A arte das histórias narradas
04/09/2023 16:51
Julia Amoêdo

Uma das integrantes da equipe da Rádio Novelo, Flora Thomson-DeVeaux comenta o poder do áudio em bate-papo na PUC-Rio

Flora Thomson-DeVeaux durante a conversa na PUC-Rio. Foto: Julia Amoêdo

A pesquisadora, brasilianista, tradutora e diretora de Pesquisa da Rádio Novelo, Flora Thomson-DeVeaux, esteve na PUC-Rio, no dia 30 de agosto, para participar do História às Quartas, promovido pelo Departamento de História. Na conversa intitulada “A arte de pesquisar para narrativas sonoras”, a responsável pela apuração de informações do podcast Praia do Ossos relembrou o início da carreira e explicou como pode ser um processo de pesquisa arquivística e de produção de roteiros. Graduada em Culturas e Línguas Espanhola e Portuguesa pela universidade de Princeton, a profissional começou a consumir podcasts ainda na adolescência, para se ocupar enquanto fazia tarefas manuais. O hobby se tornou profissão após o fim do doutorado, com o início do Praia dos Ossos, cuja ideia surgiu com a preocupação de Branca Vianna, apresentadora do programa, de que o caso do assassinato da socialite Ângela Diniz caísse no esquecimento. Além do talento, a trajetória de Flora prova que, muitas vezes, a sorte pode estar a favor de uma pessoa, como ela conta na entrevista realizada após a palestra.

Flora comenta sobre o trabalho de pesquisa. Foto: Julia Amoêdo

Você falou que a sua formação é eclética, pode contar como foi esse caminho?

Como a maior parte dos adolescentes nos Estados Unidos, entrei na faculdade com quase nenhuma ideia do que queria estudar. Por sorte, na maior parte das universidades, eles obrigam a percorrer toda uma gama de assuntos para você poder diversificar e se descobrir no processo. Isto foi muito rápido para mim. Entrei na faculdade já falando espanhol, que tinha aprendido no Ensino Médio, e pensei que a América Latina seria alguma coisa que eu gostaria de ir atrás. Conheci o Departamento de Espanhol e Português [de Princeton], fui convencida a estudar a língua portuguesa e fiquei absolutamente fascinada por aspectos da história, literatura, música e cinema do Brasil. Quando fui ver, já estava apaixonada. O que eu faço hoje é o resultado dessa história, para o bem e para o mal. 

Por que você decidiu fazer intercâmbio?

Foi em 2011. Eu tinha decidido que queria passar o terceiro ano fora. Fiquei o segundo semestre no Brasil, vim pelo convênio da Brown University. Depois, segui para Buenos Aires – que é muito legal, mas voltei correndo para cá.

Como começou a escrever para a Piauí?

Um semestre antes de fazer o intercâmbio, o João Moreira Salles foi professor visitante na Princeton, ele foi dar uma aula sobre ética em um documentário. E ele ficou muito intrigado com essa gringa de 19 anos que estava, naquele momento, perdidamente obcecada pela música brasileira nos anos 1920 e 1930. O João achou muito curioso e me convidou a continuar minha pesquisa no acervo do Instituto Moreira Salles (IMS). Quando cheguei, em parte para evitar que a minha família ficasse me ligando no meu celular brasileiro pelo Skype, comecei a escrever um blog que era, sobretudo, para eles. O João acompanhou e achou muita graça, gostou desta perspectiva de alguém que sonhava com o Brasil há alguns anos, mas estava tendo a experiência dos primeiros seis meses, de botar o pé no chão e descobrir tudo ao vivo e a cores. Ele pediu para reproduzir alguns posts naquele blog, Questões Estrangeiras, no site da Piauí. Enfim, a relação com a revista nasceu ali: primeiro na sala de aula e, depois, com a leitura do meu blog particular.

Você diria que foi isto que te trouxe para a pesquisa e, agora, para também assumir o papel de jornalista na Rádio Novelo?

Eu acho que é uma questão de perfil, não sei se é um temperamento de pesquisadora que tenho. Fico mais feliz, me vejo mais alegre, quando estou só seguindo o rastro de alguma história. Fico muito mais confortável com documentos do que com gente [risos]. Eu me considero muito mais pesquisadora do que jornalista: é muito mais fácil brincar com as fontes e passar um dia na hemeroteca do que passar um dia falando com pessoas. Foi uma coisa de migrar naturalmente para o que mais me interessava.

Como é o processo de montagem dos episódios do Rádio Novelo Apresenta? Quais os desafios?

Os desafios são imensos. A gente, por um lado, gosta de coisas esquecidas e semiesquecidas. Por outro lado, temos um ritmo de produção que é muito devagar, não existe produzirmos uma pauta para amanhã, nem para semana que vem. A gente fez isso uma vez, com a posse do Lula, mesmo assim era bem curtinha. Somos obrigadas a procurar essas histórias que não vão envelhecer, que vão estar ali e vão ser interessantes depois de amanhã, no mês que vem, com sorte, daqui a cinco anos. Acho que a gente procura o “não óbvio”, aquilo que não está na manchete. Com relação à temporalidade, às vezes buscamos aquilo que está no passado recente, mas não tão recente que todo mundo lembra de todos os contornos. Não conseguimos revisitar um caso que aconteceu há cinco anos porque não dá para trazer nenhuma novidade interpretativa. Mas, passados dez, quinze ou vinte anos, estamos em outro mundo e conseguimos recontar aquela história, mesmo sem fazer uma super apuração e levantar um monte de informações novas. Mas dá para fazer um ensaio em áudio que traga alguma perspectiva nova. Muitas vezes, a gente se insere nessa brecha, não só de assuntos que não estão tão em evidência, mas de coisas que estão quase caindo no esquecimento, ou já caíram, e a gente consegue reviver.

Por que você acha que o podcast tem tanto apelo? O que contribui para que tantas pessoas, inclusive jovens, consumam essa nova forma de fazer rádio?

Acho que tem muitos apelos. Quem não consome, costuma ver podcast, ou só áudio, como uma coisa menor. Por exemplo, quando a gente estava fazendo a apuração do Praia dos Ossos, muitas pessoas falavam “Vocês não querem fazer um livro, um filme?”. E a resposta é “Não, é isso que a gente quer, trabalhar com o som”. Porque tem uma coisa, um poder, que só o áudio tem, é uma capacidade que eu comparo com a melhor literatura. O Dom Casmurro fala sobre o livro com lacunas, que o leitor tem que preencher. O áudio é isso: uma história que está ali e cabe a você interpretar, completar e construir aquela paisagem, aquela pessoa, a partir da voz e dos sons que você ouve. Existem cenas que escutei em reportagens quando eu tinha 9 ou 10 anos, consigo lembrar exatamente da descrição e de onde eu estava. Isto é muito raro de ter com qualquer outro meio, é algo que cala fundo na gente. Eu comecei a ouvir podcast e audiolivro porque eu tinha muita coisa para fazer com as mãos. A gente está muito em movimento, e acho que existe um conforto muito grande de ter alguém ali no seu ombro contando uma história. Isso não é um fenômeno de agora, mas, talvez hoje, em que nossa atenção é tão demandada, só o áudio é uma forma mais tranquila e menos ansiosa de você conseguir conciliar duas atividades ao mesmo tempo.

Sobre a tese de doutorado, por que você escolheu traduzir Memórias Póstumas de Brás Cubas? Você esperava a reação positiva da crítica e do público norte-americanos?

Foi um dos primeiros grandes livros da literatura brasileira que eu pude ler em português, no segundo ano dos meus estudos da língua. Memórias Póstumas deixou um marco, tem livro que a gente lê e sabe que vai nos acompanhar pela vida toda. Naquele momento, óbvio que não pensei que eu ia traduzi-lo, mas tive uma experiência de tradução intermediária que deixou uma comichão. Foi quando fiz a versão de um livro do João Cezar Castro Rocha, da UERJ, sobre Machado. E aí, pensei: “Não, eu vou traduzir só o texto analítico do João Cezar, já que tudo do Machado já tem tradução, vou só inserir”. Só que, muitas vezes, a leitura que ele fez de determinadas passagens dialogava de forma tão estreita com uma palavra específica e, às vezes, nas três versões em inglês que já tinham sido publicadas, aquela palavra não fazia sentido com a análise dele. Fui obrigada a traduzir um monte de pedacinhos de Machado, e isto deixou um anseio de voltar com calma a um desses grandes livros do autor. Quando eu comecei a pensar mais seriamente em entrar no doutorado, cheguei à conclusão que esse seria o tempo, espaço e condições que precisava para fazer esse trabalho. Quanto à repercussão, não esperava. Eu nem pensava em publicar nesse período, não queria falar com uma editora enquanto não estivesse satisfeita com o produto. Quando mandei para banca, pensei: “Acordei para a vida, agora preciso correr atrás de publicar”. A gente tinha pensado em fazer um lançamento em Nova York, estava achando tudo muito chique, e aí veio a pandemia. Pensei: “Pronto, vou jogar minha tese no mundo e seja o que Deus quiser”. Dei muita sorte, com certeza não esperava que o livro pudesse pegar fogo do jeito que pegou. Teve muito mérito da editora [Penguin Random House], que conseguiu criar um burburinho, e o resto é uma sorte, uma alquimia absurda. Às vezes, na vida, a gente tem sorte, ainda não ganhei na Mega-Sena, mas ganhei nessa.

E qual o seu episódio favorito do Rádio Novelo Apresenta?

Vou ficar te devendo, uma mãe não pode escolher entre os filhos [risos].

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