Histórias cobertas de cinzas
04/09/2018 18:47
Julia Carvalho e Pedro Madeira

Manifestantes se reúnem na Cinelância para protestar após incêndio que destruiu Museu Nacional

A política de corte nos gastos públicos com a educação e cultura era uma das maiores reclamações dos manifestantes. Foto: Gabriela Azevedo

Pessoas de todas as idades lotaram as escadarias do Teatro Municipal para assistir às manifestações de mais um luto. Novamente, a Cinelândia se tornou palco da indignação da cidade:  Marielle, Edson Luiz e, agora, o Museu Nacional. Na segunda-feira, 3, manifestantes foram às ruas movidos pelo dor da perda causada pelo incêndio no domingo, 2, na Quinta da Boa Vista, Zona Norte do Rio, que destruiu 90% do acervo do Museu Nacional. Segundo a Polícia Militar, cerca de 4 mil pessoas se reuniram no local, já a União Nacional dos Estudantes (UNE) estima 15 mil. Logo que a notícia da tragédia se espalhou no domingo à noite, dois protestos foram organizados nas redes sociais. Por volta das 10h, manifestantes se reuniram em frente ao museu, na Quinta da Boa Vista, e, para às 16h, foi marcado o encontro na Cinelândia. A população chorava com as perdas irreparáveis e protestava contra as políticas de corte de verbas na educação e na cultura.

Historiador e etnólogo do Museu Nacional desde 2009, Crenivaldo Veloso, 40 anos, acompanhava a manifestação na Cinelândia junto à turma de pós-graduação de etnografia. Pernambucano, Veloso chegou há dez anos ao Rio e, um ano depois, passou a trabalhar na Quinta da Boa Vista com a coleção de antropologia social. O historiador presenciou o incêndio, viu o choro dos funcionários diante dos escombros da instituição e contou que o momento é de solidariedade entre os funcionários.

De acordo com Veloso, a função do setor era dialogar com os movimentos sociais - indígenas, africanos e afro-brasileiros - e recuperar as histórias e trajetórias de cada um. Ele não sabe se há material recuperável e acredita que o fogo atingiu praticamente toda a sessão de etnologia. Segundo Veloso, a nova diretoria do Museu desenvolvia um curso de prevenção contra incêndio.

- O museu não precisa de paredes. E olha que sobraram as paredes lá. No museu, o maior patrimônio são as pessoas, e as pessoas estão vivas, não morreu ninguém. O museu não estava entregue, ele era, simplesmente, o melhor centro de pesquisa antropológica de pós-graduação do país.

Veloso fez pesquisas sobre o histórico de relações entre Museu e poder público; dos entraves de investimento em pesquisa e conservação. O historiador teve acesso a relatórios que datam desde a Monarquia e, segundo ele, sempre houve relatos de problemas de planejamento, soluções e obstáculos no tratamento do poder público com o museu, seja na República, na Monarquia, ou no período da ditadura militar.

— É aquela velha fala que parece redundante, mas não pode deixar de ser recuperada, sobretudo em momentos de crise: o quanto a ciência, a cultura e a educação representam no orçamento das políticas públicas. Haveria a necessidade de reformas estruturais, que são apontadas por equipes do governo, e o Congresso Nacional e o ministro da Fazenda têm outras prioridades.

Muitos manifestantes traziam cartazes com frases em protesto ao descaso público. Foto: Gabriela Azevedo

Estudante do Colégio Pedro II, Unidade Caxias, Lorenna Farias, 17 anos, era estagiária do projeto da UFRJ no Museu Nacional. Ela fazia parte do laboratório de antropologia biológica e contou que não acreditou quando viu a notícia do incêndio, e sentiu como se tivesse perdido alguém da família por conta da relação que tem com o lugar.

— Não queimou um papel do museu, tudo o que perdemos foi como se fosse uma representação do que o governo está sempre tentando fazer, que é destruir nossa memória, destruir nossa história. Não tem como reparar os danos que tivemos, tanto para nós Brasil, como para o mundo também. A nossa história foi apagada, nunca mais vamos receber a confiança de outros países para expor as obras aqui.

Há seis anos, Nayla Oliveira, 22 anos, trabalhava como educadora na seção de assistência às salas. Ela lembrou que, ao guiar as pessoas pela construção, se sentia feliz por poder proporcionar o alcance e a vivência de outras experiências por meio do acervo e do diálogo. Daniela Alarcon, 34 anos, faz doutorado em antropologia social no Museu Nacional e disse conviver diariamente com a escassez de recursos. Por isso, afirmou, os profissionais que trabalham lá fazem uma verdadeira “pesquisa de guerrilha”. Ela comentou que, quando viu o lugar onde estuda ser reduzido a cinzas, sentiu que as instituições públicas são destruídas e tomadas da sociedade.

— O que foi perdido reverbera para o futuro de forma que a gente não é nem capaz de compreender, porque uma série de pesquisas poderiam ser feitas a partir do material que estava lá. E é um material que tem vida, é um material que tem a ver com a religião, com a história, com a memória de povos do Brasil e de outros países que foram violentados ao longo de toda sua existência. Isso é mais uma violência e um descaso.

Com um adesivo de campanha colado na blusa, Elise Correa gritava em protesto, próxima à multidão. A mestranda em Ciências Sociais da Uerj tirou o domingo para descansar na companhia da mãe. Às 23h30, viu que o telefone não parava de apitar, e nos grupos do WhatsApp os colegas da antropologia lamentavam o acontecimento ao vivo. Quando criança, Elise morava em Rio da Prata, depois de Campo Grande, mas pôde conhecer por meio da escola. Elise demonstrou indignação com o momento do país, um sentimento que, segundo ela, compartilha com todo brasileiro. Na opinião de Elise, a perda do material de pesquisa - segundo ela, só da antropologia eram mais de 30 mil arquivos - foi pouco divulgada pela mídia. De acordo com ela, as escolas de arqueologia, antropologia e paleontologia do Museu Nacional eram referências no Brasil e na América Latina; e o desejo de todo Antropólogo, segundo Elise, é se formar pela Escola de Pós-Graduação em Antropologia do Museu Nacional - a primeira do país.    

- Uma das maiores de Antropologia da América Latina, sabe? Não é pouca coisa. Primeiro, é um sentimento de tristeza muito grande, segundo lugar, de revolta muito grande. Porque essa tragédia não foi um acidente, é fruto de corte de verbas sucessivas que a UFRJ tem sofrido, é um incêndio emblemático, mas não é o primeiro.

Elise fez menção ao histórico de incêndios nas construções da UFRJ. Em agosto do ano passado, um incêndio no alojamento de estudantes, na Ilha do Fundão, deixou quatro moradores feridos. Em outubro de 2016, uma sala do prédio da reitoria também foi vítima do descaso. Em 2014, houve outro incêndio no Centro de Ciências e Saúde após um curto-circuito e, em 2011, o incêndio de maiores proporções pôs à baixo o teto da Capela do Campus da Praia Vermelha.

- É uma perda, realmente, inestimável. Um sentimento de tristeza muito grande; de revolta muito grande. Espero que seja o último incêndio. Mas é um episódio para todo o brasileiro refletir, porque está diretamente ligado ao golpe que a gente sofreu.

A estudante de museologia Leticia Melo, 22 anos, soube pelos amigos do incêndio, mas achou que era simples. Ao ver a tragédia no noticiário, chorou ao lembrar de quando optou pela profissão e disse ter compreendido o descaso do poder público com a memória do país. Segundo a estudante, deveria ser construído um memorial no local, para a sociedade não esquecer os mais de 200 anos apagados pelo fogo.

— A coisa mais importante agora é que as pessoas se sintam pertencentes, sintam que aquilo é delas também, que elas podem se apropriar desse espaço e usufruir, para lazer, para pesquisa, para qualquer coisa. E temos que salvaguardar ele, temos que zelar por ele e ter essa consciência de que é nosso. Acho que só assim vai doer em todo mundo como doeu em cada aluno da museologia, em cada profissional da UFRJ, do Museu Nacional.

Abarrotada nas escadarias da Câmara, Rebeca Brício, 34 anos, assistia à manifestação com um filho no colo e um outro menino, Guilherme, de 9 anos. Antes, Rebeca participou do protesto na Quinta da Boa Vista, pois o filho, que é fã de dinossauros, precisava se “despedir” do museu.

Rebeca lembrou que a Quinta da Boa Vista foi o cenário da infância dela: piqueniques e visitas ao zoológico, sempre com a família. Quando soube do incêndio, as lembranças do filho correndo pelos corredores do Museu vieram à tona e, comentou, as lágrimas foram inevitáveis. Para Rebeca, é triste pensar que um espaço democrático, de fácil acesso e acessível, tenha sucumbido, segundo ela, ao desleixo do poder público.

-  Lá é um lugar que a população carioca, principalmente aquela sem condições, frequenta muito. Eu fico triste e tento trazer meus filhos nos atos, porque o que ele vai estudar? Hoje, ele não foi à aula. Ele estuda numa escola pública e eu falei, ‘'Hoje, você não vai à aula. Hoje, a aula é na rua’.

Rebeca frequentava o parque e sempre que podia visitava o museu. Foto: Gabriela Azevedo

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