Universidade e representatividade
09/05/2022 15:45
Maria Fernanda Firpo

Centro Acadêmico de Ciências Sociais da PUC-Rio comemora os dez anos de existência das cotas com debate nos pilotis

 

Lucas Adeniran, Aza Njeri e Wesley Teixeira. (Foto: ReproduçãoTV-PUC-Rio)

Após dez anos do início das Leis de Cotas no Brasil, a PUC-Rio sediou um encontro que teve como principal objetivo celebrar os efeitos da implementação das políticas de cotas para a democratização do Ensino Superior. Ministrada pelo aluno de Ciências Sociais, Lucas Adeniran, a palestra, que ocorreu no dia 28 de abril, com a presença da professora Aza Njeri, do Departamento de Letras, e do pedagogo e militante do Movimento Negro, Wesley Teixeira.

Graduada em Letras e Doutora em Literatura Africana pela UFRJ, Aza Njeri contou que quando se formou, em 2006, apenas sete dos 156 formados eram negros. Apesar de Letras não ser um curso totalmente elitista, o ambiente da universidade não era inclusivo. Segundo ela, o preconceito racial existia inclusive entre os professores, que em 2008, em debates sobre a aplicação das cotas, se colocavam contra a política de inclusão, pois afirmavam que elas iriam acabar com o Ensino Superior.

A falta de representatividade se estendia também para o âmbito teórico. Ao estudar Literatura Africana, Aza revelou que apenas escritores africanos brancos, como Mia Couto e Pepetela, eram privilegiados. Com a abertura das cotas, o ambiente da Universidade mudou. De acordo com a professora, a entrada de estudantes negros, indígenas e transsexuais que nunca tiveram as mesmas oportunidades e privilégios que os outros alunos, “pluriversalizou” o meio acadêmico.

– A abertura para as cotas, para além da luta política, trouxe novas possibilidades de pensar a nossa existência e entender que o Brasil é a maior diáspora africana do mundo. Em termos populacionais, nós só perdemos para a Nigéria. O Brasil é o segundo país mais Negro do mundo, são 104 milhões de pessoas afrodescendentes, e a academia e a produção de saberes, de conhecimentos, não considera isto. Isso tem um nome, isso se chama epistemicídio, que é o apagamento e a morte de saberes que não sejam hegemônicos.

Idealizador do Movimento Caxias e integrante da coluna PerifaConnection, Wesley Teixeira, declarou que a política de cotas é a porta de entrada para uma maior representatividade negra na sociedade. De acordo com ele, as cotas precisam ser debatidas no ambiente acadêmico, principalmente para que todos possam entender a sua importância.

– Não fomos nós quem mais ganhou com as cotas na universidade: foi a universidade e a educação pública do Brasil, que é um país que descarta conhecimento.

Além disso, Teixeira esclareceu que a Lei de Cotas é tanto racial quanto social. Segundo o professor, isto é a prova de que o movimento negro sempre pensa na sociedade como um todo. Assim, além de ser uma política de reparação, é uma ação que beneficia pessoas de diferentes esferas.

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