Sete dias de agradecimento e acolhimento
29/09/2023 19:31
Angelo Ye e Julia Amoêdo

Universidade dá início à celebração de Sucot, festividade judaica que lembra a peregrinação do povo hebreu no deserto

Sonia Kramer destaca a importância do diálogo autêntico. Foto: Kathleen Chelles

No dia 28 de setembro, foi realizada a mesa de abertura da Sucá na PUC-Rio, que acontece anualmente há mais de duas décadas na Universidade. A Sucá é uma cabana de três paredes e teto vazado, cuja construção faz parte da festividade de Sucot, um período de agradecimento e acolhimento no judaísmo. 

A “Tenda de Acolhimento” aconteceu no miniauditório do IAG e teve a presença do reitor padre Anderson Antonio Pedroso, S.J., da coordenadora do Diálogo Inter-religioso e Interétnico da Associação Religiosa Israelita (ARI), Ana Luiza Grillo Balassiano, da professora emérita Sonia Kramer, do Departamento de Educação e do Padre Donizete Luiz Ribeiro, professor do Departamento de Teologia e Diretor Acadêmico do Centro Cristão de Estudos Judaicos. 

Padre Anderson Antonio Pedroso faz uma analogia entre o acolhimento da Sucá e da PUC-Rio. Foto: Kathleen Chelles

No discurso de abertura, o reitor ressaltou a importância do diálogo inter- religioso e a vasta tradição intelectual da cultura judaica. Além disso, padre Anderson apontou a relevância do acolhimento para esta festividade. 

— Estou tentando unir a tenda ancestral do judaísmo com a tenda atual da PUC-Rio, que é esse lugar de acolher as pessoas. A gente realiza esse primeiro ponto, o ethos confessional, já que há uma base da fé, com o desdobramento cultural. 

Ana Luiza Grillo Balassiano conta a história da Sucá na Universidade. Foto: Kathleen Chelles

Em seguida, Ana Luiza Grillo Balassiano explicou a estrutura da Sucá na Universidade. A coordenadora destacou o papel de Vera Hazan, que foi professora do Departamento de Arquitetura, falecida em 2021. A arquiteta foi a responsável pelo design da Sucá, que contou com a ajuda de alunos para a construção da cabana.

— A professora Vera Hazan atendeu a um pedido do filho que perguntava a ela se, como arquiteta, ela não poderia fazer uma Sucá diferente, porque a que ele via era feita de palha. Nasceu desse diálogo, entre mãe e filho, o projeto autossustentável que nós temos até hoje e que envolve alunos na experiência de montar e conhecer a história da Sucá. São estudantes judeus de diferentes linhas religiosas e não-judeus. A partir daí, já se trava o diálogo inter-religioso e intercultural. 

Padre Donizete Luiz Ribeiro explica a festividade de Sucot. Foto: Kathleen Chelles

O padre Donizete explicou a história de Sucot, contextualizando a festa em três momentos. Primeiro, o das oferendas e sacrifício de 70 touros, o que representa as 70 nações. Depois, a Cerimônia de Libação das Águas, em que a água era retirada do Poço de Siloam, na cidade de David, e levada até Jerusalém. Por fim, a procissão com o buquê de Quatro Espécies – Lulav, Etrog, Hadass e Aravá –, que simboliza a totalidade da plantação e das pessoas. Além disso, ele apontou como esta festa, mesmo que bíblica, não está tão presente na cultura cristã. 

— A Festa das Tendas aparece de modo indireto, e de maneira um pouco complexa, na liturgia de Domingo de Ramos. É uma comemoração que nós, católicos, conhecemos, em que celebramos a entrada messiânica de Jesus em Jerusalém antes da Paixão, e em que há os ramos que os Evangelhos descrevem.

Na apresentação sobre o autor Martin Buber, a professora Sonia Kramer ressaltou a relevância do diálogo para este autor. Sonia explicou como Buber define o diálogo autêntico, em que os interlocutores têm a intenção de estabelecer uma relação entre si. Essa relação é aberta, assim como a Sucá.

— A Sucá é esse espaço sem telhado e onde a fragilidade das paredes, na minha reflexão, favorece que a diferença ocupe o lugar da indiferença. A responsabilidade é o responder verdadeiro ao outro. Bubber chega a falar em uma resposta responsável a tudo que nos acontece.

Na segunda parte da abertura da celebração, foi montada uma roda de conversa com o tema da inter-religiosidade. No debate, foram discutidas formas de divulgação da Sucá e de outras festividades judaicas-cristãs que deveriam ser apresentadas e conhecidas na Universidade. Na mesa redonda, também foram sugeridas formas de aproximar os jovens, de dentro e de fora da PUC-Rio. 

Para isso, foram discutidas ações entre escolas públicas em que, uma vez por ano, os alunos desses colégios seriam trazidos à Universidade para que eles pudessem ser introduzidos ao assunto. Outra forma para atingir o público interno quanto ao assunto, seria engajar professores e mostrá-los a importância do diálogo.

Durante a conversa, os Grupos de Trabalho que vêm sendo realizados, como o GT de Liberdade Religiosa, também foram mencionados como um formato válido a ser seguido. As atividades culturais seriam uma outra alternativa, uma vez que a religião é intrinsecamente ligada a este campo do saber.

O ativista e membro do diálogo inter-religioso da Associação Religiosa Israelita (ARI) Hélio Koifman sugere que para que jovens sejam atraídos para esses encontros, deve-se convidar pessoas públicas.

— Tivemos o apresentador Luciano Huck recentemente em uma das nossas sinagogas e o lugar ficou repleto de jovens. Precisamos trazer essas “cabeças” para que eles se sintam atraídos.

Durante a reunião, o público destacou que existe na tradição católica uma abertura para a conversa com outras religiões. Pode-se dizer que o início desse processo tenha se dado em outubro de 1974, por vontade do Papa Paulo VI, quando foi criada a Comissão para as Relações Religiosas com os Muçulmanos a fim de promover uma maior compreensão entre esses dois grupos religiosos.

Um ponto importante levantado por Padre José Abel de Sousa, coordenador da Pastoral Universitária Anchieta da PUC-Rio, diz respeito ao cuidado que esse diálogo deve ser feito. Sem se limitar apenas às religiões ligadas à tradição judaico-cristã, deve-se abrir espaço para crenças minoritárias, como as religiões de matriz africana.

Sonia Kramer alerta sobre o perigo do proselitismo. Foto: Kathleen Chelles

Seguindo este raciocínio, a professora Sonia Kramer chama atenção para o perigo de proselitismo, que seria a tentativa de converter alguém a algum credo ou religião de forma involuntária, principalmente funcionários de instituições católicas. Para a docente, deve-se deixar bem explícito desde o início que o chamado para um debate religioso ou apresentação de uma festividade de determinada religião é apenas um convite. Nenhum colaborador sofrerá nenhuma represália caso não queira se juntar às atividades propostas.

A ex-coordenadora do Colégio Santo Inácio Vera Porto conta a experiência que teve nesse sentido, quando fazia parte da instituição.

 — No Santo Inácio, 80% dos funcionários que trabalhavam na manutenção da instituição eram neopentecostais, eu entrevistava todos quando eles entravam. Respeitava a opção religiosa deles mas frisava que da mesma forma que nós do colégio os respeitávamos, nós também queríamos ser respeitados. Tínhamos celebrações litúrgicas e eles estavam lá e participavam da comunidade explicitamente católica. Não havia conflito.

No fim do encontro, Ana Luiza Grillo Balassiano reitera a importância da Sucá para os judeus e para a divulgação do preceito dentro da Universidade.

— O judaísmo entende que é uma festividade que marca uma travessia feita pelos hebreus que saíram do Egito, onde viviam como escravos, indo para a terra prometida, um momento em que você sai de um tempo e vai para outro. Mesmo que a gente sinta a precariedade do espaço físico, temos conforto no acolhimento pelo divino. A Universidade é diversa e, quanto mais discutirmos estes aspectos de pertencimento à outra tradição religiosa, mais estaremos dialogando com o diferente.

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