O limite entre a saúde e a patologia
23/09/2019 17:16
Gabriela Azevedo

Profissionais discutem os transtornos emocionais relacionados à vida acadêmica em palestra do Setembro Amarelo

Todo o semestre o NOAP/RAE organiza uma mesa para discutir questões relevantes para a vida estudantil. Foto: Amanda Dutra

A diferença entre depressão e ansiedade, a influência de internet e os tabus que giram ao entorno do tratamento de doenças psicológicas foram pontos abordados na II Mesa Redonda NOAP/RAE, no dia 9 de setembro, no Auditório Padre José de Anchieta. O psiquiatra Tiago Figueiredo e psicóloga Fernanda Coutinho debateram o tema Depressão e Ansiedade no Contexto Universitário a partir da perspectiva de cada especialidade.

Mestrando em Psiquiatria Clínica pelo IPUB/UFRJ, Tiago Figueiredo comentou a facilidade que se têm, com a internet, de acessar informações acerca da saúde mental. Para ele, as pessoas confundem tristeza como sinônimo de depressão e acham que preocupação é ansiedade crônica.  Pesquisador na área de infância e adolescência, Figueiredo explicou o impacto da Universidade para o desenvolvimento dos jovens e a caracterizou como uma fase de transição.

- Na faculdade, o indivíduo ingressa em algo que acredita ser modificador da vida. Essa decisão traz implicações: aumento de estresse, preocupação, alegria e auto realização. Tudo começa a ficar um pouco mais à flor da pele. Ocorre uma modificação, e o estudante deixa de ter aquela vigilância da escola, passa a andar com os próprios pés e a tomar decisões. A escolha da profissão se dá em um período muito precoce da vida, mexe com as emoções, pensamentos e há mudança no padrão familiar e nas relações, esses elementos refletem no nosso comportamento.

Tiago Figueiredo. Foto: Amanda Dutra

Segundo Figueiredo, desde 2018, os universitários são considerados um grupo de risco. Ele afirmou que, segundo uma pesquisa divulgada nos Estados Unidos, há uma taxa, quase epidêmica, de desfechos graves nesse público, que englobam a tentativa, planejamento e o ato de se suicidar. O médico também citou um estudo realizado em 2017 na França com pessoas de alguns países europeus, o qual apontou que 40% dos estudantes já haviam pensado em morrer ou tinham um planejamento suicida. 

- Entendemos a depressão como um problema de saúde pública, por afetar milhões de cidadãos e por ser algo que pode ser prevenido. O suicídio não está diretamente relacionado com a depressão, mas, comparada com outras patologias, ela é a que mais pode ser cuidada. A adolescência acaba sendo um fator de risco. A puberdade funciona como um fator mediador e influenciador, principalmente na mulher, por conta das variações de hormônio causadas no período de menstruação. Nessa oscilação hormonal também existem algumas adaptações de cunho emocional. 

Thiago Figueiredo fez um apelo para que as pessoas parem de ter preconceito em cuidar da saúde mental. Ele destacou que procurar ajuda psiquiátrica não significa que o sujeito está louco, mas que o profissional será responsável por construir uma visão minuciosa para saber como aquele humor está alterado.

Fernanda Coutinho expôs a perspectiva da terapia cognitiva, abordagem que trabalha, para ansiedade e depressão. A psicóloga relatou que a ansiedade faz parte condição humana e da evolução da espécie. De acordo com ela, a emoção é um mecanismo de autopreservação para determinadas situações. 

- A ansiedade nos prepara para fugir, no caso de perigo real, para lutar, quando precisamos enfrentar algo, ou para congelar. Somos qualificados, em termos evolutivos, para nos defender e nos salvar, mas o ansioso patológico faz isso em ambientes que não são uma ameaça real. O estudante passa a se amedrontar diante de uma prova, vê o professor como o maior inimigo e toda a situação universitária como uma luta. Ele perde a produtividade. 

Segundo Fernanda, a ansiedade se torna patológica quando o indivíduo se sente vulnerável, menos capaz de lidar com as circunstâncias do momento. Há sintomas afetivos, fisiológicos e cognitivos. Ela afirmou que quem tem o distúrbio emocional se subestima e é influenciado por outros sentimentos, pensamentos e temperamento. 

-O sujeito fica impulsivo, nervoso, tem medo de perder o controle, falta de ar e aumento da frequência cardíaca. Toda essa conjuntura gera prejuízo no desempenho acadêmico. Mas, é importante observar como o aluno funciona, quanto tempo estuda concentrado e dar intervalos, sem criar metas irrealistas para melhorar as notas. A terapia cognitiva comportamental é a mais efetiva para o tratamento de transtornos de ansiedade, já o uso de medicamentos se torna necessário quando a patologia gera prejuízos mais sérios. 

Fernanda Coutinho. Foto: Amanda Dutra

Fernanda explicou que a depressão é um transtorno do humor, em que as sensações predominantes são desânimo, tristeza e desvalor, uma visão negativa sobre si mesmo. A psicóloga lembrou que é muito comum pacientes ansiosos, que não buscaram tratamento, ficarem deprimidos. Ela esclareceu que a doença também pode ser gerada por uma perda, real ou imaginária. 

-Acionamos o sistema de perda para o nosso organismo e ele se recolhe, como uma reconstrução. O problema é a intensidade e o tempo que que isso dura. O paciente entra no "modo avião", não assimila mais nada e se fecha para o mundo. Com isso, ele não consegue ressignificar a situação. Para se conectar novamente é preciso pensar nos valores pessoais, o que o moveu em fazer a graduação, e procurar uma boa rede de apoio.

Fernanda recomendou os serviços Núcleo de Orientação e Atendimento Psicopedagógico (NOAP), que oferece aos alunos atendimento psicopedagógico, trabalho de aperfeiçoamento da leitura e da escrita e orientação profissional, e também, o Serviço de Psicologia Aplicada (SPA), que oferece atendimento terapêutico individual ou em grupo ao corpo discente da Universidade. Mais informações: http://www.puc-rio.br/sobrepuc/admin/vrac/rae/.

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