Mudança de hábitos
14/11/2018 12:21
Beatriz Puente

Mostrar a importância do consumo consciente e da alimentação saudável é uma das propostas da Feira do Desenho Vivo, que celebra 20 anos de atividade na PUC. Dentro do Projeto, há também a Feira Orgânica Solidária, que é realizada há dez anos e busca estimular uma mudança de mentalidade na relação com os alimentos.

A voluntária Luiza ensina crianças da Rede Pública de Ensino a reconhecer os alimentos. Foto: Thaiane Vieira

Germinação de sementes, alimentos orgânicos e resistência. Esses três pontos descrevem bem o que é a a Feira do Desenho Vivo, que comemora 20 anos de trabalho de conscientização de crianças de escolas públicas do Rio sobre a procedência dos alimentos, o efeito deles no corpo e como as sementes germinadas podem ajudar na saúde. Dentro do projeto, há também a Feira Orgânica Solidária, que celebra dez anos de distribuição de comida orgânica e pretende ser um símbolo de persistência e consumo consciente.

A professora Ana Branco, que ministra a disciplina eletiva Convivência com o Biochip, no Departamento de Artes & Design, é idealizadora do projeto. Ela explica que, todo ano, uma escola é escolhida para, semanalmente, às quartas-feiras, trazer alunos que participarão das atividades, como reconhecimento das verduras, legumes e frutas, o processo de germinação de sementes e o preparo do suco da luz do Sol, feito pela “vovó Ana”. A atividade envolve não só as crianças, como professores e funcionários das escolas.

Segundo Ana, o objetivo é ensinar, desde cedo, sobre consciência ambiental, sobre a importância de não desperdiçar alimentos e, em especial, de resistir ao envenenamento dos agrotóxicos. Para ela, a parceria com pequenos produtores que valorizam a produção orgânica é um dos caminhos para lutar contra esse sistema.

Ana Branco explica sobre o o funcionamento do site Rede Solidária. Foto: Thaiane Vieira

Em pesquisa feita em 2016, pela World Resources Institute, aponta que 41 mil toneladas de alimentos são jogadas fora por ano no país, o que colocou o Brasil entre os dez países que mais desperdiçam comida. Conforme Ana, a produção em massa, sem necessariamente ter um comprador, é um dos fatores principais para que isso ocorra. Para estimular uma mudança de consumo e evitar desperdício, ela criou o site de compras Rede Solidária da Feira Orgânica, em que as pessoas fazem o pedido antecipado do que querem comprar e pegam na Feira, na quarta-feira.

- Quando a gente vai nas feiras de rua, o vendedor, quando não consegue vender tudo e acaba jogando comida fora, porque no dia seguinte, devido ao clima, já pode estragar.  No nosso site Rede Solidária, por exemplo, a cenoura só é colhida se já foi comprada. É um site para comedores orgânicos, eles compram on-line e retiram na PUC. Não é uma feira que você vem, compra o que quiser e o que não vender é jogado fora. Nós sabemos quem são os produtores, que são pessoas de todo o Brasil que ainda lutam contra isso.  Colocar agrotóxico é fácil, mas a produção sem veneno é muito mais difícil. Trabalhamos com quem resiste, isso me orgulha bastante.

A professora explica que, ao selecionar o produto desejado no site, há dois preços: o convencional e o solidário. O convencional é baseado no circuito orgânico, e o solidário é um desconto de R$ 2 por quilo para quem se voluntariar a fazer a distribuição dos alimentos na quarta-feira que o comprador for buscar a compra. Para Ana, é uma forma de atrair voluntários, não apenas pelo trabalho, mas para que eles conheçam mais sobre a alimentação orgânica e comprem com o preço de custo. Os ajudantes das feiras são voluntários ou bolsistas da Universidade.

A Feira Orgânica busca promover o não desperdício e a comida cultivada sem agrotóxicos. Foto: Thaiane Vieira

A ideia da Feira do Desenho Vivo surgiu de uma pesquisa da Escola República da Colômbia, na qual os professores perguntaram aos alunos o que eles gostariam de aprender e a resposta foi fazer comida. Ana explica que a ideia de ensinar uma criança a usar fogão e faca era perigosa, por isso a germinação, processo pelo qual a semente começa a crescer, estudada na alimentação dos pássaros, surge como uma alternativa segura.

- Nos pássaros, percebemos o papo e a moela, eles germinam a semente no papo e vão digerindo gradativamente na moela, que é o estômago. Nisso, eles têm força para atravessar oceanos, botar ovo do outro lado do mundo. Como que os pássaros conseguem isso e a gente não? Com a germinação, a semente nasce e amplia o seu valor nutritivo em 20 mil vezes. Podemos abrir e  comer o núcleo. Se a gente comesse mais semente germinada, não precisaríamos de tanta comida. Essa história de destruir a terra para produzir alimentos que são necessários para o ser humano é um blefe, porque se fosse por questão de nutriente, a gente comia semente.

Processo de germinação de sementes de girassol. Foto: Thaiane Vieira

Voluntária há cinco anos no projeto, a aluna de Cinema Luiza Dreyer se interessou pelo trabalho ao perceber a movimentação no campus “de oferecer comida pelo ato de oferecer”. Aos poucos, ela foi se aproximando dos feirantes, cursou a disciplina Biochip e virou monitora da matéria depois. Luiza conta que, de todos os trabalhos que fez na Feira do Desenho Vivo, o que mais a encantou foi o com as crianças, por já ter experiência com palhaçaria. Para ela, esse trabalho voluntário a ensina sobre convivência, amor e dá esperança de um mundo melhor.

- É um dos trabalhos mais lindos que tem na PUC. Para mim, o trabalho social é uma das chaves de transformação no mundo, no meio do caos, e o que me traz esperança. As crianças me ensinam sobre afeto, diversidade e honestidade. Aprendi a trabalhar comunicação não violenta e dinâmica de escuta. É um trabalho de reconexão com o natural. É interessante porque as mães falam que, em casa, eles não comem nada e aqui eles lambem o prato, pedem para repetir porque não têm concorrência com açúcar ou industrializados. No final, a gente dá uma semente de girassol germinada para cada um e fala sobre essa magia, que é um ser vivo, e eles pegam e cuidam com uma delicadeza, vira um outro tipo de relação com a natureza.

Crianças participam da atividade de desenho de mandala com frutas amassadas. Foto: Thaiane Vieira

Eduardo tem nove anos e é da Escola Municipal Claudio Besserman Vianna, que fica em Rio das Pedras. Ele participou da feira pela primeira vez com a turma e gostou de ter aprendido sobre os alimentos, de reconhecer quando tem agrotóxico e da experimentação da comida.

- Eu achava que comida com formiga era ruim, mas a tia me ensinou que se tem formiga é porque não tem veneno, que é bom para gente porque a formiga também não gosta de veneno. Gostei da parte do suco porque eu achei legal ela fazendo, falou da força da luz do sol e de ser saudável. Eu também comi três sementes de girassol para ficar bem forte.

Sobre a disciplina Convivência com o Biochip, Ana explica que a matéria ensina formas de fazer as sementes nascerem, a questão alimentar, e aborda também o desperdício e o cuidado com a terra. Para a professora, esse trabalho de consciência orgânica é importante não só para a saúde, mas abrange o meio ambiente, os produtores, o agronegócio, a indústria farmacêutica e as pesquisas nessa área que não recebem incentivo.

- O consumo animal só destrói o nosso corpo, isso já sabemos. Agora, a questão da terra, dos agrotóxicos e do desperdício tem que ser pensada. As nossas doenças hoje são, na maioria, geradas pela comida industrializada e depois não tem medicina que dê solução. Não há verba para esse tipo de pesquisa por conta da indústria farmacêutica. Por isso que faço esse trabalho aberto, para tentar passar um pouco de informação para população.

Professora Ana Branco fazendo o suco de luz do Sol para as crianças. Foto: Thaiane Vieira

A professora é otimista em relação ao projeto. Para ela, lutar contra o sistema de produção em massa e contra o uso de agrotóxicos e ver uma pequena vitória significa que há chance de mudança. A professora conta que um ex-aluno, que mora atualmente na Croácia, tem a própria horta em casa e que isso é resultado da informação e da semente que foi plantada anos atrás. O objetivo do projeto é que cada vez mais pessoas estejam dispostas a experimentar novas formas de consumo e de alimentação.

- Ver uma criança estar disposta a fazer uma mudança alimentar é o que me encanta. Porque eles estão tão sujeitos a propagandas, televisão, isso achata as vontades. A coisa mais bonita é ver que a espécie melhora, que alguns querem provar, repetir e são curiosos, mesmo que alguns corram. Mas eu vejo que há uma chance. Algumas pessoas estão resistentes e desejando uma outra história.

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