Efeito colateral da cidade
31/10/2016 17:09
Erick Foti e Juliana Valente / Fotos: Acervo pessoal

A evolução das técnicas do grafite resultou em uma nova visão sobre a arte urbana

Grafite feito pelo Bruno Big e Nicolau Mello no Jardim Botânico


O ato de se apoderar das ruas é antigo, mas só chegou ao Rio de Janeiro com força na década de 90. A princípio considerado marginalizado, o grafite hoje já integra a paisagem da cidade. Restrito, inicialmente, aos guetos, a pintura de rua passou a ser vista como uma arte urbana legítima e moderna quando os estudantes de design a trouxeram para a Zona Sul carioca. A partir daí,a maneira como as pessoas e os veículos de comunicação tratavam o grafite mudou. Ao longo dos anos 2000, a valorização foi notória e resultou, no ano de 2014, em um decreto – GrafiteRio – que liberou postes, colunas, muros, laterais de prédios, pistas de skate e tapumes de obras - exceto os considerados patrimônios históricos - para os grafiteiros.

O grafite surgiu em Nova Iorque, no início dos anos 70, com outras formas de expressão cultural, como o hip-hop. A pretensão era, inicialmente, ser símbolo de afirmação de um grupo e uma forma de status para o pichador. O teor ideológico do movimento fazia com que os pintores buscassem locais de intenso fluxo de pessoas e veículos de transporte de massa, como o metrô, para fazerem as pinturas. No Brasil, entre os anos 80 e 90, a cidade de São Paulo foi o principal cenário deste tipo de manifestação urbana.

Segundo os próprios artistas, a diferença entre a pichação e o grafite é simplesmente estética. A primeira pode ser considerada a forma embrionária e, por isso, explica parte do preconceito que os grafiteiros sofreram durante muitos anos. As duas formas de pintura não podem ter lucro, devem ser feitas sem autorização de quem é dono do espaço e não podem sofrer nenhuma interferência. Apesar dos discursos para os diferenciar, o Brasil é o único país que tem palavras distintas para definir os dois termos.

Formado em Comunicação Visual pela PUC-Rio, Bruno Big, teve o primeiro contato com o grafite ainda na Universidade com El Ninho Crew, um grupo de amigos que se reuniam para grafitar nas ruas e no Centro dos Representantes dos Alunos de Artes (CRAA). Atualmente, Big é assistente na aula de gravura da professora Thereza Miranda, do Departamento de Artes e Design. Para ele, o grafite é uma necessidade do ser humano.

- Eu vejo o grafite como um efeito colateral da cidade. O homem sempre que pôde marcou o espaço em que esteve presente desde as pinturas rupestres nas cavernas até hoje. É o que eu penso do grafite, street art, pichação e todos os movimentos que vêm no mesmo barco. Eles se apoderam da rua, mas é mais uma necessidade de estar na rua criando.

A evolução das técnicas de desenho resultou em uma nova visão sobre a arte urbana e abriu caminho para que integrasse as grandes galerias no mundo. Porém, as que chegam às exposições são feitas por pessoas de diferentes origens artísticas. Dessa vertente mais séria e profissional, surgiu o conceito de muralismo que, segundo Big, difere do grafite pela burocracia para a confecção de um mural.

- O grafite é uma coisa que não tem aprovação, é uma arte livre, já o mural precisa de autorização e contrato. O grafite é o ato de você ir à rua, pintar e se apoderar daquele espaço. Os dois são arte, mas com intenções diferentes. A gente muda o espaço público porque a rua nos permite criar e mostrar o nosso trabalho, o que é imprescindível hoje para um artista.

Diante dessa tendência, cinco pinturas muralistas, 1.500 latas de spray e 500 litros de tinta colorem prédios no Maracanã, Santo Cristo, Centro, na Praça da Bandeira e Lapa. Um dos maiores projetos de arte urbana da cidade, com mais de 1.700 metros quadrados foi grafitado pelos ex-alunos da PUC-Rio Bruno Big, João Nitcho, Mateu Velasco, Nicolau Mello e o estudante de Desenho Industrial Thiago Tarm. O Rio Esporte Arte, produzido também pelo produtor cinematográfico Gabriel Durán, consistiu na confecção de murais com temática esportiva no período em que o Rio de Janeiro sediava os Jogos Olímpicos e Paralímpicos.

A escolha da localização das pinturas remete ao objetivo do grafite de alcançar um grande número de pessoas, mas o fazer está mais próximo do muralismo. Segundo Nicolau Mello, o projeto não pode ser considerado grafite por causa do investimento, o planejamento e a burocracia para a realização dos trabalhos.

- Quando fomos fazer o Rio Esporte Arte, insisti com a assessoria de imprensa para não chamar os trabalhos de grafite, e sim de pintura muralista. Estávamos sendo pagos, tínhamos investimento de patrocinador, tema, equipe, maquinaria e retorno de mídia. Fizemos um outro tipo de serviço que não é mais nem menos do que o grafite, apenas tem uma proposta diferente.

Pintado a Praça Ana Amélia, no Centro, o mural do artista João Nitcho visa pensar a acessibilidade, o estímulo à prática esportiva e o respeito às pessoas.


A pintura muralista ainda é pouco difundida no Rio de Janeiro, em comparação com São Paulo. O Rio Esporte Arte utilizou-se do período olímpico para estimular o mercado e incentivar esse tipo de arte. Após três anos de idealização e processos burocráticos, os organizadores conseguiram a aprovação da prefeitura para realizar o trabalho.
Os esportes representados nos painéis foram definidos pelos próprios pintores. Mesmo com liberdade, Nicolau sentiu necessidade de reproduzir uma pintura dedicada às Paralimpíadas. O artista João Nitcho foi o selecionado para a tarefa e optou pelo basquete em cadeira de rodas. Segundo Nitcho, alguns fatores influenciaram na decisão.

- Escolhi o basquete em cadeira de rodas pelo layout do prédio, que tem um vão grande entre suas duas faces, o que criou um problema por não poder fazer um desenho contínuo. Além disso, é um esporte que gosto e pratico. Pesquisei muito por fotografia e me interessei pela plasticidade dos movimentos. Procurei imagens em livros, revistas e internet.

Grafite feito pelo artista Nicolau Mello no alto do Complexo do Alemão


O grafite é uma arte que tem vários estilos, entre os quais transitam os participantes do Rio Esporte Arte. Os traços que marcam os grafites e os murais são influenciados pelo gosto estético e a história pessoal dos pintores. O diretor do projeto, Nicolau Mello, possui um estilo de arte que utiliza a massa de cor sólida, com uso de bastante contraste, movimento de cores e nuances de tom.

- O abstrato está sempre muito presente nos meus desenhos, mas não pude utilizá-lo no projeto para facilitar o entendimento dos admiradores. Eu gosto também da presença das cores, da mancha e do movimento que elas têm. Por isso, eu não trabalho muito com o dégradé. Estou testando produzir sem linhas, usando apenas a relação de contraste entre as cores com bastante trabalho de nuance, movimento e tom.

Thiago Tarm durante a pintura de um mural na escola Sesc, na Barra


O estudante de Desenho Industrial Thiago Molon, conhecido como Tarm, se define como um artista expressivo e impulsivo. Ao longo do tempo, comenta, as pinturas se modificaram ao longo do tempo e absorvem forte influência do local. Tarm se considera um pintor pouco gráfico e não tem como princípio nos trabalhos o embelezamento do espaço urbano. Para ele, o muro e a tinta são as suas melhores formas de expressão.

- Moro no Vidigal, e esse lugar me inspira a fazer pinturas que eu não faria, por exemplo, no Leblon. É uma coisa bem imediata. Gosto de usar o espaço urbano para me expressar. Não estou muito preocupado com que estão pensando da minha pintura e também não quero decorar. O grafite foi uma forma que eu conheci, me apaixonei, faço e farei até quando der.

Grafite feito por João Nitcho no Colégio de Aplicação da UFRJ (CAP)


Capas de disco, pôsteres de shows e carros de som compõem o portfolio do artista João Nitcho, que representa a paixão de infância pela música. O pintor, que fez parte de uma das primeiras gerações do grafite no Rio de Janeiro, pensa em se voltar para o mercado da pintura muralista. Além do interesse pelo grafite, Nitcho já trabalhou com pinturas e arte contemporânea em tela.

Grafite feito pelo artista Bruno Big


A busca pela gestualidade do corpo na hora de produzir linhas longas, curvas e fluídas são marcas do trabalho de Bruno Big. O designer que há mais de oito anos faz parceria com a Nike, foi o responsável por desenhar a chuteira Hypervenom Ousadia e Alegria, utilizada pelo jogador Neymar. Segundo Big, a oportunidade de voltar a Barcelona depois de dez anos foi a conclusão de ciclo.

- Morei em Barcelona uma época e lá eu tive contato com outros artistas, o que foi um divisor de águas para mim. Fui para lá porque estava saturado do mercado daqui e fiz cursos de pintura e gravura, o que me fez voltar a desenhar. Dez anos depois, voltei para o lançamento desse grandioso projeto que foi a chuteira do Neymar. Ele está reverberando até hoje, pois recebo todos os dias desenhos de meninos do mundo todo com referência ao meu.

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