Vice-Reitor Padre Miguel e os professores Valéria Bastos e Amaro Marques destacam os impactos da iniciativa na cultura institucional da PUC-Rio

Padre Miguel, com os professores Amaro e Valéria, estão à frente da Semana de Memória Ancestral

Padre Miguel, com os professores Amaro e Valéria, estão à frente da Semana de Memória Ancestral

De 11 a 13 de maio, a PUC-Rio promove a Semana da Memória Ancestral, iniciativa que busca valorizar histórias, culturas e saberes que ajudaram a construir a sociedade brasileira e a própria Universidade. A programação propõe debates sobre memória, ancestralidade, racismo estrutural, inclusão e reparação histórica, reunindo diferentes áreas do conhecimento em atividades acadêmicas, culturais e formativas.

 Em entrevista ao PUC Urgente, o Vice-Reitor Padre Miguel, SJ, a professora Valéria Bastos (Serviço Social) e o professor Amaro Marques (Arquitetura) refletem sobre a importância de ampliar espaços de escuta, fortalecer políticas de permanência e reconhecer a contribuição de povos negros, indígenas e comunidades historicamente silenciadas dentro do ambiente universitário. Os entrevistados também destacam o papel da Universidade na construção de uma cultura institucional mais diversa, inclusiva e comprometida com a transformação social. A programação completa da Semana da Memória Ancestral está disponível neste link.

 

Qual é o principal objetivo da Semana da Memória Ancestral dentro do contexto universitário?

Padre Miguel: A Semana da Memória Ancestral nasce como um espaço de reconhecimento, escuta e valorização das histórias, culturas e espiritualidades que constituem a formação do povo brasileiro e da própria universidade. Ao instituir oficialmente o 13 de maio como Dia da Memória Ancestral, a PUC-Rio, como universidade comunitária, assume o compromisso de ressignificar uma data historicamente marcada por ambiguidades, deslocando o foco de uma narrativa centrada apenas na abolição formal da escravidão para a valorização da resistência, da dignidade e da contribuição do povo negro e dos povos originários na construção da sociedade brasileira.

Dentro do contexto universitário, o principal objetivo da Semana é promover uma cultura institucional de memória, justiça e reparação, favorecendo reflexões sobre racismo estrutural, desigualdades históricas e inclusão. Trata-se também de fortalecer a universidade como espaço de diálogo intercultural, produção de conhecimento comprometido com os direitos humanos e promoção da dignidade humana.

Além disso, a Semana busca integrar ensino, pesquisa, extensão e espiritualidade, estimulando a comunidade acadêmica a reconhecer a ancestralidade não apenas como memória do passado, mas como presença viva que continua inspirando identidades, saberes, formas de resistência e projetos de futuro.

Por que é importante discutir o tema no ambiente acadêmico?

Valéria Bastos: Acredita-se que, desde sempre, deveríamos trazer para o centro do debate a relevância da memória e ancestralidade no ambiente acadêmico, considerando as consequências deixadas pelos anos de escravização praticados no Brasil. Hoje se torna  fundamental  envolver a universidade, não apenas porque é um espaço de produção técnica de conhecimento, mas também por ser um território de disputa de narrativas, reconhecimento histórico marcado por um contexto de profundas desigualdades sociais, raciais, culturais e territoriais, para que seja possível avançarmos na recuperação de trajetórias historicamente negadas, bem como combater narrativas únicas sobre a formação social brasileira. Com isso, penso que se possibilita questionar quais as histórias foram legitimadas, quais saberes foram silenciados e quem foi autorizado a falar em nome da ciência. Entendo que a formação universitária brasileira foi estruturada, durante muito tempo, sob bases eurocêntricas, valorizando determinados referenciais teóricos e invisibilizado contribuições de povos indígenas, populações negras, comunidades tradicionais, mulheres e sujeitos periféricos. Trazer como um marcador a relevância da memória e ancestralidade é enfrentar esse processo de esquecimento institucionalizado.

Como a Igreja e a Universidade podem contribuir juntas para o resgate da memória ancestral?

Padre Miguel: A Igreja e a Universidade possuem uma responsabilidade comum na promoção da dignidade humana, da justiça social e da cultura do encontro. Quando caminham juntas, podem contribuir significativamente para o resgate da memória ancestral por meio da escuta das vozes historicamente silenciadas, da valorização das culturas afro-brasileiras e indígenas e da promoção de práticas educativas comprometidas com a inclusão e a reparação histórica.

A Universidade oferece o espaço crítico da pesquisa, da reflexão acadêmica e da formação cidadã. Já a Igreja, especialmente à luz do Evangelho e do magistério recente do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, é chamada a promover uma espiritualidade da fraternidade, da reconciliação e da valorização dos povos e culturas. Essa parceria pode favorecer iniciativas interdisciplinares, atividades culturais, ações pastorais, rodas de conversa, celebrações e projetos educativos que fortaleçam a consciência histórica e o respeito à diversidade.

Mais do que recordar o passado, trata-se de construir uma memória reconciliada e transformadora, capaz de gerar compromisso ético com uma sociedade menos desigual e mais humana. Nesse sentido, memória ancestral também significa reconhecer a presença e a contribuição daqueles e daquelas que, mesmo marcados pela exclusão, ajudaram a construir a identidade do país e da própria universidade.

Como a Universidade tem incorporado pautas raciais e históricas em suas ações institucionais?

Valéria Bastos: Eu tenho a formação universitária marcada pelo século passado, nos anos 1980. Sou uma mulher negra e identifico a incorporação de pautas raciais e históricas pelas universidades, na atualidade, evidenciada em alguns níveis, a saber: área do acesso, em algumas áreas também voltadas para permanência, e, em menor escala, no processo formativo (currículo/produção de conhecimento) e memória/reparação simbólica. Mas o que se quer e o que considero importante é um processo que busque produzir uma reconfiguração do projeto universitário diante das desigualdades históricas brasileiras.

De que forma a arquitetura e o urbanismo podem preservar ou apagar memórias ancestrais?

Amaro Marques: A arquitetura e o urbanismo, como os outros campos do saber, não são neutros. Nessa medida, a arquitetura pode apagar ou exaltar determinadas identidades culturais e artísticas. Por exemplo, nas diversas reformas urbanas realizadas na cidade do Rio de Janeiro, quanto foi apagada a presença dos povos originários e dos negros em diáspora? Como os diversos processos higienistas e de gentrificação incidem, desde o século XIX, na região conhecida como Pequena África, e como esse território é disputado pelo mercado imobiliário? Portanto, é possível preservar ou apagar e, muitas vezes, não contar de forma honesta o complexo processo de invasão e de extermínio dos povos originários no Brasil.

Como a universidade pode estimular projetos que valorizem territórios de memória ancestral?

Amaro Marques: Estamos em um momento interessante na Universidade. Nas últimas décadas, houve um crescimento no interesse por temáticas emergentes – como as questões das minorias étnicas, dos povos originários e da diáspora africana -, fazendo com que esses territórios passassem a ser mais valorizados. Além disso, muitos pesquisadores têm rompido com a lógica de pesquisar sobre uma determinada comunidade, passando a construir a pesquisa junto a ela. Para estimular isso, precisamos de mais linhas de financiamento e de bolsas para esse tipo de investigação, bem como de incentivo para a publicação de livros e outras produções que divulguem os resultados desses trabalhos.

Como a oficina de letramento racial pode impactar a formação dos alunos?

Valéria Bastos: É uma das ferramentas potentes para impactar a formação dos discentes de maneira profunda, transversal e duradoura, bem como de docentes, porque ela não atua apenas no nível da informação, mas no nível da consciência crítica, da postura ética e da competência profissional diante das desigualdades raciais. Facilita a compreensão de que o racismo é um fenômeno histórico, institucional e socialmente produzido.

Quais os principais desafios enfrentados no combate ao racismo estrutural nas universidades?

Amaro Marques: Em linhas gerais, temos ainda a dificuldade de acesso e de permanência. Estamos falando de alunos que precisam não só de auxílio para transporte, alimentação e moradia, mas também de recursos para a compra de livros ou de um computador, por exemplo. Também precisamos continuar avançando no quesito da diversidade étnica em relação aos docentes e aos cargos de gestão.

Que mudanças concretas a Semana da Memória Ancestral pode deixar na Universidade?

Padre Miguel: Esperamos que a Semana da Memória Ancestral deixe marcas permanentes na cultura institucional da universidade. Mais do que um conjunto de atividades pontuais, o desejo é que ela fortaleça processos contínuos de conscientização, diálogo e transformação.

Entre as mudanças concretas esperadas, está o aprofundamento de políticas institucionais de inclusão, permanência e valorização da diversidade étnico-racial; o fortalecimento de pesquisas e projetos ligados às questões afro-brasileiras, indígenas e ancestrais; e a ampliação de espaços de escuta e participação dentro da comunidade universitária.

Também esperamos que a Semana contribua para sensibilizar estudantes, professores e colaboradores para a importância da memória histórica e para o enfrentamento do racismo em suas diferentes formas. A universidade é chamada a formar não apenas profissionais competentes, mas cidadãos comprometidos com a justiça, a fraternidade e a transformação social.

Por fim, deseja-se que a Memória Ancestral se consolide como dimensão constitutiva da identidade da PUC-Rio, inspirando práticas acadêmicas, culturais, pastorais e institucionais que reconheçam a riqueza da pluralidade humana e promovam uma convivência mais solidária, respeitosa e verdadeiramente inclusiva.

Valéria Bastos: Nossa expectativa e desejo maior é de que a Semana produza na consciência da comunidade acadêmica, sobretudo nos docentes e discentes, a consciência de incorporação efetiva de produções intelectuais negras, indígenas e latino-americanas que, muitas vezes, permaneceram invisibilizadas. O objetivo é estimular para que revisitem conteúdos, metodologias e referências teóricas, em busca de maior reconhecimento da memória e das identidades presentes na comunidade acadêmica, intensificando, assim, as reflexões sobre memória ancestral.

Espera-se ainda que possa ampliar o sentimento de pertencimento de estudantes, docentes e técnicos, especialmente daqueles oriundos de grupos historicamente subalternizados. Além disso, reconhecer trajetórias, histórias de resistência e heranças culturais significa também legitimar a presença desses sujeitos na Universidade como produtores de conhecimento. Que seja um incentivo à criação de práticas institucionais permanentes. Enfim, o que se deseja é que a Semana seja disparadora de ações continuadas: grupos de estudo, projetos de extensão, políticas de acolhimento e permanência, formação docente, revisão de protocolos e ampliação de espaços de escuta e denúncia. Entende-se e intenciona-se que o debate não se encerre na programação, mas reverbere em medidas efetivas.

Amaro Marques: Este é um momento de profunda reflexão, mas também de luta. As mudanças devem caminhar no sentido de uma maior presença e participação das minorias étnicas em todos os espaços da universidade, para que o nosso campus se torne cada vez mais inclusivo e diverso. Espero que as políticas de acesso e de permanência para o povo preto e para os povos originários sejam ampliadas. Em algum momento, também precisaremos conversar sobre reparação histórica, bem como sobre a ampliação das políticas de cotas. Enfim, o caminho ainda é longo para que possamos falar minimamente em igualdade racial.