Negligência das mineradoras por trás da tragédia de Brumadinho
27/11/2019 11:50
Letícia Messias

Autores do livro Brumadinho: A engenharia de um crime, os jornalistas Lucas Ragazzi e Murilo Rocha comentam as investigações do caso

 

A barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, rompeu no dia 25 de janeiro deste ano. Foto: Ricardo Stuckert

No dia 25 de janeiro deste ano, o rompimento da barragem I da Mina do Córrego do Feijão, em Brumadinho, Minas Gerais, ocasionou a morte de mais de 250 pessoas. Pouco mais de três anos após a tragédia em Mariana, o caso de Brumadinho representa, para os jornalistas Lucas Ragazzi e Murilo Rocha, a negligência e má gestão da Vale, uma das três maiores mineradoras do mundo. Autores de Brumadinho: A engenharia de um crime, os profissionais estiveram na Universidade no dia 12 de novembro, para debater sobre as investigações do acidente e a produção do livro. 

De acordo com Murilo Rocha, há indícios de que a Vale já tinha conhecimento da insegurança de ao menos dez barragens. Segundo ele, a barragem de Brumadinho era cinco vezes menor que a de Mariana. As dimensões eram de aproximadamente seis campos de futebol de largura, altura de um prédio de 29 andares e 4.500 piscinas olímpicas cheias de lama e minério de ferro. Com o rompimento, a inundação teve uma velocidade de mais de 100 quilômetros por hora, o que fez com que o centro administrativo da empresa fosse atingido em 34 segundos. 

 O que provocou 270 mortes foi o fato impensável de que abaixo da barragem havia um centro administrativo. Um refeitório, auditório, posto de saúde. E foi em horário de almoço. A pergunta é: por que isso foi mantido, mesmo sabendo que não era seguro, e mesmo depois de ocorrer a tragédia de Mariana? Mesmo se a sirene fosse acionada, o que não foi o caso, essas pessoas não conseguiriam escapar. Cerca de 85% das vítimas estavam ali. 

Para Lucas Ragazzi, o objetivo do livro era organizar os fatos e denunciar a mineração no estado de Minas Gerais. Com a contribuição do superintendente Rodrigo Teixeira, o jornalista teve acesso aos bastidores do caso. Apesar da proximidade com o trabalho da Polícia Federal, Ragazzi afirmou que investigações individuais foram necessárias para que a obra não se tornasse “policialesca”. Um dos desafios destacados por ele, além do pouco tempo para a apuração, era contar as histórias das famílias atingidas pelo caso sem explorar de forma sensacionalista o drama dessas pessoas. 

 Aprendemos, com os entrevistados, a outra tragédia decorrida do caso, que é velar pessoas sem os corpos. No Brasil, temos a cultura de velar nossos entes queridos. Uma das entrevistadas relatou que, no caso dela, o IML entrou em contato e realizou várias perguntas. Ela ficou na esperança de achar, mas, quando chegou lá, eles deram para ela uma caixa com apenas uma parte do corpo da irmã. E esse não foi um caso isolado. Não são apenas números, são mais de 200 pessoas, 200 trajetórias. Quando acabamos o livro, ainda havia 21 corpos não identificados. 

O jornalista Murilo Rocha fala sobre a negligência da Vale. Foto: Gabriela Callado

Rocha destacou que o título do livro foi escolhido para afirmar que a ação da Vale foi, de fato, criminosa. De acordo com ele, as investigações apontaram que a mineradora contratava empresas para realizarem as auditorias das barragens, mas também mantinha outros contratos com as mesmas, e as pressionava financeiramente para que os laudos apresentassem resultados positivos. O jornalista ainda ressaltou que compreende a possibilidade de um processo da empresa pela publicação do livro, mas enfatizou que existem provas o suficiente para indicar a culpabilidade da multinacional. 

Ragazzi relembrou que em 2014, quando doações privadas ainda eram permitidas, 102 deputados receberam auxílio de grandes mineradoras. Entre políticos que obtiveram ações estão, de acordo com ele, a ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva, o deputado Aécio Neves e a ex-presidente Dilma Rousseff. Para ele, o envolvimento com estas empresas está diretamente relacionado com a deficiência nas investigações do caso de Mariana, em que não houve uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para averiguar o ocorrido. 

 Enfrentamos em Minas Gerais um contorno do setor político com o setor minerário. Há uma dependência da mineração, e se escolheu um modelo econômico com relação estrategista. Estão com medo, mas, ao mesmo tempo, querem que as mineradoras voltem para as minas, porque eles precisam de recursos. As pessoas tinham e ainda têm muito orgulho de trabalhar na Vale. Conversamos com as vítimas e há uma relação contraditória, porque há uma dependência, a Vale sustentava toda uma região. A mineração faz parte da história do estado. As vítimas não culpam, ainda, a Vale. 

Lucas Ragazzi fala sobre a importância das mineradoras na história de Minas Gerais. Foto: Gabriela Callado

A lei nº 12.334, de setembro de 2010, estabeleceu uma política de segurança para barragens. Após o caso de Mariana, e posteriormente com Brumadinho, de acordo com Rocha, algumas alterações foram realizadas. Para ele, ainda que a legislação seja importante, a maior necessidade é a fiscalização do poder público. O autor afirmou que, na primeira tragédia, havia apenas cinco fiscais para todas as 400 barragens. A punição para este tipo de conduta, de acordo com ele, não deve se limitar à prisão, mas incluir a condenação financeira. 

Rocha deu destaque para a atual prática de branded content da Vale. Segundo ele, o cenário atual dos governos contribui para que essas mineradoras se tornem anunciantes na mídia. A questão, para ele, é a falta de aviso dos veículos ao publicarem um conteúdo publicitário travestido de matérias jornalísticas. O profissional também afirmou que este é um assunto que deve ser discutido entre os comunicadores, porque, ressaltou, há uma concorrência desleal entre as remunerações que são oferecidas por essas empresas. 

 É uma matéria dizendo como a mata, a vegetação ao lado do rio, tem respondido bem às reparações. Você lê e nem imagina que quem está financiando isso é a própria empresa que gerou aquilo. Eles estão aceitando porque precisam de dinheiro, mas tem que deixar claro que é um conteúdo publicitário, pago. 

Rocha finalizou ao ressaltar que, apesar de todas as investigações, o gatilho para que a barragem de Brumadinho tenha sido estourada ainda é desconhecido. O jornalista afirmou que era de conhecimento a fragilidade da construção, e que o rompimento ocorreu pela liquefação. Apesar da falta de conclusão do caso, a publicação de um livro-reportagem sobre o ocorrido é importante, segundo ele, para denunciar a administração das empresas e dar destaque ao drama psicológico que o estado de Minas Gerais vivencia atualmente. 

 O objetivo do livro é de ser uma denúncia para essa situação, a questão da mineração no estado de Minas Gerais, mostrar como o poder público era omisso e a regulação era feita pelas próprias mineradoras. Depois de Mariana, Brumadinho era uma questão impensável. Queremos que se pense e que isso não ocorra mais. Minas Gerais está em estado de alarme, um drama psicológico. O caso ainda não está concluído, mas o livro tem o mérito de mostrar como funcionava a administração. Acho que ainda há muita coisa para ser contada e, no entanto, algumas coisas talvez nunca sejam descobertas.

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