A voz da mulher no século XIX
07/03/2018 18:02
Ana Vitoria Barros

O Jornal das Senhoras surgiu com a missão de lutar pela emancipação feminina

Foto: Acervo da Biblioteca Nacional


Se, hoje, as mulheres denunciam questões de assédio e expressam as opiniões na mídia é porque elas percorreram um caminho de lutas durante longos anos. No Rio de Janeiro do século XIX, jornais destinados ao público feminino começaram a dar voz ao chamado sexo frágil. Um deles foi dirigido por uma mulher, O Jornal das Senhoras, um dos mais conhecidos do gênero e que ficou marcado por levantar a ideia de emancipação feminina.

Criado em 1852 pela jornalista argentina Joana Paula Manso de Noronha, O Jornal das Senhoras circulou aos domingos no Rio de Janeiro, então capital do Império. Temas como moda, literatura, belas-artes, teatro e crítica tinham como meta cooperar para “o melhoramento social e para a emancipação moral da mulher”. De acordo com a professora Carla Vieira de Siqueira, do Departamento de Comunicação Social, os tópicos abordados no veículo contribuíram para se discutir questões de gênero.

– Todos esses assuntos colaboravam com a formação das mulheres. Era uma forma de caminhar ao que elas chamavam de emancipação da mulher no sentido de ter maior acesso à educação. Elas não reivindicavam nada mais do que serem educadas. E essa ideia de emancipação vai sendo ampliada ao longo do século XIX.

Os primeiros periódicos brasileiros surgiram em 1821 e, seis anos depois, foi a vez dos veículos destinados especialmente às mulheres. Apesar do número reduzido de alfabetizadas na época, elas começaram a crescer gradualmente com o aumento da rede de escolas na cidade durante o século XIX. Isso serviu como incentivo para as mulheres buscarem acesso à educação e, consequentemente, à leitura.

Fundado em 1827 pelo francês Pierre Plancher, O Espelho Diamantino foi o pioneiro na percepção de que as mulheres da elite formavam um público limitado, mas com forte potencial de crescimento. Em 1833, surgiu o primeiro jornal dirigido por uma mulher, Belona Irada contra os Sectários de Momo. Sob direção de Maria Josefa Barreto, a publicação circulou por um ano em Porto Alegre. Embora sejam os pioneiros, as primeiras gazetas femininas não tratavam de assuntos específicos da mulher.

Na primeira edição de O Jornal das Senhoras, publicada em 1º de janeiro de 1852, Joana Manso se apresentou como redatora do veículo e comparou a vasta presença de mulheres em jornais da Europa e dos Estados Unidos com os periódicos existentes na América do Sul. Para Constância Lima Duarte, autora do livro Imprensa feminina e feminista no Brasil: século XIX, a argentina Joana está registrada na história das mulheres brasileiras.

– Joana Manso fundou O Jornal das Senhoras com um discurso emancipacionista. É importante lembrar que ela era filiada à ideologia das luzes e ao pensamento liberal. Joana acreditava no progresso, na liberdade de imprensa, na defesa intransigente da pátria e da mulher.

Capa da primeira edição de O Jornal das Senhoras, lançado em 1852. Foto: Acervo da Biblioteca Nacional

O primeiro jornal de cada mês trazia um figurino inspirado em Paris, cidade que também servia de influência para assuntos de teatro e moda. A publicação convidava constantemente as leitoras a enviarem textos sob anonimato ou com o uso de pseudônimos, práticas comuns na época. Segundo Carla, as primeiras mulheres que escreveram em jornais usavam nomes masculinos e só um tempo depois elas passaram a assinar com pseudônimos femininos.

– Estamos falando de um tempo em que qualquer tipo de atividade pública da mulher era mal vista. Para a elite brasileira, lugar de mulher era em casa, e as poucas mulheres alfabetizadas são do espaço da casa. Havia um medo do preconceito e, muitas vezes, elas faziam isso escondidas do marido, da sociedade, que não via com bons olhos uma mulher dizer o que pensava.

Desde o início, a equipe de redação de O Jornal das Senhoras foi formada majoritariamente por mulheres. Joana Manso dirigiu o periódico durante seis meses. Em julho de 1852, a escritora Violante Bivar e Velasco assumiu a direção e levou mudanças significativas para O Jornal das Senhoras. Segundo Constância, os textos que defendiam a emancipação feminina diminuíram, o que abriu espaço para folhetins e matérias relacionadas à saúde. No ano seguinte, Gervázia Pires dos Santos assumiu a direção do noticioso, que voltou a ter um perfil mais reivindicatório.

Para a professora emérita do Departamento de História, Margarida de Souza Neves, o grupo limitado de alfabetizados no Brasil no século XIX, formado pela elite, foi o responsável por imprimir direção à sociedade. Para ela, o cenário brasileiro daquela época e a percepção sobre o papel da mulher começaram a mudar na metade do século.

– Esse jornal expressa a existência de mulheres que querem conquistar um lugar no mundo da produção intelectual, mulheres que querem ter um protagonismo nessa sociedade. A partir da metade do século, a função da mulher da classe senhorial de ser reprodutora de propriedade e do proprietário começa a mudar. De mera reprodutora, ela passa a ser a rainha do lar.

Na análise de Constância, o jornal foi bem aceito pelo público em geral da época. As cartas dos leitores, homens e mulheres, elogiavam a iniciativa e a qualidade do periódico, que circulou no Rio de Janeiro até 1855. Segundo Margarida, o surgimento de jornais femininos produzidos por mulheres no século XIX significou uma mudança importante na sociedade.

– Esse jornal representa primeiro que uma mulher na direção de um jornal é possível. Significa basicamente que outros caminhos estão sendo abertos pelas mulheres para as mulheres em um momento em que a sociedade está mudando. É um período de mudanças fortes não só na sociedade, mas também dentro de casa, na cabeça e nos corpos das mulheres.

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