O tesouro de Portinari
23/09/2019 15:16
Juan Pablo Rey

Com a missão de preservar a memória e obra do pintor, Projeto Portinari completa 40 anos de existência

O Lavrador de Café (1943), por Candido Portinari. Foto: Acervo Projeto Portinari

Fundado no dia 2 de abril de 1979 pelo professor emérito do Departamento de Matemática João Candido Portinari, o Projeto Portinari completa neste ano quatro décadas de existência. Com o compromisso de preservar e difundir a obra e memória do pintor Candido Portinari, a iniciativa registra em sua história atividades e ações que impactaram a vida de muitas pessoas, como a exposição itinerante O Brasil de Portinari.

O Projeto reúne em seu acervo 25 mil documentos sobre a obra e vida do pintor, mais de 6 mil cartas destinadas a ele, de anônimos e famosos, 1.200 fotografias, 12 mil recortes de jornais e 130 horas de depoimentos em áudio de amigos e familiares. A iniciativa ainda fez o levantamento de 5.300 pinturas, desenhos e gravuras atribuídos ao artista, registrados no Catálogo Raisonné Candido Portinari – Obra Completa, livro do Projeto que ganhou duas vezes o prêmio Jabuti.

- Reitero a missão do Projeto Portinari: levar a obra e o legado ético e humanista deste grande pintor aos quatro cantos do Brasil e do mundo, com anseio de dar acesso e perpetuar sua poderosa mensagem de paz, justiça social, fraternidade, respeito à vida e à dignidade do ser humano. Isso escorre de cada obra dele. Portinari é sinônimo de direitos humanos. Ele dizia: ‘O homem merece uma existência mais digna. Minha arma, é o pincel’. Mas era uma arma de paz, não para matar pessoas – afirma João Candido Portinari.

Professor João Candido Portinari, filho único de Candido. Foto: Amanda Dutra

Conhecido por retratar o povo brasileiro na essência, a obra de Portinari tem como característica um forte aspecto social. Nascido em 1903, Candinho, como era conhecido pelos mais próximos, não teve uma infância luxuosa. Filho de imigrantes italianos de origem humilde, recebeu apenas instrução primária. Ainda na infância, aos nove anos, descobriu na arte uma forma de contar e mostrar a vida.

Criado em 1997, o Núcleo de Arte, Educação e Inclusão Social do Projeto tem a missão de apresentar a obra de Portinari para quem foi a principal fonte de inspiração do artista: o povo. Coordenado pela professora Suely Avellar, o núcleo já percorreu, segundo ela, mais de 500 cidades pelo país, com réplicas de obras do artista e um programa de ensino e aprendizagem que associa diretamente o trabalho de Portinari aos princípios de uma cultura de paz.

- A reação das pessoas ao terem contato com a obra é muito interessante. O Portinari é excepcionalmente figurativo, não é abstrato, e eles se veem muito na obra. Fizemos uma exposição dentro do navio-hospital da Marinha no Rio Purus, na Amazônia, e a brincadeira das crianças das populações ribeirinhas é fazer e soltar pipa. Eles se identificam muito com as telas, como a do menino soltando pipa, a do futebol na terra vermelha. Há uma empatia, uma coisa muito grande.

Suely Avellar, Coordenadora do Núcleo de Arte, Educação e Inclusão Social do Projeto Portinari. Foto: Amanda Dutra

Essas exposições itinerantes, chamadas O Brasil de Portinari, percorrem lugares de difícil acesso para atingir populações consideradas isoladas da diversidade cultural produzida no país. Suely, por exemplo, já viajou para lugares como a Amazônia, e atendeu as populações ribeirinhas locais, o Pantanal e todas as capitais brasileiras, com ênfase nas instituições de ensino da rede pública. Para ela, um dos momentos mais marcantes desde que chegou ao Projeto, foi uma visita ao presídio Hélio Gomes, no município de Magé.

- Não posso dizer que entrei sem medo no presídio. Queria fazer alguma coisa que eles pudessem utilizar para vender, se profissionalizar através da arte. Resolvemos fazer uma oficina de papel. Depois de alguns meses, recebi um telefonema da mulher de um tenente que estava preso contando que ele havia saído e montado uma cooperativa de papel. Eles também me chamaram para voltar ao presídio porque os detentos haviam montado uma oficina de papel. Quando entrei, eles estavam fazendo coisas lindas. Ficamos emocionadas.

Retirantes (1944), por Candido Portinari. Foto: Acervo Projeto Portinari

Outra atividade pioneira da iniciativa para manter a memória de Portinari é o Projeto Pincelada. Em acordo com pesquisadores da PUC-Rio, foi criado um processo para verificar a autenticidade das obras do pintor. Cada artista tem uma forma única de dar a pincelada, e, graças à tecnologia, o núcleo consegue identificar se a obra é ou não do pintor. Com isso, o Projeto Portinari se tornou a instância que autentifica ou não um quadro de Candido, e confere, inclusive, um documento de autenticidade no caso de veracidade da pintura.

Para comemorar as quatro décadas do Projeto, o Solar Grandjean de Montigny está realizando uma exposição com parte do acervo da iniciativa. Intitulada Uma carta aos brasileiros, a mostra ficará na Universidade até o dia 19 de dezembro e pode ser visitada das 10h às 17h.

O Mestiço (1934), por Candido Portinari. Foto: Acervo Projeto Portinari

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