, principalmente às famílias, no momento de formação do indivíduo. O processo não educacional fomentado na Companhia prioriza essa formação integral do ser humano. Hoje, é essencial para o mundo olhar para a juventude e ouvir o que ela tem a dizer.


4 - Padre Pedro Magalhães Guimarães Ferreira, S.J., Presidente da Associação Mantenedora da PUC-Rio e professor emérito do Departamento de Engenharia Elétrica

Os jesuítas são estudiosos. Santo Inácio, nos primórdios da Companhia de Jesus, não pensava em educação, ele queria missionários. Os jesuítas foram chamados à educação. São Francisco Xavier, que também foi um dos fundadores dos jesuítas, foi logo para o Oriente, como missionário. Ele começou na Índia, em Goa. Lá, ele fundou o colégio São Paulo enquanto que, na Itália, um enviado de Santo Inácio fundou o Colégio de Messina. Essa questão do ensino, a gente conclui que está no DNA já dos jesuítas. Eles se distinguiram muito no ensino.


5 - Padre Luis Corrêa Lima, S.J., professor do Departamento de Teologia

Vivemos em uma conjuntura muito peculiar, na qual temos um Papa não-europeu que é latino-americano e, pela primeira vez na história, um Geral dos jesuítas também latino. Além das questões do terceiro mundo, ele trabalhou na conferência episcopal latino-americana e foi redator do Documento de Aparecida. O pontificado dele é marcado por esses temas. O Geral carrega consigo a América Latina no contexto mundial da Companhia. Eu penso que é um processo de descentralização da Igreja, de trazer para os centros pessoas com outros horizontes. Acho que se tivermos um Papa africano ou asiático e também um Geral africano ou asiático isso pode ser enriquecedor para a Igreja, as distintas origens podem contribuir para esse senso da universalidade.


6 - Padre Paul Schweitzer, S.J. – professor emérito do Departamento de Matemática

Padre Sosa foi reitor de uma universidade na Venezuela e é especialista em ciências sociais. Isso é extremamente importante para o trabalho em prol da justiça, da fé e da inter-religiosidade. Com todas as suas experiências, padre Sosa tem muito a oferecer em termos de orientação. Estamos em uma revolução enorme, vivemos em um mundo de aplicativos que mudaram fundamentalmente a relação humana. Passamos a conhecer grupos minoritários a partir da internet e devemos respeitar as diferentes culturas. Notamos também a mudança da questão de gêneros, dentro da diversidade, antigamente, não tínhamos nenhuma aceitação. Aos poucos isso está mudando.


7 - Padre Francisco Ivern Simó, S.J. – Vice-Reitor

Dentro da PUC, trabalhamos para que o estudante saia como um bom empresário, não só com a técnica, mas com princípios. Tentamos apresentar valores aos alunos, porque vemos a falta de honestidade e ética no Brasil de hoje. A presença jesuíta no campo educacional é fundamental. Claro que essa educação não se basta em escolas e universidades, há paróquias onde  trabalhamos os valores de justiça, de amor, de fidelidade à verdade e inter-religiosidade. O Papa falou disto em um documento anterior à Laudato Si, a Igreja deve colaborar com aquele que possui as mesmas noções, o que interessa são os princípios e não a religião.


8 - Padre Jesus Hortal Sànchez, S.J. – professor emérito do Departamento de Teologia

A vinda do Superior Geral demonstra um apoio bem claro à formação que a PUC oferece aos alunos, típica da Companhia de Jesus. Fundamentalmente, o que padre Sosa falou é o sentido de uma universidade católica dentro do panorama católico. A PUC nasceu no coração da Igreja, e a Companhia, ao prestar esse serviço, não poderia esquecer de promover uma instituição que carrega o adjetivo “católica” em si. As faculdades católicas deram voz e presença aos católicos latino-americanos em altos cargos, porque havia um déficit de educação. Eu diria que somos um degrau dentro do conjunto. Os jesuítas têm aproximadamente 200 instituições católicas de Ensino Superior, mas isso é dentro de um conjunto de dezenas de milhares instituições no mundo.


9 - Padre Ricardo Torri de Araújo, S.J, professor do Departamento de Psicologia

A visita de padre Sosa à PUC, portanto, é um gesto de reconhecimento, valorização e encorajamento do trabalho realizado nessa Universidade pelos seus confrades jesuítas e por todos aqueles que com eles colaboram – professores, funcionários e alunos – nessa obra. O discurso depadre Sosa foi magistral, de fato, memorável. A mim, me chamou atenção, em particular, a sensibilidade de que o padre Sosa demonstrou para com as questões socioambientais. O padre Sosa, vale lembrar, é sociólogo, e não se poderia esperar dele algo diferente. Os jesuítas não querem apenas informar os seus alunos e prepará-los tecnicamente para o mundo do trabalho; querem, isto sim, formar homens e mulheres “para os outros”.


Atribuições: 

1 - Padre Mário de França Miranda, S.J. Foto: Fernando Maia. 

2 - Padre José Abel de Souza, S.J. Foto: Matheus Aguiar. 

3 - Padre José Maria Fernandes Machado, S.J. Foto: Gabriela Doria. 

4 - Padre Pedro Magalhães Guimarães Ferreira, S.J. Foto: Isabella Lacerda. 

5 - Padre Luís Corrêa Lima, S.J. Foto: Matheus Aguiar. 

6 - Padre Paul Schweitzer, S.J. Foto: Gabriel Molon. 

7 - Padre Francisco Ivern Simó, S.J. Foto: JP Araújo. 

8 - Padre Jesus Hortal Sànchez, S.J. Foto: Gabriel Molon. 

9 - Padre Ricardo Torri de Araújo, S.J. Foto: Gabriela Garrido. 

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