Um século de Divina Cleonice
30/09/2016 17:42
Thaís Silveira e Thays Viana / Foto: Gabriela Doria

Maior referência em Fernando Pessoa no Brasil é tema de livro e site

Maior especialista em literatura portuguesa do país e professora emérita da PUC- -Rio e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Cleonice Berardinelli ganha várias homenagens após completar cem anos. Será lançado o livro Genuína Fazendeira: os frutíferos 100 anos de Cleonice Berardinelli, com textos de artistas, como Maria Bethânia e Adriana Calcanhotto. Dentro das comemorações, o Decanato do Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH) prepara um site-homenagem com o título Cleonice – 100 anos, com declarações de algumas das cem pessoas que participaram do livro.

Divina Cleo, como é carinhosamente chamada por alunos e admiradores, é especialista em Fernando Pessoa e escreveu a primeira tese de livre-docência sobre o autor no Brasil. Ela também é referência em Camões e Gil Vicente e já publicou diversas antologias sobre as obras dos dois autores portugueses. Em 2010, ela se tornou imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL) ao ocupar a cadeira de número oito. Hoje, ela é a única representante da PUC na Academia.

Considerada uma ponte entre o Brasil e Portugal, ela é a maior lusitanista do país. A paixão por Fernando Pessoa surgiu por meio do professor português Thiers Martins Moreira, catedrático de língua portuguesa da antiga Universidade do Brasil. Dentre as obras de Cleonice, a mais recente é a edição de Mensagem, de Fernando Pessoa, lançada em 2014. Também se destacam Estudos Camonianos, de 1973, sobre Camões, e Fernando Pessoa: outra vez te revejo..., de 2004.

Formada em Letras Neolatinas pela Universidade de São Paulo (USP), ela ministrou aulas de graduação e pós-graduação no Departamento de Letras da PUC por mais de 40 anos. O diretor do Departamento, professor Karl Erik Schollhammer, exalta as qualidades de Cleonice como profissional.

– Considero-a fora da curva em todos os sentidos profissionais. Ela nunca me deixa de impressionar pela seriedade, competência, paixão pelo saber Maior referência em Fernando Pessoa no Brasil é tema de livro e site e memória borgesiana.

Dos cem anos de vida, quase 70 foram dedicados à vida acadêmica. Dona Cleo tem uma saúde admirável. Lúcida, ela ministrou aulas, desenvolveu pesquisas e orientou dissertações de mestrado e teses de doutorado sobre Literatura Portuguesa até depois dos 90 anos.

O Reitor da PUC, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., que também contribuiu com textos para o livro sobre Dona Cleo, ressaltou a importância da professora para a Universidade.

– Na PUC-Rio, na Academia e na sociedade, a mestre Cleonice nos mostra esta sublime arte de saber envelhecer, conservando a busca da verdade, o desejo de profundidade literária, a alegria de viver e a capacidade de colocar amor em tudo o que faz.

Durante a trajetória, adquiriu grandes admiradores, como o Decano do CTCH e ex-aluno, professor Júlio Diniz. Ele conheceu Dona Cleo no segundo ano do curso de Letras da UFRJ, em uma conferência sobre Gil Vicente. Diniz ficou encantado com a voz dela. Segundo ele, Cleonice é uma professora performática, porque une talento artístico com conhecimento.

– O saber e o sabor têm a mesma etimologia, e a Dona Cleo é isso. Ela não dá aula, ela dramatiza, o que é fundamental para ser uma boa professora.

Referência em literatura portuguesa atualmente, Cleonice já recebeu diversos prêmios do governo de Portugal e foi homenageada pelo Instituto Camões. Ela também é Acadêmica Correspondente da Academia das Ciências de Lisboa. No Brasil, a literária formou gerações de professores e pesquisadores. Seis dos ex-alunos dela estão na ABL, dentre eles, o jornalista e colunista do Jornal O Globo, Zuenir Ventura.

Ele foi aluno de Cleonice na Faculdade Nacional de Filosofia, quando cursou Letras. Em março do ano passado, ocupou a cadeira de número 32 da ABL. Em uma das colunas, o jornalista deixa claro a grande admiração que tem pela professora, inclusive, declara que ela é uma musa inspiradora, uma paixão platônica e inconfessável até hoje.

O primeiro contato de Cleonice com a profissão veio por influência dos pais, apaixonados por poesia. Eles encontraram uma professora para dar aulas de declamação a ela e a matricularam na faculdade de Letras na USP. O pai dela, um oficial do Exército, frequentemente era transferido de estado. Assim, a família se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo, onde Cleonice começou a graduação. Na época, ela amava matemática e pensava em cursar Engenharia.

Na USP, ela conheceu o professor português Fidelino de Figueiredo, primeira referência dela na profissão. Assim, Dona Cleo se encantou pela literatura. Após se formar e retornar para o Rio, ela se tornou assistente de Thiers Martins Moreira, responsável por apresentá- la a Fernando Pessoa. A primeira tese sobre o autor no país, feita pela professora, foi a segunda do mundo.

Generosa, gentil e muito rígida dentro da sala de aula, Cleonice é a professora que está no quadro docente da Pontifícia há mais tempo. Além de ser referência em poesia portuguesa, ela canta e toca piano incrivelmente segundo Diniz. De acordo com ele, a UFRJ e a PUC ganharam uma excepcional professora, enquanto o teatro perdeu uma grande atriz.

– Ela é a popstar da literatura portuguesa.

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