Liberdade para morrer
07/06/2022 17:19
Gabriel Meirelles

Debate expõe políticas de destruição do bolsonarismo em meio à democracia brasileira

Professores Gisele Cittadino, Francisco de Guimaraens, Marcelo Burgos, Luiz Werneck Vianna e Renato Lessa compõem a mesa-redonda Demoracia brasileira: riscos e futuro / Foto: Jorge Paulo Araujo

Gisele Cittadino analisou como o discurso de liberdade utilizado pelo atual governo aponta para uma política de destruição. Na opinião dela, o armamento, o homeschooling, a decisão de remover os radares das estradas, o uso facultativo das cadeirinhas para crianças nos automóveis e a não obrigatoriedade da vacinação contra a Covid-19 são exemplos de medidas e políticas destrutivas defendidas pelo Presidente da República desde 2019.

— Se a gente olhar qualquer um destes exemplos, não tem como dissociar este discurso da liberdade a alguma ideia de destruição. Eu tenho uma amiga, bolsonarista convicta, que morreu porque não quis se vacinar. O marido fez tudo para ela tomar vacina, e ela insistiu. Só falava na neta que ia nascer e dizia: ‘quero ver minha neta, quero ver minha neta’. Ela morreu um mês antes de a neta nascer. É a nossa liberdade de morrer.

A cientista política destrinchou em sua participação as semelhanças entre bolsonarismo e lavajatismo. Segundo ela, há três características principais comuns nestas duas correntes: a criminalização da política, o monopólio dos valores republicanos e a imagem do “salvador da pátria”, um sujeito alheio aos problemas existentes que chega para resolvê-los. Além disso, a pesquisadora criticou o chamado “lawfare” — o uso de manobras legais pelo poder judiciário para alcançar determinado fim — e destacou como esta prática ocorreu não só na Operação Lava Jato, mas também na pequena cidade Conde, no litoral paraibano.

— Se a gente pensa nas características do lavajatismo, a gente vai encontrar as mesmas características no bolsonarismo. O bolsonarismo é filho do lavajatismo. Não há como separar uma coisa da outra. Seria uma ingenuidade imaginar que aquilo que aconteceu em Curitiba não iria se reproduzir em escalas menores em outros lugares que não estão sob o foco da grande mídia.

Professora Gisele Cittadino, Departamento de Direito / Foto: Jorge Paulo Araujo

Na mesma linha de raciocínio da colega, Renato Lessa condenou a forma como o governo federal lidou com a pandemia da Covid-19. Ele resgatou a filosofia política de Thomas Hobbes, que colocou a vida como a justificativa para a existência do Estado, e elogiou a iniciativa de funcionários do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) em criar o projeto Assédio Institucional, que consiste em um levantamento das práticas de destruição no país.

— Pela visibilidade da destruição, nós podemos ter uma ideia do estrago, e ao ter a ideia do estrago, podemos imaginar formas renovadas de nos opormos a isso, e começar a fazer a desconstrução da destruição.

Lessa observou que não há tradição doutrinária ou política que explique o bolsonarismo. Além disso, o professor apontou o deslocamento, ao longo do governo Bolsonaro, do conceito de país ser substituído pela concepção de “lugar”. Ao invés de existir um crescimento e desenvolvimento da nação dentro de seus valores culturais enraizados na história, há um apagamento e esquecimento das experiências e da essência do povo brasileiro.

— País é um agregado abstrato. O depositório intertemporal de história, de memórias, de lutas. É o que imaterialmente nós construímos. O lugar é a terra sem regulação. É o desmatamento, é a invasão das áreas indígenas, quer dizer, o uso livre e a relação que o bolsonarista tem com a natureza. No fundo, é o ideal de uma vida sem regulação.

Analogamente, Werneck Vianna comparou a situação atual do Brasil com a metáfora do sociólogo britânico Anthony Giddens do carro de Jagrená: uma máquina desgovernada que, embora potente, apresenta risco alto de se desmembrar. Ele parafraseou, ainda, o professor Roberto DaMatta, ao alertar para a tentativa de esvaziamento das características e dos valores enraizados na cultura brasileira, desenvolvidos ao longo da história do país.

— Recua-se ao século XIX e a seus horrores por disputas territoriais e com desalento se constata o renascimento do nacionalismo, ideologia nefasta que cultua a vontade do poder e da dominação entre os povos e as nações, em um tempo que parecia apontar para o triunfo da globalização. Da Ucrânia e de toda parte, sopram ventos que espalham insânia como um novo tipo de peste.

Professor Luiz Werneck Vianna (à esquerda) e professor Renato Lessa (à direita) / Foto: Jorge Paulo Araujo

O diretor do Departamento de Ciências Sociais, professor Marcelo Burgos, mediou a mesa e convidou o decano do Centro de Ciências Sociais (CCS), professor Francisco de Guimaraens, para abrir o debate. Guimaraens caracterizou o momento atual como um “processo desconstituinte” e destacou seus efeitos negativos na área da Educação. Segundo o decano do CCS, não houve esforço por parte do Ministério da Educação durante a pandemia em desenvolver medidas voltadas para a manutenção dos estudantes nas escolas e universidades.

— O corte de financiamentos e das bolsas foi dramático, principalmente nesses últimos anos, e tem provocado não só evasão dos alunos como uma diminuição considerável da procura dos programas de mestrado e doutorado. É difícil não acreditar que isto não se trata de projeto de destruição, que tem marcado a experiência brasileira nos últimos anos.

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