Núcleo da PUC-Rio ajuda órgãos de saúde no combate ao coronavírus
17/04/2020 14:36
Gustavo Magalhães

Pesquisadores da Universidade, em parceria com outras instituições, produzem previsões estatísticas sobre o avanço da pandemia no país

Reunião do NOIS: Silvio Hamacher, DEI/PUC-Rio, de branco, ao fundo, junto ao aluno de graduação João Pedro; em primeiro plano, a doutoranda Leila Dantas, que tem, à sua esquerda: Amanda Batista, mestranda, e Bianca Antunes, doutoranda, todas do departamento; à sua direita, Soraida, pós-doutoranda, e os professores Fernanda Baião, Fernando Bozza e Paula Maçaira. Remotamente, os doutorandos Leonardo, da Holanda, e Otavio Ranzani, de Barcelona / Foto: Arquivo pessoal

Com a pandemia do novo coronavírus, um grupo de pesquisadores ganhou destaque nos noticiários e na comunidade científica: o Núcleo de Operações e Inteligência em Saúde (NOIS). O time é formado por alunos, professores e pesquisadores do Departamento de Engenharia Industrial e do Instituto Tecgraf da PUC-Rio, além de pesquisadores da Fiocruz, Universidade de São Paulo (USP) e Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (IDOR). A partir do uso de estatísticas e ciência de dados, esses profissionais fornecem modelos de previsão que ajudam nas tomadas de decisões dos poderes públicos e contribuem para um melhor dimensionamento dos recursos na área de saúde.

O núcleo é composto por 12 profissionais da PUC-Rio e de quatro outros das demais instituições. O trabalho deles é acompanhar a evolução do número de casos da pandemia do coronavírus no Brasil e revelar projeções futuras para que os órgãos de saúde tenham previsões mais precisas. A Nota Técnica 8, mais nova análise divulgada pelo grupo, na quarta-feira, 15, projeta os casos de infecção por COVID-19 até 24 de abril. De acordo com o documento, em um cenário pessimista, as projeções para 15 de abril estimam 27.225 casos, um aumento de quase 50% para o dia 24, e um total de 40.590 em todo o país.

Segundo o idealizador e coordenador do grupo, o professor Silvio Hamacher, do Departamento de Engenharia Industrial, milhões de testes estão sendo produzidos para serem utilizados na população. Atualmente, o NOIS desenvolve um software de testagem e pensa metodologias para que os testes sejam usados da maneira mais efetiva possível, revela Silvio Hamacher. O objetivo é referenciar geograficamente os casos e conseguir isolar as incidências de forma organizada.

— O nome do projeto é Dados do Bem, ele surgiu muito recentemente. Empresas da iniciativa privada estão financiando a elaboração de testes, e o NOIS está responsável por desenvolver um sistema que vai indicar quem são as pessoas com mais necessidades de realizar o teste de COVID-19.

De acordo com o professor, os estudos dos pesquisadores auxiliam o poder público para atuar diante das diversas proporções possíveis de o SARS-CoV-2 agir na sociedade.

— As principais interações do NOIS são com a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro. Quando os órgãos públicos de saúde do estado pensaram a construção dos hospitais de campanha, os nossos estudos foram usados para estabelecer precisão no número de leitos a serem providenciados.

Ao comentar sobre um possível fim do isolamento social, o professor explica que é preciso, primeiro, obter dados mais complexos sobre os números de casos e as principais regiões afetadas. Dessa forma, é possível, se for necessário, isolar setores mais críticos e abrir o isolamento em outros locais.

— É difícil entrar no isolamento social, e é mais difícil ainda sair dele. Se em alguns lugares a propagação da doença está contínua, essa região em particular pode ter medidas de isolamento mais severas. Se os órgãos de saúde testarem em grandes quantidades, e se o exame dos testes saírem mais rapidamente, é possível rever como será o isolamento em locais menos afetados. Mas estamos longe disso.

Só 12% dos casos de COVID-19 são notificados no Estado do Rio de Janeiro, ou seja, apenas um entre cada oito casos entra nas estatísticas oficiais, estimam os pesquisadores do NOIS. A insuficiência de testes no mercado torna difícil saber quantas pessoas realmente estão contaminadas com o coronavírus, aponta o estudo do núcleo. O secretário estadual de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, reconheceu a existência da subnotificação e afirmou que o setor de saúde carioca não tem capacidade para atingir o número ideal de testes.

Este indicador de notificações do Rio de Janeiro (12%) é melhor que em São Paulo (7,0%) e que o da média nacional (9,0%), mas pior do que outros estados do Sudeste, como o Espírito Santo (21,1%) e Minas Gerais (25,2%). O Rio está abaixo da média mundial (20%) e com percentual semelhante à Itália (15%) e à Espanha (16%) algumas semanas atrás.


Pesquisas adequadas à realidade

O NOIS trabalha em três frentes: predição, controle e ajuda no tratamento. Hamacher destaca que o rigor e a continuidade, além da revisão constante dos estudos, são as principais características do grupo de pesquisadores.

— Não buscamos apenas gerar números, mas, sim, entender as premissas para aquele número existir. Por isso atualizamos sempre nossas metodologias e avaliamos nossas limitações.

As pesquisas anteriores do grupo se mostraram precisas e pertinentes. A Nota Técnica 6, do dia 3 deste mês, comparou o Brasil com Itália, Espanha, França, Alemanha, Suíça e Reino Unido. A variação do número de casos foi de apenas 7,2% em relação ao cenário mediano exposto no estudo. Assim, indica a análise, os Estados brasileiros evoluem conforme o previsto, exceto São Paulo, e as medidas de contenção podem surtem efeito na desaceleração do crescimento dos casos já confirmados.

Por outro lado, conforme apresentado na Nota Técnica 7, do dia 11 deste mês, estimou-se, até o dia 10 de abril, que a taxa de notificação do Brasil estava em torno de 8%. No Estado do Rio de Janeiro, houve um crescimento de casos no dia 14 de abril, e o número registrado ficou apenas 4,1% acima do cenário otimista da pesquisa.
Metodologia

Embora o coordenador do NOIS assuma que seja difícil, o objetivo final do núcleo permanece inalterado: pensar e estudar um modelo que consiga mensurar com efetividade as medidas de contenção adotadas no país.

— Estamos em uma transição. O começo do nosso trabalho foi à base da vontade, nós trabalhamos várias horas e nos dedicamos demais. Agora, chegamos a um estágio de maturidade, e o que publicamos ganha muita repercussão. É um momento no qual nos aprofundaremos ainda mais nos estudos. Nosso foco, agora, é mais do que nunca a qualidade e menos quantidade.

Quando divulga uma nova Nota Técnica, a equipe aprimora os métodos de pesquisa. Para a NT8, por exemplo, o NOIS acrescentou um grupo de locais não restrito a países — entre eles províncias ou estados — que apresentam uma série histórica da epidemia de tamanho, no mínimo, igual à série de Brasil, Rio de Janeiro e São Paulo, e cuja evolução da pandemia já tenha ultrapassado a série do Brasil em dez dias adicionais.  

Para o Brasil, Itália, Alemanha, Espanha, França e Irã foram os países selecionados por terem o maior histórico da evolução da COVID-19. Para São Paulo, os locais são Suíça, Alemanha, Itália, Irã e Espanha e, para o Rio de Janeiro, EUA-Washington, Suécia, Noruega, Holanda e Malásia.

A metodologia utilizada pelo núcleo supõe que há uma mortalidade da doença já conhecida por causa de estudos clínicos (por volta de 1,3%). A partir desse número, eles comparam a mortalidade aos registros de casos e de mortes em cada estado e país. O desvio entre os números e a taxa é considerado como subnotificação. A situação do Brasil está boa, em comparação com outros países selecionados pelo NOIS, mas está longe de ser controlada, detalha o pesquisador.

— Se conseguirmos manter as medidas e contornar a situação, estaremos em situação relativamente boa em relação aos países. A Nota Técnica 7, que tratou principalmente da subnotificação, mostrou que no nosso país tem morrido mais gente que nos outros países. Isso indica que há mais pessoas com COVID-19 do que está nas estatísticas, cerca de dez vezes mais casos do que os relatados.

História e propósito

O professor Silvio Hamacher explica que, há um mês, o NOIS se voltou para o combate da COVID-19. Os pesquisadores, no entanto, já trabalham há três anos com hospitais, no auxílio de modelos preditivos e em orientações para tornar os centros mais efetivos ao atendimento. E, ressalta o coordenador do núcleo, no combate ao coronavírus, o NOIS não ganhou dinheiro, o propósito é apenas trabalhar para ajudar a sociedade, conclui Hamacher.
— Somos uma equipe interdisciplinar, com epidemiologistas, cientistas de dados e engenheiros. O grupo tem uma dinâmica fantástica, que trabalha com enorme comprometimento e árdua dedicação. A PUC tem essa missão de criar ciência e tecnologia para contribuir. A gente trabalha muito em modelos matemáticos. Fazer um estudo com utilidade imediata, e que está sendo usado, tem sido estimulante, e é muito gratificante para o grupo.

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