A escrita do cotidiano de Conceição Evaristo
26/06/2019 17:07
Nathalie Hanna

A ligação entre a literatura e o negro é o assunto abordado na palestra da escritora na Universidade

A escritora e ex aluna da PUC-Rio, Conceição Evaristo. Foto: Maloni Cuerci

A discussão entre personagens, a representação negra e a estereotipação literária foram alguns dos temas debatidos no bate-papo com a escritora Conceição Evaristo no dia 5 de junho. A autora será homenageada como Personalidade Literária do Ano na próxima edição do Prêmio Jabuti, em novembro.

A escritora estreou na literatura por meio do grupo Quilombhoje, com obras publicadas na série Cadernos Negros, na década de 1990. Com um reconhecimento internacional, os textos da mineira são usados para estudos acadêmicos e são encarregados pela movimentação de uma escrita reflexiva sobre a comunidade afro-brasileira e memórias e histórias da vivência da autora.

– A questão que eu tenho investido ultimamente é para não lerem apenas a minha biografia, o intuito é que leiam o meu texto. Biografia é apenas um dado a mais. Quando eu coloco a história da minha vida no livro, às vezes ela acaba tendo um sabor de vingança. Isso acontece porque ofusca o meu trabalho, e eu não quero que isso acabe acobertando a obra.

Para Conceição, a literatura não é imune ao ambiente social. Segundo ela, as obras literárias não demonstram exatamente como é a realidade e apresentam as questões sociais de uma forma imprecisa. As próprias formas de recepção de literatura, comentou, têm muito a ver com o ambiente cultural. A autora de Ponciá Vicêncio, explicou que ainda há uma estereotipação negra na escrita por meio dos personagens que são retratados como infringentes e discriminados como uma minoria. 

O professor do Departamento de Comunicação Social, Sergio Mota e a Autora de Ponciá Vicêncio, Conceição Evaristo. Foto: Maloni Cuerci

– Foi preciso ganhar o prêmio Jabuti para que os meus textos fossem reconhecidos e legitimados em alguns espaços. Há poucos negros na área da educação, e isso é uma questão que a própria sociedade brasileira construiu. A Academia Brasileira de Letras (ABL) é um exemplo disso. Eu fui indicada para uma cadeira na Academia, mas quem ganhou foi um branco. Acredito que existe uma falta de representatividade do negro na instituição. O interessante não é ser o primeiro, é abrir caminhos para outros que passam pelo mesmo processo.  

Criadora do termo ‘‘escrevivência’’, Conceição comentou que esse conceito representa a escrita do seu cotidiano e experiência de vida dela e das pessoas negras perante à sociedade brasileira. A mineira apresentou o novo livro Canção para ninar menino grande, que demonstra, dessa vez, o homem como o centro, mas analisado do ponto de vista das mulheres. O livro relata a história de um pelos relacionamentos que ele coleciona com diversas mulheres negras. 

A ligação entre machismo e racismo é outro assunto abordado na obra e, de acordo com Conceição, o homem negro também é machista. Ela faz uma comparação do homem branco e o negro e afirma que o único momento em que os dois se encontram no mesmo nível é na hora de exercer o machismo. A escritora assinalou que o negro nunca perdeu a questão da humanidade, mas é testado diariamente através da sociedade.

– Claro que quando eu penso na minha história pessoal, e imagino que eu teria tudo para não cumprir o que estou cumprindo agora, fico muito feliz. Penso que eu estou ‘’lacrando’’, como diria os jovens. Mas infelizmente isso é uma exceção. Essa condição de excepcionalidade serve para pensar nas regras impostas pela sociedade que deveriam mudar. A gente vê poucos negros em lugares que uma grande maioria branca ocupa e não deveria ser assim. Eu não quero ser vista como exceção.

Conceição nasceu em uma favela da Zona Sul de Belo Horizonte. Ela teve que conciliar os estudos com o trabalho de empregada doméstica até conseguir concluir o curso normal. Aos 25 anos, se mudou para o Rio de Janeiro, onde passou para o concurso público em magistério. Formada em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), é doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio.

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