Construção de um desastre
29/11/2018 14:26
Lucas França

A jornalista Cristina Serra conta em palestra como foi a elaboração de livro sobre a catástrofe causada pelo rompimento de barragem em Mariana

Alguns exemplares do livro Tragédia de Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil, de Cristina Serra. Foto: Amanda Dutra

No Natal de 2015, a jornalista Cristina Serra participou da ceia do dia 24 em Minas Gerais, ao lado de uma família que perdeu a casa e todo o patrimônio com o rompimento da barragem de Fundão, no subdistrito de Bento Rodrigues, município de Mariana. Este é apenas um dos momentos que repórter vivenciou para tentar entender o que ocorreu em novembro de 2015. Após mais de um ano de investigação, Cristina lançou o livro Tragédia de Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil. Na terça-feira, 27, em palestra realizada na Universidade, ela contou um pouco como foi o processo da apuração dos fatos e o trabalho de elaboração do livro.

A jornalista trouxe relatos sobre as cidades e famílias atingidas pela lama após o rompimento de uma barragem de rejeitos de mineração, controlada pela empresa Samarco. Ela ainda traçou um panorama técnico da situação da barragem antes e depois do rompimento, além de mostrar a parte jurídica do caso. Ela destacou que, entre muitas consequências, o acidente atingiu 38 municípios, devastou três povoados, matou 19 pessoas e, do ponto de vista jurídico, gerou 400 testemunhas e 21 réus.

— O jornalismo precisa lidar com fatos concretos. Conversei com 12 familiares de mortos na tragédia e com a tribo Kremak, que acredita que o espírito do Rio Doce, hoje afetado pela lama e dejetos, se retirou da região e os desamparou. Encontraram fragmentos de corpos a 110 quilômetros de distância de Mariana. Trato até o Rio Doce e a barragem rompida como personagens centrais no livro.

O início da cobertura do caso ocorreu quando Cristina ainda era repórter do Fantástico, da TV Globo. Em 2016, já como jornalista freelancer,ela começou a escrever o livro, quando recebeu a informação de que o problema do rompimento da barragem estaria nos piezômetros, aparelhos que medem a compressibilidade da água e que pararam de medir os números dez dias antes do rompimento da barragem. Para ela, o caso teria um tamanho maior do que aparentava, motivo que a impulsionou na investigação. E ela não estava errada: hoje, o rompimento da barragem de Fundão é considerado o maior desastre ambiental da história brasileira.

A palestra com a jornalista Cristina Serra foi realizada no Auditório do RDC. Foto: Amanda Dutra

Cristina disse que, tanto para a TV quanto para o livro, a cobertura da catástrofe foi difícil e desafiante. Diante da complexidade da situação, precisou da ajuda dos engenheiros para que “besteiras não fossem escritas”. Mesmo assim, ressaltou, a abordagem principal do livro não é técnica ou histórica. A jornalista disse que as vidas impactadas foram o foco na escrita.

O encontro foi organizado pelo Departamento de Engenharia Civil e Ambiental e teve a presença do professor Alberto Sayão, de Engenharia Geotécnica, que apresentou a palestrante e a obra. Ele lembrou das muitas indagações que a autora de Tragédia de Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasiltinha durante o período de apuração dos fatos.

— Conheci a Cristina exatamente na época da tragédia de Mariana, quando ela cobria o caso e ainda tinha muitas dúvidas técnicas. Este é um livro que se começa e não se para até terminar. Um presente.

Ao falar sobre o que teria ocasionado o rompimento da barragem, Cristina citou o professor Jean Pierre Remy, do Departamento de Engenharia Civil, presente na plateia. Ela contou que ouviu de Remy que o grande problema da Samarco foi ter “dito pouco não”, ou seja, ter sido negligente em diversos momentos. Laudos técnicos incompletos relevados, drenos entupidos sem revisão e verbas do setor de geotecnia da barragem cortadas foram casos em que nenhuma pressão por parte da Samarco foi feita. Pelo tamanho do acidente, Cristina defende a atuação do jornalismo que, para ela, foi essencial para elucidar muitos pontos obscuros da tragédia.

— É importante que esse caso seja noticiado porque a tese da empresa, desde o começo, era de que o rompimento teria sido causado por um terremoto, uma catástrofe natural. A investigação mostra o contrário, foram decisões da mineradora, o processo de licenciamento que levou a construção da barragem e outras questões, aprofundadas no livro, que geraram o rompimento. Mostrar isso é definir responsabilidades para quem está envolvido no caso.

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