Dimensão sacramental do estudo
26/05/2022 16:12
Gabriel Meirelles

Cardeal Tolentino dialoga com o pensamento de Simone Weil na Aula Inaugural do Departamento de Teologia

Cardeal Tolentino ministra aula inaugural de Teologia (Foto: Reprodução / ECOA)

O cardeal português Dom José Tolentino Calaça de Mendonça utilizou como base para a aula inaugural do Departamento de Teologia o texto “Reflexões sobre o bom uso dos estudos escolares em vista do amor de Deus”, da filósofa e mística Simone Weil (1909-1943). Com o tema “Para que nos serve o estudo? 50 anos da Faculdade Eclesiástica”, a palestra marcou o começo do semestre letivo no ano em que a faculdade de Teologia da PUC-Rio completa o jubileu de ouro do  reconhecimento do curso pela Santa Sé. 

Nascido na Ilha da Madeira em 1965, Dom Tolentino é Arquivista do Arquivo Apostólico do Vaticano e Bibliotecário da Biblioteca Apostólica do Vaticano, na Cúria Romana. Foi ordenado padre em 1990 e bispo em 2018. No ano seguinte, o Papa Francisco o elevou a cardeal. O religioso é também poeta e escritor, autor do livro Elogio da sede, uma união de dez textos autorais utilizados pelo Papa para meditação durante a Quaresma de 2018.

Inspirado por Simone Weil, Dom Tolentino Mendonça apontou o estudo como um caminho de santidade e contribuidor para a compreensão de que a própria vocação orienta a vida para a verdade. O bispo frisa o pensamento da autora sobre a existência de uma dinâmica entre o aprendizado intelectual e a contemplação: não há separação entre estudo e vida espiritual. Ela, por exemplo, critica o racionalismo da teologia dos anos 1940, pois, na opinião dela, faltava intuição e imaginação. Simone Weil associa o sucesso acadêmico não a notas altas e diploma na mão, mas ao exercício do estudante em meditar sobre seu empenho escolar, as falhas, as correções dos professores, e enfrentar as dificuldades desta realidade. Dom Tolentino leu um trecho de uma reflexão de Weil sobre a forma como o estudo deve ser entendido por um estudante.

“A solução de um problema de geometria não é em si um bem precioso, mas a mesma lei também se lhe aplica, porque ela é a imagem de um bem precioso. Sendo um pequeno fragmento de verdade particular, é uma imagem pura da Verdade única, eterna e vida, essa Verdade que disse um dia com uma voz humana: ‘Eu sou a verdade’. Pensado assim, todo o exercício escolar se assemelha a um sacramento”.

O bibliotecário da Biblioteca do Vaticano salientou o pensamento de Simone Weil acerca do estudo como oportunidade para o desenvolvimento da atenção. De acordo com o cardeal, o indivíduo que progride nela por meio de uma disciplina estará mais apto a compreender outra. Para a pensadora, cada área do saber tem um interesse intrínseco, mas ele é secundário. O mais importante seria aproveitar os conteúdos para orientá-los a Deus e à oração.

“Se procurarmos com verdadeira atenção a solução de um problema de geometria e, ao fim de uma hora, não estamos mais avançados do que no começo, avançamos todavia, durante cada minuto dessa hora, numa outra dimensão mais misteriosa. Sem que o sintamos, sem que o saibamos, este esforço aparentemente estéril e sem fruto introduziu mais luz na nossa alma. O fruto encontrar-se-á um dia, mais tarde, na oração”, escreveu Simone Weil.

Escritora e filósofa Simone Weil. Nasceu em Paris e faleceu na Inglaterra em 1943, aos 34 anos de idade, vítima de tuberculose (Foto: Reprodução)

O Arquivista do Vaticano destacou, ainda, que o desejo é outro combustível imprescindível para crescer nos estudos. Ele é, para Simone Weil, uma maneira de se preparar para a vida espiritual. A filósofa argumenta que Deus vem àqueles que pedem, com fervor e frequência, a vinda do divino sobre eles, e, por isto, a alimentação contínua da vontade é importante para o estudo atingir o verdadeiro objetivo.

— Uma sala de aula é, sobretudo, um lugar onde se acende o desejo. Se nós percorrermos sonâmbulos, saciados os corredores da faculdade de uma classe para outra, nós não estamos verdadeiramente a progredir nos estudos acadêmicos — observou Dom Tolentino.

Outro aspecto resgatado pelo religioso sobre o pensamento de Simone Weil é o amor ao próximo. Segundo ela, a plenitude do amor ao próximo é enxergá-lo com a mesma atenção com que se olha os estudos acadêmicos e os direciona para Deus. Na opinião do cardeal, colocar a atenção em um ser humano, principalmente no momento de sofrimento, é um milagre.

— É fundamental que os trabalhos acadêmicos, mesmo os mais áridos, mesmo os mais complexos, aqueles que realizamos com maior sofrimento ou com resultados mais escassos, nos tornem capazes um dia de perguntar a alguém: “qual é a tua ferida? Qual é o teu sofrimento?” E nesse instante, de suprema angústia, podemos ser o socorro suscetível e salvar nosso irmão — conclui o cardeal.

Como parte das comemorações, o ex-Reitor da PUC-Rio, padre Jesus Hortal Sánchez, S.J., foi convidado para complementar a aula. De sua residência em São Paulo, padre Hortal contou brevemente sua trajetória acadêmica desde a chegada ao Brasil, em 1958, aos 31 anos. Ele valorizou a atuação do padre húngaro Antonius Benkö, S.J., que insistiu na criação de uma faculdade de Teologia na PUC-Rio. O primeiro passo para a realização deste desejo ocorreu em 1968 com o início das atividades e se concretizou em 1972 com o reconhecimento da Santa Sé.

Padre Jesus Hortal Sánchez, S. J., celebrando missa na igreja da PUC-Rio. O sacerdote foi Reitor da Universidade entre 1995 e 2010 (Foto: Maria de La Gala)

A aula inaugural do departamento de Teologia está disponível na íntegra na plataforma ECOA. Para acessar, clique aqui.

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