Além da Caverna
19/03/2019 19:34
Julia Carvalho

No livro "Os Meninos da Caverna", repórter revela não só o resgate de tailandeses presos em uma caverna mas também mostra um panorama cultural de uma parte do Oriente

Foto: Allie Caulfield usada sob licença Creative Commons.

O repórter Rodrigo Carvalho não achou suficiente contar a história da equipe de futebol que ficou presa na caverna apenas durante a cobertura do resgate na Tailândia pela GloboNews. Lançado este mês, o livro Os Meninos da Caverna relata a história dos 12 meninos e do técnico do time Javalis Selvagens, da província de Chiang Rai, no norte da Tailândia, que ficaram presos durante 18 dias na caverna Tham Luang e foram salvos depois de um resgate quase impossível.

Carvalho é repórter e correspondente do canal em Londres e diz que escrever o livro possibilitou entender como o espírito coletivo, a capacidade de mobilização, a vida, e a cultura do país ajudaram no sucesso do resgate. Ele explica que a proposta da obra é ir além da operação e também trazer a história dos meninos e mostrar o contexto social, político e religioso do país.

— Era um livro que eu poderia navegar nos significados da história, entender mais da origem dos meninos, o contexto social, religioso, em um país de maioria budista. Tudo isso me fez aceitar o convite da Globo Livros para escrever Os Meninos da Caverna, que avança e não é apenas sobre o resgate em si, traz detalhes sobre a operação, mas a proposta sempre foi ir além disso, por isso que eu decidi topar e escrever o livro em dois meses e meio.

O livro mostra algumas diferenças culturais deste país do Oriente com o Ocidente, como a religião budista muito presente ao longo de toda a operação. Como afirma o repórter, o livro também trouxe à tona problemas políticos como os apátridas. A Tailândia tem cerca de 400 mil cidadãos sem pátria, e entre as 13 pessoas na caverna, quatro eram apátridas. De acordo com ele, o governo foi pressionado e prometeu registrar todos os sem pátria residentes no país até 2024.

O jornalista conta que a forma como as famílias e os meninos foram preservados durante e após o resgate também foi muito interessante. Para ele, essa atitude representou uma forma de respeito à privacidade e a expectativa dos envolvidos, e ajudou os Javalis Selvagens a voltarem à vida normal, porque um dos maiores medos da família era que os meninos desenvolvessem algum tipo de trauma. Segundo o autor, essa atitude foi importante para a história e exigiu uma cobertura jornalística à moda antiga, em que dependia de comunicados oficiais e dos repórteres no local.

– Em uma era de exposição como a nossa foi interessante ver como eles se comportaram de uma maneira diferente. Toda a atmosfera da cidade, as imagens que víamos das pessoas mobilizadas e sensibilizadas com aquilo, ajudou a contar a história e nem por isso a cobertura foi menos interessante. Na minha opinião foi legal ver isso, foi legal ser um tratamento diferente.

Para o repórter, o fato de o grupo, que formava um time de futebol, ficar preso em uma caverna, durante a Copa do Mundo, era algo difícil de imaginar. E que fez com que o mundo prestasse atenção neles. Os detalhes do resgate e a expectativa de sucesso, segundo ele, também despertou a curiosidade e a empatia de muitas pessoas.

Muitas crianças se colocaram no lugar dos tailandeses presos na caverna, como a Maria Eduarda da Silva, de 8 anos, que vive em uma pequena comunidade quilombola do interior do Piauí e escreveu uma carta para os meninos. Carvalho foi quem entregou o recado da menina aos destinatários e lembra que teve a oportunidade de conversar com Duda e a família e assim pôde entender a realidade dela, uma brasileira simples que se conectou com meninos também simples que vivem do outro lado do mundo.

O mais desafiador para o repórter foi lidar com a expectativa do sucesso do resgate. Ele comenta que precisou tomar cuidado para passar a informação de forma precisa e não dar um tom muito otimista ou pessimista. Ele conta que, depois que os meninos foram salvos, pôde relaxar e acabou contaminado pelo sentimento dos moradores locais. Enquanto escrevia o livro, o autor lembrou de momentos de sua vida relacionados aos temas centrais da história. Isso fez com que ele escrevesse crônicas sobre essas memórias com o objetivo de mostrar como o acontecimento mexeu com a cabeça das pessoas.

– Morte, fé, a relação com o futebol, achei que isso pudesse dar um outro gosto no livro, uma outra temperatura, ser um respiro no meio da história dos meninos. Uma maneira de sublinhar que essa história mexeu também com nossas angústias, medos, referências de fé, relação com a morte e tudo o mais.

Carvalho afirma que a recepção que o livro recebeu reforça a forma como as pessoas, aqui no Brasil, se preocuparam com os meninos, torceram por eles e querem entender mais sobre a origem deles. Ele revela que o seu desejo é que, ao terminar de ler o livro, as pessoas entendam melhor como tudo aconteceu, o contexto social, religioso e a cultura do país, e que não se esqueçam da força da mobilização humana, que foi o que tornou o resgate possível.

Ao longo da carreira Rodrigo Carvalho cobriu diferentes situações, como os atentados terroristas no Reino Unido em 2017 e o salvamento de 30 mineradores chilenos, em 2010, seu primeiro livro. Ele revela que não é fácil controlar a emoção em assuntos assim, por isso, é preciso encontrar um equilíbrio.

– O repórter é um ser humano que tem questões, medos, angústias, sentimentos, sensibilidade e está lá para não anular isso, para se permitir sentir e encontrar um equilíbrio entre a informação e o relato. Não é fácil, somos um processo de aprendizado permanente, mas encontramos esse caminho da maneira mais natural possível, de entender que isso faz parte.

Para ele, narrar a história dos meninos da caverna prova que uma mobilização real por algo é capaz de alcançar objetivos que parecem impossíveis. O jornalista   destaca que isso mostra como a capacidade humana permite ir longe e que esse fato é sobre o exercício de se colocar no lugar do outro.

– Eu acho que foi uma história que só deu certo por causa da mobilização humana, o resgate não deu certo por causa de nenhuma tecnologia nova e revolucionária, deu certo porque quase mil pessoas se mobilizaram pelos meninos no local. Mergulhadores vieram de vários países, Reino Unido, Finlândia, Estados Unidos, Mianmar, Japão, fora os tailandeses. Deu certo por causa dos voluntários que foram para a cidade fazer comida para os militares, mergulhadores, jornalistas, outros voluntários que foram fazer massagem. Foi essa mobilização humana que fez o resgate dar certo, esse é o significado da história, foi por isso que tanta gente se conectou.

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