Luiz Cezar Fernandes acredita que o caminho para o sucesso é fazer ‘com amor e com gosto’
Por Felipe Scofield

Luiz Cezar Fernandes em palestra da Liga de Mercado Financeiro da PUC-Rio. Crédito: Felipe Scofield.
“Faça com amor e com gosto. A pior coisa é fazer o que não se gosta. Divirta-se”. Este é o conselho que um dos maiores nomes do mercado financeiro do Brasil, Luiz Cesar Fernandes, deu aos estudantes da PUC-Rio em palestra organizada pela Liga de Mercado Financeiro, que completou uma década de história em 2025. Com o objetivo de atuar como uma ponte entre o meio acadêmico e profissional, a Liga convidou Fernandes, uma das figuras que moldou a forma de investir no Brasil, para contar um pouco de sua trajetória e compartilhar lições com os estudantes.
Sócio-fundador do Banco Garantia e do Banco Pactual, Fernandes tem no seu “currículo” a aquisição, por US$ 1 milhão, da emblemática fazenda Marambaia na serra fluminense. A propriedade conta com um jardim projetado por Roberto Burle Marx, dois andares e 12 quartos. Mas os ventos mudaram, e o empresário vendeu a casa para uma empresa de hotelaria. Agora, está loteando o terreno onde, por mais de 20 anos, criou ovelhas e que um dia fez parte da sua essência empresarial.
Desfazer-se de um bem como a fazenda não foi fácil. Fernandes é um banqueiro orgulhoso e competitivo. Começou como carteiro do Bradesco em 1959, no interior de São Paulo. Com 14 anos, já vivia o sonho de um dia virar presidente de banco. O empresário Jorge Paulo Lemann o definiu em uma entrevista como “sinônimo de dinamismo, de correr atrás. Alguém criativo e especial”.
Aos 16 anos, foi promovido a gerente administrativo da agência em que trabalhava. Logo foi transferido para o Rio de Janeiro, com 17 anos. Sentiu-se desprestigiado por ter sido mandado para Madureira, bairro distante de sua residência, em Botafogo. O empresário afirma que a transferência aconteceu por um problema político.
“Eu voltava bem tarde de trem. Pelo horário, só sobravam os bêbados. Era um perrengue ter que trabalhar em Madureira. Estavam me punindo.”
Mas ele sabia que, mesmo com a queda momentânea, os chefes reconheceriam seu esforço e trabalho. “Eu não queria sair por baixo”. Em 1969, o então diretor do banco, Lázaro Brandão, ofereceu uma promoção, em Belo Horizonte. “Agora, estou sendo reconhecido porque sou bom. Dos 10 mil funcionários do banco, você acha que sou a pessoa para ir a Belo Horizonte?”, questionou. Num ato de petulância profissional, não aceitou a oferta e pediu demissão. Durante a palestra, Fernandes reiterou que sempre gostou do que fazia e que confiava na sua capacidade de trabalho: “Não fui eu que escolhi o mercado financeiro, foi o mercado financeiro que me escolheu”.
Dois anos depois da saída do Bradesco, em sociedade com Jorge Paulo Lemann, fundou a corretora Garantia. Das aventuras que viveu ao longo da juventude, uma das maiores foi fazer estágio no JP Morgan e no Goldman Sachs, graças ao auxílio de Lemann, em 1972, ainda no início do Garantia. Obstinado, não sabia falar inglês, mas fez com que o então jovem estagiário Marcel Telles, atual sócio da Ambev, se tornasse seu intérprete.
Em 1993, Fernandes foi a São Francisco, nos Estados Unidos, para propor à equipe da HP um projeto que seria o precursor do banco digital, com funcionamento similar ao sistema de cartão de crédito. Pela proposta, qualquer um poderia levar para onde quisesse um valor virtual e utilizar esse crédito para realizar pagamentos. A operação seria efetuada e registrada por computadores, algo pouco popular e acessível. A ideia não foi para frente e, até hoje, é uma frustração que carrega.
“Se tivesse conseguido, não haveria a XP hoje em dia”, afirmou.
O empresário adora contar a origem do nome Pactual. André Jakurski, um dos sócios, era amante da astronomia e havia feito uma lista enorme de nomes relacionados a planetas e estrelas. Dentre eles, Mutual, que, na astrologia, significa uma interação forte e recíproca entre dois astros. No dia 30 de dezembro de 1983, Fernandes recebeu uma ligação do Banco Central informando que já havia um banco com o nome Mutual. A ideia de um de seus assistentes foi pegar o “P” de Paulo Guedes, o “A” de André Jakurski e o “C” de Cezar para formar“Pactual”. “Achamos um horror. Estávamos certos de que em janeiro iríamos mudar”.
Durante o tempo no Pactual, Fernandes foi visto como símbolo de poder. Nomes importantes da economia brasileira se destacaram ali, muitos dos quais responsáveis pela sua saída do banco. André Esteves, Eduardo Plass, Gilberto Sayão, Marcelo Serfaty eram sócios, além de Paulo Bilyk, executivo em ascensão na época.
Luiz Cezar Fernandes já foi dono da Latinpart, holding das Indústrias Têxteis Barbéro (Teba), fabricante de linho; da Overprint, fabricante de embalagens, e da CTM Citrus (Citromatão), empresa de processamento de suco de laranja. Todas foram grandes fracassos, o que ocasionou uma dívida de US$ 142 milhões. Os sócios do Pactual, segundo Fernandes, montaram uma armadilha para que ele deixasse a empresa. Condicionaram a solução financeira para a quebra da holding à venda de sua participação acionária no banco. Ele se recusou, mas, com o tempo, a asfixia financeira a que foi submetido resultou na sua saída do Pactual.
Hoje, aos 80 anos, mantém a visão da juventude. Faz questão de ressaltar o esforço que sempre dedicou à carreira. Contou que já dormiu diversas vezes no trabalho, após jornadas de mais de 18 horas. “Se eu tivesse trabalhado 8 horas por dia, nunca teria chegado onde cheguei”. Em sua recém lançada biografia, “Cezar: A história de Luiz Cezar Fernandes, que construiu os dois maiores bancos de investimento do Brasil e revolucionou o mercado financeiro”, o empresário afirma que as principais características para o sucesso foram ter bom raciocínio lógico, determinação, fazer com gosto, ter metas altas e definidas. “Sou sempre um grande sonhador”.

