Favelas do Rio: muito além da violência
11/10/2023 17:52
Ana Tonelli

Bom Dia Favela, telejornal da Band, conta novas histórias sobre as comunidades.

Equipe do Bom Dia Favela contou sobre o objetivo do telejornal. Foto: Mateus Monte

No dia 4 de setembro entrou no ar o Bom Dia Favela, primeiro telejornal voltado para retratar potencialidades e personagens das comunidades. O programa é uma iniciativa da Band Rio e é produzido por pessoas que nasceram e viveram nas favelas da cidade. Rodrigo Felha, diretor do projeto, Joyce Alves, apresentadora, João Vitor Nascimento, repórter, e Edlene Conrado, produtora executiva, participaram da palestra organizada pela professora Lilian Saback, do Departamento de Comunicação, no dia 10 de outubro.

O Bom Dia Favela representa a volta da rede Bandeirantes às comunidades do Rio de Janeiro. Desde 2011, com a morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, atingido por um tiro durante confronto entre traficantes e policiais em Antares, Zona Oeste, a emissora evitava coberturas nas favelas.

O programa, que está há um mês sendo transmitido diariamente em TV aberta, pretende contar histórias que, historicamente, não são abordadas pela mídia. Além da mudança na narrativa, há também uma modificação no formato, como o uso de gírias e de coberturas mais didáticas. Já na primeira reportagem, o jornal contou a história das favelas, com entrevista da coordenadora do Redes da Maré, Pamela Carvalho. 

A apresentadora Joyce Alves teve a primeira oportunidade no Bom Dia Favela.  Quando cursava a faculdade de Jornalismo, na Pinheiro Guimarães, ela ouviu que deveria ter um perfil diferente. Mesmo depois de conquistar espaço no telejornal, Joyce ainda recebeu comentários negativos sobre sua aparência: suas roupas e o cabelo eram considerados inadequados. A moradora do Complexo do Alemão aparece na Band com roupas coloridas e o cabelo natural, em diferentes penteados afro. 

Para Joyce, o jornal é uma mudança de narrativa porque passa a enxergar as favelas de uma outra maneira, como potências culturais, esportivas e intelectuais. As comunidades são retratadas, na maioria das vezes, pelas mazelas e dores. Dessa forma, muitas falsas ideias são criadas sobre o que são as favelas e os seus moradores. 

— Com coberturas estereotipadas corremos o risco da história única. Estereótipos não estão necessariamente errados, mas são sempre incompletos. É preciso amplificar a voz das pessoas marginalizadas, falar sobre a importância de dar voz, mas elas já existem.

Joyce Alves conta sobre a importância de retratar histórias com profundidade. Foto: Mateus Monte

O jornal é dirigido por Rodrigo Felha, que fez 5x Favela e é roteirista da série Cidade de Deus. Para ele, o jornalismo tradicional transmite apenas a violência que existe nas favelas, o que representa 1% do que ela de fato é. O objetivo do Bom Dia Favela é exibir os outros 99%. 

— É preciso entender os “brasis” que existem no país, não conhecemos nem compreendemos grande parte. A favela é um Brasil extremamente singular.

Em seus trabalhos, Rodrigo une cinema e jornalismo. Quando estudante, por conta do ambiente elitizado e de maioria branca, demorou a se reconhecer cineasta. O diretor e morador da Cidade de Deus precisou ser reconhecido por outra pessoa para perceber o lugar que ocupava. Ele conta que um dos obstáculos enfrentados em sua formação, foi o sentimento de imediatismo, de que seria preciso ajudar a sustentar a família o mais rápido possível.

Cineasta constrói ponte entre cinema e jornalismo. Foto: Mateus Monte

A produção executiva do Bom Dia Favela, é feita por Edlene Conrado que faz parte do Voz da Comunidade. Nascida no Complexo do Alemão, ela relatou que durante muito tempo evitava assistir à TV aberta, pois o espaço em que morava era retratado apenas como um lugar de dor. Para ela, o telejornal muda a narrativa das notícias sobre as comunidades, porque transmite o afeto que há nelas.

Edlene havia se afastado da TV aberta para não ver favelas sendo reduzidas à dor. Foto: Mateus Monte

João Vitor Nascimento, repórter do Bom Dia Favela, afirmou ser fruto de um projeto de investimento familiar. O jovem de 25 anos entrou no mundo artístico por meio do grupo de teatro Nós do Morro, hoje atua pela primeira vez como jornalista e entende que há uma ligação entre as peças e as reportagens.

Repórter e ator conta histórias de diferentes formas. Foto: Mateus Monte

— Minha mãe abriu mão de sonhos próprios para viver os meus, o que conquisto hoje é parte da minha ancestralidade. O interesse em contar histórias é algo comum ao jornalismo e ao teatro. Acredito que o importante é contá-las da melhor forma possível.

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