Chuvas no Rio
18/06/2019 17:01
Gabriela Azevedo

II Semana de Geografia promove encontros para discutir os rumos da profissão, saneamento básico e as causas e as consequências dos temporais no Rio de Janeiro

O debate encerra o ciclo de palestras em comemoração ao Dia do Geógrafo. Foto: Amanda Dutra

As Chuvas na Cidade do Rio de Janeiro foi o tema central de palestra na II Semana da Geografia, que ocorreu no dia 30 de maio. A atividade fez parte das celebrações pelo Dia do Geógrafo. O processo de ocupação da cidade, o papel do geógrafo e saneamento básico foram debatidos pela mesa, composta pelos professores do Departamento de Geografia Marcelo Motta, Rodrigo Paixão, Rafael Nunes e pelo geólogo da GeoRio Nelson Meirim.

Marcelo Motta comentou a relação entre a Eco 92 e as questões sustentáveis, com a empregabilidade do geógrafo, nas décadas seguintes aos anos 1990. O professor relembrou o processo de urbanização e a expansão da cidade para Zona Oeste atrelado ao aterramento de brejos e lagoas. Ele também discutiu o papel do geógrafo na ciência do risco e na gestão do território.

- Vivemos em uma cidade construída por engenheiros, mas a questão de território não é assunto para engenharia. Cerca de um terço da população do Rio vive em condições de cidade informal e que não diz respeito a esta cidade ideal dos engenheiros. O risco não é apenas dimensão geográfica, mas também de saúde e saneamento. Precisamos entender e lançar mão dos territórios. O Estado, em vez de ser democrático e ideal, representa territórios e poderes locais distribuídos pela cidade. Hoje em dia, não sabemos a distância entre milícia e Estado. A profissão do geólogo tem urgência nesse tipo de atuação.

Rodrigo Paixão incentiva alunos a buscar o espaço do geógrafo no mercado, nas instituições e nos conselhos regionais de representação. Foto: Amanda Dutra

Durante a discussão, o professor Rodrigo Paixão expôs o levantamento histórico que fez de boa parte dos deslizamentos e enchentes gerados pela chuva. Segundo ele, as observações meteorológicas na cidade iniciaram com o Imperial Observatório do Rio de Janeiro, em 1827. Paixão destacou que os escorregamentos e alagamentos têm fatores condicionantes, mas há também um fator causador, que é a chuva.

- Os deslizamentos se comportam essencialmente no período mais chuvoso, o verão. Isso mostra justamente que o fator causador do deslizamento é, principalmente, a chuva. Por mais que existam ocupações irregulares e em áreas suscetíveis a deslizamento, o fator causador são as precipitações. Por essa razão, não podemos associar os escorregamentos a ocupação irregular e gerar um discurso preconceituoso em relação a isso.

O professor Rafael Nunes abordou as vertentes do saneamento e algumas medidas mitigadoras para repensar os planos de manejo e ação. Ele explicou a diferença entre enchente, fenômeno natural da cheia do rio vinculada ao acúmulo de precipitações, e inundações, processo associado à extrapolação do canal principal do rio que atinge as planícies de inundação. O professor convidou os alunos de geografia a sair do campo meramente reflexivos e começar a propor soluções e alternativas para cidade dentro da Universidade.

-O saneamento é composto por quatro vertentes: o abastecimento de água potável, o esgotamento sanitário, a drenagem e o manejo das águas pluviais urbanas, a limpeza urbana e o manejo dos resíduos sólidos. Pensamos que ele é um problema apenas estrutural, mas está condicionado a várias outras áreas. Temos a dimensão social, legal, ecológica, cultural e todas elas devem, obrigatoriamente, ser levadas em consideração quando pensarmos em ações para se repensar o saneamento de determinada região.

Nelson Meirim destaca a atuação do Sistema Alerta Rio. Foto: Bia Côrtes 

O geólogo da GeoRio discutiu a interação entre homem e o meio físico. Meirim esclareceu que os escorregamentos fazem parte do processo intemperismo, erosão, alteração da rocha e deterioração do relevo. Segundo ele, estas atividades vão moldar o relevo e fazem parte da evolução natural.

-A natureza é dinâmica e opera ao longo do tempo geológico. Mas, quando há intervenção humana, estes processos deixam de ser natural. Mudanças climáticas, por exemplo, são naturais. O clima sempre mudou ao longo da história do planeta. O quanto estamos interferindo nesse processo é que precisamos estudar. O planeta vai continuar a história dele, mas os efeitos quem vai sentir é a humanidade. Um problema ambiental passa a ser uma crise humanitária.

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