A universidade em tempos de mudanças
29/10/2019 17:50
Padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J. - Reitor da PUC-Rio

Em artigo, o Reitor afirma que a vida universitária é um espaço de construção comprometido com a verdade e justiça

                             

 Criada para promover a formação cultural e intelectual da pessoa humana, desenvolver e aprofundar o ensino e a pesquisa, cultivar e difundir os diferentes saberes científicos, formar profissionais competentes, promover o intercâmbio e a cooperação com outras instituições, inserir na realidade para atender às demandas da sociedade, e colaborar com a formação integral dos discentes e docentes, a Instituição Universidade constitui um espaço privilegiado onde se ensina, pesquisa e aprende-se mutuamente.

 A história milenar da universidade revela que ela está habilitada para enfrentar as mudanças que ocorrem na sociedade, pois o seu compromisso com a verdade, a profundidade e a justiça constitui fortalezas que permitem romper as barreiras das permanentes mudanças sociopolíticas. Respaldada juridicamente, como no caso brasileiro, a Constituição da República garante às universidades a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, e manter o pluralismo de ideias e de concepções (Art. 206, II e III).

Diante dos ajustes, dos acertos e desacertos das mudanças políticas, a universidade não deve abrir mão do seu ideário, em que a formação de uma consciência critica e construtiva dos problemas existentes na sociedade é fundamental no processo educativo dos jovens universitários. A formação humanística, científica, ética e profissional é parte de nossa missão educativa, sabendo que a prerrogativa da profundidade não pode faltar em nada daquilo que estudamos e pesquisamos.

Se as circunstâncias sociopolíticas carecerem de tais pressupostos, é dever da universidade ajudar no processo de aprofundamento das grandes questões que norteiam a sociedade. Se os radicalismos sociopolíticos conduzirem a uma postura de dissenso, é dever da universidade criar e propor estruturas de diálogo e consenso, em que a razão tenha primazia diante de atitudes carentes de racionalidade. Se as circunstâncias sociopolíticas insistirem em questões que não são relevantes para o bem comum da sociedade, é missão da universidade promover o debate e a busca de soluções razoáveis e inteligentes. Se intensificar os desacertos em assuntos significativos para o equilíbrio e a sustentabilidade da sociedade, é papel da universidade colaborar para buscar alternativas que possam superar a crise.

Se crescer a falta de aceitação e convivência respeitosa com as diferenças na sociedade, é obrigação da universidade testemunhar que é possível uma convivência fraterna, em que as diferenças são acolhidas e vivenciadas com sabedoria. Se intensificar a visão de mundo fragmentada, é dever da universidade oferecer mecanismos e subsídios para que a sociedade possa ter uma visão mais sistêmica da realidade social, política e ambiental dos problemas cotidianos. Se há uma perda de humanismo e de valores éticos no contexto social, a universidade é este espaço privilegiado de resgate deste processo de humanização e formação de valores.

       A vida universitária é um espaço de construção de saberes e valores que sempre tem colaborado com a sociedade, rompendo as barreiras dos tempos e das mudanças sociopolíticas, e afirmando o seu compromisso com a verdade, a profundidade e a justiça, pois estes constituem a essência de seu modo de ser e agir. Assim, a universidade não deve furtar-se daquilo que é próprio de nossa história e missão. 

                            

 

 

 

 

              

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