Atualidade e a busca pela verdade
18/04/2022 17:11
Giulia Matos

Muniz Sodré ministra Aula Inaugural do Departamento de Comunicação

Jornalista e sociólogo, Muniz Sodré. / Foto: Divulgação

Os desafios do universo da comunicação nos dias atuais em meio à disseminação das fake news foi um dos assuntos abordados pelo professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e jornalista, Muniz Sodré, na Aula Inaugural do Departamento de Comunicação, no dia 11 de abril. A palestra, realizada virtualmente, recebeu o título de “Comunicação, fala e verdade”.  

O autor afirmou que há um enfraquecimento do que chama de “dicção da verdade”, da transmissão da veracidade dos fatos, que mistura desinformação, as notícias falsas e a pós-verdade. Ele relembra as manobras usadas para corromper a divulgação de materiais jornalísticos, dados, na época da Ditadura Militar no país, entre os anos de 1964 e 1985, e enfatizou que ela se distingue daquelas executadas recentemente.

- Acho que isso interessa particularmente à área da Comunicação. No passado, existiam determinadas estratégias de desinformação que eram aplicadas, utilizadas principalmente na guerra psicológica dos militares no período da Ditadura. Elas estão ultrapassadas, se diferem das empregadas hoje em dia. O informar erroneamente, a ação de mentir, ganhou outro aspecto ao longo dos anos. Agora, um dos focos é reduzir, retirar a capacidade crítica de um indivíduo em relação a um tópico específico, de modo em que a noção de “verdade” seja deturpada.

Sodré observou que problemas podem surgir com a publicação e divulgação de produções, materiais que não sofreram uma apuração completa e correta. Um destes desafios seria o consumo consciente destas informações, isto é, no qual as pessoas saberiam que ela está incorreta e incentivariam e continuariam a propagá-las. 

- A utilização de informações falsas em discursos sociais pode induzir o povo a ações perversas. Este é um dos perigos das publicações em plataformas, redes sociais e veículos de comunicação nos dias de hoje. Você não só dissemina inverdades. Este problema sinaliza para um fenômeno que é inquietante, no qual é o acolhimento coletivo às mentiras. Isto ocorre quando há um consumo deliberado, consciente, destas declarações e alegações adulteradas. Não se trata de crer, optar por uma verdade, e sim sobre aderir incondicionalmente e emocionalmente a uma voz.

O sociólogo disse que as pessoas adotam, diversas vezes, um discurso baseado somente naquele que fala, sem possuir uma crença ou refletir de maneira crítica sobre aquilo que é trabalhado ou dito. Desse modo, Sodré apresentou a definição de discurso performativo, o qual corresponde ao seguido em decorrência de quem o emitiu, e o distingue do constativo, que pode ser provado por ser um fato. 

- Um indivíduo não precisa acreditar puramente em um discurso para aderir à uma voz coletiva. Para que isto ocorra, é necessário somente a presença e uma força performativa em relação ao assunto que é discutido. Há uma diferença entre o discurso constativo e performativo. O primeiro é aquele que pode ser comprovado, como o formato da lua ou o fato de ela não ser um queijo. Já o segundo introduz uma informação, e a pessoa somente vai segui-la ou concordar com ela por causa daquele que a disseminou. É como se você emprestasse dinheiro a alguém só porque ela teria prometido lhe pagar. Os efeitos discursivos já estão no próprio verbo da frase, o que torna performativo. 

O professor reiterou que um ponto extremamente importante para o compartilhamento de informações é o diálogo. Esta ação é inerente ao ser humano, pode ser considerada da própria natureza, e seria o meio necessário para que os indivíduos se conectem, simpatizem um com o outro, troquem experiências, de maneira que possam contribuir para a formação de um pensamento crítico. Segundo Sodré, esta característica se sobressai até na origem etimológica da palavra.

- O diálogo é a abertura e ampliação do laço coesivo, tanto por ações quanto por discurso, com o intuito de fortalecer, firmar um vínculo humano. A ligação entre as pessoas é uma peça central para a comunicação. Esta relação é sempre política, não no sentido partidário, pois ela almeja solidariedade e discernimento crítico. A etimologia do termo nos revela isso. O prefixo dia representa uma divisão em travessia, no qual mostra uma distância entre duas pessoas apoiadas na linguagem. O diálogo, antes de unificar, divide, ele cria essa separação mas lhe convida a superar estas barreiras para que seja possível obter uma verdade consensual, vinculativa.

Mais Recentes
Mesma essência em diferentes frequências
Em comemoração do centenário do rádio, a professora Rose Esquenazi analisa as transformações do meio de comunicação
Avanço sobre o desconhecido
No XXX Seminário de Iniciação Científica da PUC-Rio, alunos da Universidade recebem certificados e discutem o ofício da ciência neste século
Amizade e fraternidade social
XIII Semana da CRE discute maneiras de incentivar autonomia e cidadania na Universidade