Integração entre religião e ecologia
24/09/2019 16:36
Mariana Albuquerque

Seminário discute o papel da ecoteologia nos dias atuais

Professores abordam a relação entre a ecologia e a religião. Foto: Catarina Kreischer

Consciência ecológica, religião e educação foram os temas centrais discutidos no último dia do VII Congresso ANPTECRE sobre religião e crise socioambiental, na sexta-feira, 20. Especialistas no assunto discutiram sobre ecoteologia e propuseram soluções para a crise ecológica.

Professor Afonso discute a importância da interação entre pessoas e grupos de diferentes crenças. Foto: Catarina Kreischer

O professor Afonso Tadeu Murad, da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia de Minas Gerais (FAJE), explicou que ser consciente ecologicamente significa desenvolver nova percepção sobre o planeta e o lugar do ser humano nele, e adotar um estilo de vida ecologicamente sustentável. Para Murad, a relação de coorperação entre pessoas e grupos de diferentes crenças em causas ambientais é fundamental, pois, além de viver a fé, cada um compensará o processo de consciência ecológica lenta na sociedade e o de consumo rápido.

– Vamos crescendo na consciência ecológica à medida que, individualmente, começamos a perguntar como podemos reduzir o consumo, qual alimentação é mais saudável e tem menor impacto no planeta, que tipo de transporte podemos utilizar, e essas perguntas serão respondidas por gestos pessoais. Temos um impacto no ambiente, mas podemos desenvolver atitudes e percepções que vão ajudar.

A professora Claudete Beise Ubich, da Faculdade Unida de Vitória (FUV), comentou sobre o povo pomerano - camponeses de origem alemã - e a relação deles com a ecoteologia. Segundo a teóloga, os pomeranos têm uma espiritualidade própria que envolve o conceito de terra, pois trabalham nela com as mãos, e esta experiência envolve rituais, orações e silêncio. Claudete ressaltou a importância de trabalhar questões que ainda estejam no imaginário em conjunto com as comunidades tradicionais, como o povo pomerano, para se ter consciência de etnicidade.

Para a professora, cuidar do meio ambiente, das águas, da terra e do planeta é cuidar da criação de Deus. Ela afirmou ainda que a utilização de agrotóxicos pode ser relacionada ao desrespeito de um dos dez mandamentos da Igreja Católica, o “não matarás”, pois ele prejudica a saúde das pessoas e causa mortes.

Professora Alzirinha comenta o papel da educação na recuperação de valores. Foto: Catarina Kreischer

Para a professora Alzirinha Rocha de Souza, do grupo de pesquisa Cristianismo e Interpretações, na Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), a religião é mediadora da ação do ser humano sobre si e sobre o meio cultural, pois desenvolve uma consciência de identidade no grupo pertencente. Segundo ela, o mundo é uma criação de Deus e está sob o gerenciamento humano, que deve cuidar do planeta como obra divina. Alzirinha disse que o principal papel da educação deve ser o de recuperação dos valores e de preservar a vida em todas as formas. De acordo com Alzirinha, é no processo educativo e nos resultados de cuidado com o meio ambiente que os valores cristãos se concretizam no mundo.

– Enquanto a consciência ecológica aumentou, neste século, a religiosa diminuiu. Devemos recuperar a compreensão de que ser cidadãos do mundo implica em uma consciência antropológica, ecológica, cívica, de solidariedade e de responsabilidade. Estar no mundo agora tem um aspecto de autocrítica e compreensão humana, e é também um valor ético, moral e político, que define a preservação das próximas gerações. Cuidar do planeta passou a ser cuidar da humanidade de forma solidária e com nova percepção do outro. Isso se dá por um processo de conscientização coletiva, pelo qual os indivíduos passam a compreender sua realidade como um todo, e cada um a cuidar mais da natureza.

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