Fofão da Augusta
25/04/2019 18:17
Letícia Messias

O repórter Chico Felitti conta como foram os quatro meses de apuração para reportagem sobre personagem emblemático de São Paulo, que foi transformada em livro

Felitti já ganhou o Prêmio Petrobras de Jornalismo. Foto: Maloni Cuerci

“Fofão da Augusta? Quem me chama assim não me conhece” é o título da reportagem que demorou mais de dez anos para ser feita. O material foi publicado em outubro de 2017 e deu vida ao personagem tido como um “cartão-postal humano” da cidade de São Paulo. Conhecido pelo rosto deformado por aplicações de silicone e bochechas inchadas, Ricardo Correa da Silva teve a história contada pelo jornalista Chico Felitti. Vencedor do Prêmio Petrobras de Jornalismo na categoria inovação, o repórter esteve no dia 12 de abril na Universidade para contar sobre os processos de construção desse trabalho. 

Com mais de dez anos de experiência como repórter pela Folha de São Paulo e atualmente mestrando em Escrita Criativa pela Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, Felitti afirmou que no jornalismo, principalmente no ambiente de trabalho, há uma pressa e um afã. Sem tempo para contemplação e ideias, a lógica do hard news, no jornal diário, pode tornar o jornalista um estereótipo de redação.

– Uma pauta é uma ideia, nem sempre ela é a notícia no estado puro. Um furo é importante, mas não usar as ideias é não usar o talento do jornalista, é ser uma máquina de aspas. Se você realmente acreditar, vai atrás.

E foi por acreditar na história que o repórter passou 14 anos tentando entrevistar o artista de rua Ricardo Correa. Ele contou que tudo começou quando voltou para São Paulo para fazer faculdade, aos 17 anos. Quando encontrou Fofão pela primeira vez, perguntou aos novos amigos de quem se tratava, mas percebeu que todos eles tinham uma versão diferente sobre quem ele era, e ninguém sabia o nome.

– Foi daí que eu percebi que ele era como um cartão postal da cidade, todo mundo sabe quem é, mas ninguém conhece. Aquilo me deixou impressionado.

O jornalista fez crítica ao estereótipo das redações. Foto: Maloni Cuerci

Segundo o jornalista, os encontros ocorriam com frequência e não era um grande esforço de reportagem ir atrás dele. O repórter tentava se aproximar mais a cada vez, começava a falar com ele e pedir uma entrevista, que era sempre negada educadamente. E isso que deixava ainda mais intrigado.

– Eu sou muito dessa escola intuitiva. Claro que existem critérios mais objetivos, assuntos de interesse público, mas aí vai mais para hard news. Falando de personagens e matérias mais etéreas, eu acredito muito em feeling, e isso não se aprende muito na escola, acho. Queria muito que um professor meu tivesse me dito “se você está muito obcecado com uma história, vai atrás”. Isso aconteceu muito na minha vida, não só nessa matéria.

Para Felitti, é interessante pensar que se algo desperta curiosidade, talvez seja curioso para outras pessoas também. Em 2014, ele relatou no Facebook um encontro que teve com Ricardo nas ruas de São Paulo, e a vontade que tinha de entrevistá-lo. E foi por essa publicação na rede social que quase três anos depois, na Páscoa de 2017, uma pessoa desconhecida, que tinha lido o relato publicado tempos atrás, o chamou para contar que o Fofão da Augusta estava internado no Hospital das Clínicas.

– Eu fui para o hospital visitar esse artista de rua que ninguém sabia exatamente quem era, tentar entrevistá-lo, e aí entrei nessa apuração de quatro meses e meio que virou a primeira publicação e podcast no BuzzFeed.

A história de Ricardo, relembrou o repórter, viralizou no mesmo dia da publicação na página do BuzzFeed. Dois meses após a postagem, o artista de rua morreu, mas a história virou um livro.  Com título Ricardo e Vânia, Felitti lançou a obra em fevereiro deste ano, que já está em processo de adaptação para os cinemas pela RT Features, do brasileiro Rodrigo Teixeira. Com toda a abrangência, Felitti relatou o receio que teve de tornar o conteúdo público.

– Foi o maior conflito moral e ético da minha vida. Não sabia se deveria publicar ou não. Descobri que ele era uma pessoa fragilizada, que havia coisas da vida dele difíceis de expor. O meu medo, de contar a história dele, além do fato dele ser uma pessoa com desvios – em alguns momentos ele estava na realidade, outras não – era alguém se aproveitar da fragilidade dele para fazer o mal.

Felitti lançou seu primeiro livro em fevereiro. Foto: Maloni Cuerci

Ao relembrar o momento, o repórter disse que pediu ajuda de professores e outros profissionais que ele admirava. Apesar de ter a confirmação de Ricardo em todos os momentos da entrevista, seja quando o entrevistado estava mais ou menos próximo da realidade, o envolvimento com a história fez com que ele repensasse inúmeras vezes nas consequências da publicação.

– Não se pode esquecer que você está tratando com um outro ser humano. É preciso saber quais são os limites intransponíveis. Não se deve explorar o sofrimento do outro para dar notícia. Ao mesmo tempo, é preciso ser sempre honesto no sentido de que não é uma amizade, é um trabalho. Existem consequências que não têm como controlar, como por exemplo, os comentários nas redes sociais. Como preparar uma pessoa para isso? É seu dever avisar que isso pode acontecer, porque não é dever do entrevistado saber disso, mas você está no meio e sabe.

Apesar de toda a trajetória e os medos compartilhados durante a conversa, Felitti disse que a reação do público e da família à reportagem foram positivas. As pessoas sentiram vontade de ajudá-lo, queriam tirar fotos. O jornalista afirmou que a relação com Ricardo trouxe muitos ensinamentos para vida profissional, fatos que hoje compartilha nos lugares por onde passa.

– Todo mundo tem seus interesses. Quando vou falar em escolas, gosto de perguntar aos alunos o que eles gostariam de investigar. Se você tivesse cinco meses para apurar, o que apuraria? Você tem a liberdade. Sempre queremos liberdade, tempo e ação. Mas você sabe o que faria com tudo isso? É um exercício de autoconhecimento, saber o que você quer e o que gosta. Tem que ter o pragmatismo, porque você precisa pagar contas. Mas não é só isso, e hoje eu sei que dá para ser jornalista sem trabalhar com isso 24 horas por dia.

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