Desafios da educação no Brasil
27/06/2019 12:46
Letícia Messias

Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos comenta o futuro do ensino no país

Mozart Ramos é Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Foto: Maloni Cuerci

A capacitação de professores é uma preocupação constante no sistema de ensino, e um dos maiores desafios da educação no Brasil. Para discutir sobre o assunto, a Coordenação de Licenciaturas da PUC-Rio convidou o Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna, Mozart Neves Ramos, na terça-feira, 25. Ele participou do II Fórum de Debates, que reuniu representantes de mais de 70 instituições, e ministrou a palestra A Formação de Professores no Brasil no contexto da Resolução nº 02/2015.

Mozart Ramos é conselheiro de educação básica do Conselho Nacional de Educação (CNE). Para ele, a oferta de ensino deve ser responsabilidade do Estado e da família, mas também precisa ser promovida e incentivada em colaboração com a sociedade. Um dos maiores problemas destacados por ele, dentro da pasta educacional, é a descontinuidade das políticas públicas.

– Para mim, a descontinuidade política é um dos maiores problemas que temos que enfrentar na educação. Nesse sentido, o papel da sociedade é fundamental para blindar essas interrupções. Essa educação tem que promover o desenvolvimento pleno da pessoa, ou seja, prepara-la para o exercício da cidadania e a qualificação para o mercado de trabalho. Tem que ser uma educação que, de alguma maneira, corresponda a essas questões.

Ramos ainda destacou a importância das universidades na busca pela mudança efetiva. Segundo ele, existe um esforço, por parte de alguns setores, para mudar o cenário atual, de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Ele afirmou, no entanto, que, se o ensino superior não dialogar com as novas habilidades, os alunos que ingressarem na universidade terão dificuldades.

– De cada 100 pessoas, só sete aprenderam o que deveriam em matemática. E como faz com isso? Se não atuarmos na qualidade da educação básica, faremos disso um dilema de maior nível e, talvez, a universidade precise fazer uma transição para não prejudicar os alunos. Não caiu a ficha ainda que existe uma base curricular sendo mudada no ensino básico, e que isso atingirá o ensino superior. Temos que ser o fio condutor disso e não esperar que a educação básica produza alguma mudança em nós, porque o ensino básico ainda tem inúmeros problemas, e não podemos perder esses alunos.

Mozart destaca a importância das universidades na mudança da educação. Foto: Maloni Cuerci

Secretário de Educação do Estado do Rio de Janeiro, Pedro Fernandes também compôs a mesa e apresentou o diagnóstico da rede estadual de ensino. Segundo ele, em uma escala de 0 a 10, no aprendizado de matemática, a nota média do Estado foi 2.8. O problema, para ele, é um indicativo de que o déficit educacional está diretamente relacionado ao ensino básico, ou seja, é uma questão que acompanha o aluno desde os anos iniciais. A falta de integração da secretaria do Estado com os municípios também foi um dos fatores destacados por ele.

– A própria secretaria do Estado de Educação não tem capacidade de fazer uma interlocução melhor com os municípios para que possamos ter um entrosamento e reverter essas distorções que existem. Os alunos terminam o ensino médio sem saber fazer as operações básicas de matemática e português. Quando chegam à universidade, muitas das vezes não conseguem reverter esse déficit e saem dela também sem ter essas noções básicas para ministrar as aulas.

Fernandes ainda apontou uma pesquisa feita por ele para elucidar essas proporções. Ao analisar os concursos públicos de 2014, os últimos realizados, foi identificado que, para ser professor de matemática, por exemplo, o candidato teria que alcançar no mínimo uma nota 5. Após os resultados, foi constatado que 89% dos participantes não conseguiram atingir o requisito necessário. Já em química, o número sobe para 93%.

– Isso mostra que essa formação continuada e qualificação dos professores tem que ser trabalhada na pós-graduação, mas também com uma atenção desde os anos iniciais, para que, quando esse profissional tiver a oportunidade de lecionar, ele já tenha a base sólida para evitar esse tipo de situação.

O presente e o futuro

O impacto das mudanças no mercado de trabalho foi outro ponto abordado pelo Diretor de Articulação e Inovação do Instituto Ayrton Senna. Ele observou que os efeitos ocasionados pela automação vão atingir 16 milhões de brasileiros. Nesse sentido, Ramos reiterou a importância de buscar entender o contexto em que as autoridades trabalham para, então, realizar políticas eficazes. 

– Se eu estou formando pessoas olhando para trás, estamos fazendo o exercício equivocado. Precisamos pensar para qual mundo vamos formar os brasileiros, já sabendo que não é no presente. O presente é o passado do futuro. O domínio das habilidades clássicas, tradicionais, no passado, era um diferencial. Hoje, é ponto de partida. O que vai diferenciar as pessoas, no meu entendimento, são as qualidades humanas. Potencializadas nas pessoas, essas qualidades serão o grande diferencial no futuro.

Mozart fala sobre o papel do professor. Foto: Maloni Cuerci

Mozart Ramos finalizou com destaque para o papel do professor na busca por uma aprendizagem plena. Para ele, é preciso que os profissionais mantenham uma visão centrada no aluno, além de buscar um conjunto coerente de trabalhos críticos e incentivo à pesquisa.

– Eu acho que todo professor deve ter alegria por transformar a vida de uma pessoa. Uma aula muda a vida de uma pessoa. Os professores têm que ter um cuidado para que ensinem conteúdos que promovam a pesquisa. Acho que é motivar os alunos a gostarem do que estão fazendo, provocar mudanças para que, quando eles saírem da sala de aula, saiam motivados a pesquisar mais. A pesquisa é a vontade de descobrir coisas novas, de empurrar a fronteira do conhecimento. Se não provocarmos isso, estamos apenas formando mais um e, pelo menos para mim, não é esse o legado que quero deixar.

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