Conceição Evaristo destaca a prática de construção da escrita como um exercício de luta
Por Ana Beatriz Rangel e Camila Guanabara

Conceição Evaristo na palestra “Novos Cenários da Escrita”, na PUC-Rio. Créditos: Pablo Campos.
Conceição Evaristo teve seu primeiro contato com a leitura e a escrita ainda na infância, quando precisava ler as listas de roupas que sua mãe lavava para fora. Contato este que foge do ideal. Por isso, a escritora reforça a importância da literatura estar fora dos muros das universidades, trazendo a escrevivência como ponte que conecta o mundo acadêmico a todas as camadas da sociedade.
Na palestra “Novos Cenários da Escrita”, na PUC-Rio, Conceição abordou a escrevivência – conceito por ela criado – como forma de resistência das pessoas pretas. Baseado na escrita que carrega experiência e se concentra no coletivo, o conceito não é uma escrita para si, é sobre o “nós” e a capacidade de causar identificação.
Conceição usou como analogia, para explicar esse modo de escrever, a história de Oxum e Iemanjá, orixás das religiões de matriz africana. Na cosmo visão negro-brasileira, as duas guerreiras usam espelhos não somente para refletir a si mas para enxergar a coletividade. Diferente do conto grego em que Narciso, por se achar tão belo, afoga-se em busca de seu reflexo nas águas de um lago, a mitologia iorubá reforça a importância de enxergar o outro. A escrevivência se apresenta, então, como uma forma de fortalecer as vivências da população afro-brasileira.
Essa literatura se distancia de conceitos já existentes, ultrapassa os limites de gêneros textuais e surge como uma forma de resgate histórico de povos esquecidos e rejeitados pela sociedade. Conceição afirma que é uma ferramenta para reivindicar memórias e identidades.
– Acredito que as histórias que eu escrevo, os enredos que eu procuro, a linguagem que eu busco imprimir a esses textos, está dentro de um projeto estético de literatura. Procuro também confundir essa linguagem com a linguagem oral. Assim, a própria prática de construção, de revelação, de colher essas histórias para escrever, sem sombra de dúvida, também é um exercício de resistência.

Conceição Evaristo autografa livro em palestra “Novos Cenários da Escrita”, na PUC-Rio. Créditos: Pablo Campos.
O método resgata a memória da escravidão no Brasil. As histórias e saberes esquecidos dos povos negros e, principalmente, das mulheres escravizadas tem um papel de destaque. A intelectual sugere que é preciso ter uma escrita ativa, que compreenda os saberes rejeitados pela sociedade, sobretudo aqueles que derivam das classes populares, para que ocorra uma intervenção no mundo.
– A nossa escrevivência não pode ser lida como uma história para ninar os da Casa Grande, mas sim para incomodá-los em seus sonos injustos. Esse tipo de texto dá uma linha para se pensar o que seria a vivência e como contar as histórias esquecidas. Acho que fica explícito que, quando estamos falando de experiência, não falamos só de uma escrita gráfica, falamos, inclusive, de uma escrita de corpo.

