Vidas indígenas ameaçadas
15/03/2019 19:26
Beatriz Puente

O antropólogo Eduardo Viveiros aborda a realidade dos índios no Brasil

O antropólogo ministrou a Aula Inaugural do CTCH. Foto: Beatriz Cortes

O Brasil do futuro do pretérito foi o tema da Aula Inaugural ministrada pelo antropólogo e professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Eduardo Viveiros. Convidado pelo Centro de Teologia e Ciências Humanas (CTCH), ele abordou questões como a demarcação de terras indígenas, o ataque à educação e a resistência das minorias. A aula contou com a presença do Decano do CTCH, professor Júlio Diniz.

Viveiros de Castro chamou a atenção para a atual conjuntura dos indígenas, objeto de estudo do antropólogo. Ele falou da relação da vida isolada de mais de 28 comunidades indígenas que preservam histórias, tradições e culturas mesmo quando migram para o meio urbano.

- São o maior símbolo da resistência imanente ao projeto de extermínio que o governo simboliza. Trata-se de uma minoria étnica, social, cultural e política. É como uma memória involuntária que recorda a esses povos que eles continuam indígenas, que eles nunca deixaram de sê-lo e que sempre podem voltar a ser.

No dia 2 de janeiro, o presidente Jair Bolsonaro transferiu para o Ministério da Agricultura a atribuição de identificar, delimitar e demarcar terras indígenas, responsabilidade que antes cabia à Funai. A pasta do Serviço Florestal Brasileiro, cuja função é recuperar a vegetação nativa e recompor a área florestal, também foi incorporada ao ministério.

O pesquisador estabeleceu três frentes, estimuladas pelo governo, que ameaçam a existência dos índios: o agronegócio, o fundamentalismo religioso e os militares. Para ele, esses pilares buscam o dinheiro, a evangelização e a soberania, respectivamente.  

- Esse novo governo está inteiramente a serviço dos interesses do grande capital financeiro, extrativista e agroindustrial de um lado, e do forte lobby evangélico fundamentalista de outro. A frente evangélica quer as almas e não as terras. Esse colonialismo espiritual é mero acessório na guerra feita pelo Estado a toda forma de vida. Já o militar vê o índio vazio de valores pátrios

Alunos participam da Aula Inaugural. Foto: Beatriz Cortes

Ex-aluno da PUC-Rio, o antropólogo ressaltou o papel da Universidade como espaço de acolhimento na época da Ditadura Militar. Ele comparou esse período com o atual cenário político do Brasil e afirmou que os profissionais de Ciências Humanas estão em situação de risco.

- É um momento em que há um ataque brutal à educação, sobretudo às Ciências Humanas, em escala até maior, em alguns aspectos, do que na ditadura. Talvez não esteja longe o dia em que a PUC voltará a ser o abrigo que foi nos anos 70. Não sei se espero que sim ou espero que não.

O Decano do CTCH, professor Júlio Diniz, ressaltou a importância da formação antropológica de Viveiros de Castro nos debates sobre o Brasil. As diferenças entre ciências humanas e sociais foram destacadas pelo Decano como características importantes para abordar temas como sociedade e minorias de forma a estimular uma nova interpretação do país.

- O Eduardo é uma das melhores vozes para falar sobre Brasil. É alguém que está discutindo humanidade, sociedade e cultura de maneira ampla. Ele está falando do choque de concepções, de dissoluções da ideia de nação, para começar a falar da tensão entre maiorias e minorias. Para nós, é fundamental essa aula Inaugural do CTCH com o Eduardo. Não tem a mínima importância ele ser antropólogo, pelo contrário, temos que repensar o Brasil traçando um fosso entre as Ciências Humanas e as Ciências Sociais.

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