Educação em diferentes perspectivas
06/11/2019 13:17
Esther Obriem

Professores analisam o ensino na Alemanha, França, Argentina e no Chile

Professores da Europa e da América do Sul participam de palestra na PUC-Rio. Foto: Gabriela Callado

Os sistemas educacionais e as desigualdades sociais foram temas de um dos painéis da Missão CAPES Print e foram abordados na palestra Desafios para a Educação, no dia 30, que teve a participação de quatro professores de diferentes instituições de ensino. A professora Cynthia Paes de Carvalho, do Departamento de Educação, e a pesquisadora Alicie Bonamino, do Laboratório de Avaliação da Educação (LAEd), fizeram a abertura do encontro.

O diretor escolar brasileiro da Escola Alemã Corcovado, professor Paulo de Carvalho Junior explicou as características do sistema escolar da Alemanha. Segundo o profissional, a educação infantil não é obrigatória no país e, depois de quatro anos, as crianças escolhem a escola secundária que vão frequentar. Ele destacou que a estrutura é dividida em Hauptschulen, Realschulen, Gymnasien e Gesamtschulen.  

– O Hauptschule é concluída no 9º ano com o diploma Hauptschulabschluss. O Realschule é finalizado no 10º ano com diploma Realschulabschluss e, após esse término, os alunos podem entrar em uma escola técnica ou prosseguir com a escolaridade. O Gesamtschulen termina no 12º ou 13º ano com a conclusão Abitur, que possibilita o aluno ingressar em uma universidade.

Diretor escolar brasileiro da Escola Alemã Corcovado, professor Paulo de Carvalho Junior. Foto: Gabriela Callado

Carvalho comentou o motivo da Hauptschulen não ter uma continuação como os outros modelos e das escolas oferecerem oportunidades diferentes. O professor esclareceu que o contexto alemão é federativo, e os estados são autônomos. De acordo com o palestrante, a educação ocorre em âmbito estadual, o que proporciona uma desigualdade. O diretor brasileiro salientou que as diferenças regionais reforçam a situação de abandono escolar.

O diretor brasileiro da Escola Corcovado concluiu, a partir de dados estatísticos exibidos no slide, que ocorreu uma diminuição no interesse pela Hauptschulen e pela Realschulen. Segundo Carvalho, houve um crescimento significativo na Gesamtschulen, que possibilita a transição entre os diferentes segmentos. Ele apresentou o estudo sobre a Juventude Alemã da Fundação Shell Judgendstudie, em que a última edição foi publicada há 15 dias.

Desigualdades na Argentina

Professor da Universidade de Buenos Aires Andrés Santos Sharpe. Foto: Gabriela Callado

O professor da Universidade de Buenos Aires Andrés Santos Sharpe comentou sobre o processo de fragmentação do sistema de ensino argentino. O palestrante afirmou que a apresentação é uma seleção das desigualdades do país e, segundo ele, a educação nos Estados Unidos era ampliada para os setores populares enquanto para a Argentina era restrita.

Sharpe comentou que a educação pública cresceu, mas não tanto em relação aos setores mais ricos. O professor exibiu dados estatísticos que demonstram a evolução da inversão educativa como porcentagem do PIB e do gasto por aluno estatal.  Para ele, isso não significa que ocorreram processos igualitários, mas que a desigualdade cresceu.

– Basicamente, cresceu a desigualdade. Outros pontos que têm muito impacto no sistema argentino e foram os diferenciais para o processo de desigualdade são o tempo fora da instituição acadêmica, a relação entre educação e trabalho, e a fragmentação do sistema.

De acordo com o profissional, o tempo fora da escola está relacionado com o abandono, a falta de espaços externos para estudar e a ausência tanto do apoio familiar quanto da sociedade para os estudos. Sharpe ainda afirmou que a passagem histórica de um esquema escolar relativamente homogêneo a um desagregado está associado à fragmentação do sistema.

Insuficiência de recursos na França

Professor da Universidade d’Artois Sylvain Broccolichi. Foto: Gabriela Callado

O professor da Universidade d’Artois Sylvain Broccolichi destacou, dentre outros pontos, a evolução negativa da aprendizagem e à insuficiência de recursos educacionais na escola francesa. Segundo o sociólogo, o que sobressai é que os professores estão insatisfeitos com a situação e com o modelo continuado. Ele comentou que, nos últimos 15 anos, o descontentamento com as condições de trabalho cresceu. 

– Essa insatisfação não ocorreu com os alunos ou com os pais, mas com as condições de trabalho. Eles se sentem com uma maior quantidade de exigências, como a necessidade de fazer com que todos os alunos tenham um bom rendimento escolar. Também há uma necessidade de preencher mais formulários, prestar contas e, muitas vezes, são acrescentadas mais disciplinas que eles precisam ministrar.

Broccolichi completou, ainda, que outra mudança foi a exigência de lidar com crianças especiais. De acordo com ele, não existia uma política que ofereça uma melhor infraestrutura e profissionais especializados para ajudar os professores na formação desse público específico. O sociólogo também observou que, no início, o corpo docente apoiava os princípios de inclusão, mas a escassez de recursos modificou essa percepção para negativa.

Sylvain Broccolichi fala sobre a insuficiência de recursos nas escolas francesas. Foto: Gabriela Callado

Segundo Broccolichi, a avaliação estava relacionada às perguntas feitas aos professores e aos alunos, com intuito de entender a dificuldade do corpo docente e discente. Um dos resultados do exame é que os educadores afirmam ter menos tempo de formação específica, como, por exemplo, na área da matemática e da ciência. O francês apresentou a constatação de que muitos professores não tiveram nenhuma formação continuada nessas disciplinas.

– Muitos se consideravam menos capacitados de resolver problemas em sala de aula relacionados à matéria. A falta de educação continuada é um fator a mais, considerando, também, que a educação inicial dos professores na França é mais em relação aos que outros países europeus apresentam. Na Finlândia, por exemplo, isso ocorre em cinco anos, enquanto, na França, é no máximo em dois anos.

Escolas públicas e privadas no Chile

Professor Sergio Martinic, da Universidade de Aysén do Chile. Foto: Gabriela Callado

O professor Sergio Martinic, da Universidade de Aysén do Chile, abordou as desigualdades e os ciclos de reformas educacionais do país. De acordo com o palestrante, na década de 1980, ocorreram mudanças centradas na organização institucional e no financiamento do sistema. Ele afirmou que as transformações foram autoritárias e que as principais políticas eram a descentralização das escolas, subsídios de demanda e pagamento de acordo com o número de alunos.

Martinic explicou que existem os sistemas de escolas públicas, privadas e particulares subvencionados. Segundo o chileno, a estrutura é desigual porque as escolas com mais alunos têm mais dinheiro e vice-versa. As instituições que apresentam um ensino de melhor qualidade são as particulares, enquanto as públicas concentram os alunos de baixa renda. Ele completou que o sistema deveria ajudar a integrar o país socialmente.

– No lugar de integrar o país que está divido socialmente, esse sistema oferece para cada classe social um tipo de ensino diferenciado. O governo democrático iniciou diretamente uma política para enfrentar a desigualdade e o sistema de mercado. As escolas públicas, por exemplo, precisam de mais recursos para melhorar a aprendizagem dos alunos.

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