Sororidade entre grades
19/06/2019 13:06
Clara Martins

Debate sobre o filme Torre das Donzelas revela um pouco dos detalhes da produção do documentário  

Professor Sérgio Mota, Muriel Alves, Ana Miranda e Sussana discutem o documentário Torre das Donzelas. Foto: Maloni Cuerci

A luta de mulheres presas durante a ditadura militar no Brasil, tema do documentário Torre das Donzelas, foi um dos assuntos discutidos em palestra realizada no dia 10. O filme mostra relatos inéditos da ex-presidente Dilma Rousseff e de ex-companheiras de cela dela no Presídio Tiradentes, em São Paulo, como forma de compor uma memória social. A conversa, mediada pelo professor Sérgio Mota, do Departamento de Comunicação Social, teve a presença da diretora Susanna Lira, da assistente de direção Muriel Alves e de Ana Miranda, uma das “donzelas” do filme.

Presa no final de 1970, Ana Cristina contou como funcionava a estrutura do Presídio Tiradentes e como foi construída uma relação de sororidade entre as companheiras de celas. Ela lembrou que não havia privacidade, pois a torre era fechada com portões de ferros, e guardas vigiavam a todo instante. Para Ana, entretanto, a torre foi um espaço importante no sentido de acolhimento entre as mulheres, e as circunstâncias geraram um sentimento de fraternidade, algo que ela considera escasso nos dias atuais.

– Devemos construir pontes e derrubar muralhas, e eu acho que, em certa medida, foi isso que nós fizemos no presídio. Nós tínhamos inúmeras divergências, eram mais de nove organizações políticas diferentes interagindo entre si, mas havia um conjunto de valores comuns essenciais para nos apoiarmos.

A diretora do documentário relatou a trajetória do filme por festivais em diversos países no último ano e comentou que o longa-metragem provocou reações inesperadas em determinadas plateias e mostrou com isso uma pluralidade da temática cinematográfica. Como exemplo, a cineasta lembrou que, após a exibição da obra em Beirute, capital do Líbano, algumas muçulmanas a procuraram para compartilhar a experiência provocada por Torre das Donzelas. Segundo Susanna, o documentário proporcionou para essas mulheres a percepção de que elas vivem em prisões psicológicas no casamento, no trabalho e que têm um papel inferior que lhes é imposto pela sociedade muçulmana.

– O filme retrata o período ditatorial no Brasil, eu nunca pensei que alguém em Beirute faria essa analogia. Em um filme sobre prisão política, elas perceberam que estão aprisionadas no corpo feminino em um país muçulmano.

A produção do filme e a escolha do conteúdo para as cenas foram um pouco reveladas pela assistente de direção Muriel Alves. Ela contou que foi um trabalho muito desafiador organizar e selecionar o material minucioso de pesquisa e construir uma narrativa relevante sobre a ditadura nos anos 1960. Foram sete anos para que o filme pudesse ser produzido e, durante esse período, houve um trabalho mútuo da equipe de produção com as personagens da obra cinematográfica, que sugeriram as pautas com base na importância dos momentos para cada uma.

– Nada poderia ser muito gratuito, tudo tinha que ter uma razão político-social dentro do filme. Eram muitos tópicos, desde festas de Natal a tortura, tínhamos que organizar os assuntos relevantes para as mulheres, partindo do micro para o macro e, a partir da seleção, costurar o enredo da obra.

Muriel Alves comenta a produção do filme. Foto: Maloni Cuerci

Susanna ainda abordou a importância do documentário para o atual momento sócio-político do país. De acordo com a diretora, a linguagem cinematográfica foi construída para reproduzir de maneira mais fiel ao telespectador a realidade da luta feminina na época da ditadura. A cineasta explicou que, em conjunto com a expressão de resistência, combinou o material humano das ex-prisioneiras para explorar o conceito de sororidade entre as mulheres no filme.

– Hoje, o filme está pronto, vamos tentar estrear este ano. A obra inspira a sororidade entre as mulheres, ensina a importância de a sociedade resistir junto e incentiva as pessoas a não desistirem em momentos difíceis.

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