Ensinar e aprender
27/11/2019 18:40
Paula Veiga

Educador britânico Richard Kiely visita a Universidade e debate sobre método que valoriza a interação entre professor e aluno

Deryk Almeida segura trabalho com abordagem da PE. Foto: Amanda Dutra

Foi na Escola Municipal São Tomás de Aquino, no Leme, que Deryk Almeida ouviu pela primeira vez o nome Prática Exploratória (PE). Hoje, ele estuda Letras na UFRJ graças ao início da aplicação do método no seu colégio, em 2012, quando estava no 7º ano do Ensino Fundamental. Mesmo após o ingresso no Ensino Superior, o universitário ainda participa de projetos da PE, mas, agora, como graduando da UFRJ. Um estudioso da Prática Exploratória, o professor Richard Kiely, da University of Southampton, esteve na PUC-Rio para debater o método com professores do Departamento de Letras.

Kiely define PE como uma via de ensino e condução das classes em que o aspecto social é um fator fundamental. Segundo o professor, PE é um modo em que o aluno ganha o papel de participante ativo, não é apenas o sujeito que ouve e é instruído. Uma pesquisa realizada por Aline Deosti, da Secretaria de Estado de Educação do Paraná (SEED), informa que a PE surgiu no Brasil na década de 1990 por iniciativa do professor britânico Dick Allwright, que fará uma palestra na Universidade no dia 6 de dezembro.   

De acordo com o linguista, os alunos precisam ter uma transformação no entendimento dos papéis que exercem dentro da classe para se tornarem estudantes responsáveis. Na sala de aula tradicional, descrita pelo professor, o aluno não pensa no que deve e pode fazer, ele se limita a esperar comandos do mestre, esta é a diferença entre os dois métodos de ensino. Pela distinção do formato, o pesquisador diz que a mudança para um papel ativo pode ser confusa para o estudante. 

- O professor ainda é um instrutor. Mas ensinar é muito mais complexo do que isso. Além de instruir, o professor organiza, negocia, motiva e cria atividades para o estudante. O professor deve encontrar um caminho para assegurar a participação do aluno.

No uso da PE, aponta o educador britânico, o social deve ser enfatizado, mas ressalta que a cultura de diferentes nações muda o contexto do social. O método pode ser aplicado no jardim de infância com crianças de três a cinco anos e também no Ensino Superior. O que muda, de acordo com Kiely, é a adaptação do método conforme o público. 

Professor Richard Kiely visita o campus da PUC-Rio. Foto: Amanda Dutra

Sociologia da língua

A PE mudou a forma de Deryk Almeida pensar a sala de aula - a figura do professor em cima de um tablado, com a matéria no quadro, foi afastada. Para ele, o espaço de estudo se baseia na interação direta entre duas pessoas que ensinam e aprendem ao mesmo tempo. Ao se formar, mesmo com a ambição de continuar na academia, o estudante de Literatura e Português pretende ensinar em escolas públicas, pois foi lá que estudou a vida inteira. Almeida define a literatura, em especial a brasileira, como “sociologia da língua”. O objetivo do universitário é aproximar a literatura dos estudantes.

- A literatura contemporânea é atuante do nosso tempo. Ela precisa ser valorizada, ser encarada como uma literatura legítima. Quero trazer essa literatura para próximo dos meus alunos, porque eles precisam saber que a literatura é deles também. Tem essa coisa da literatura brasileira ser formação de identidade. Formação de identidade para quem? Eles precisam saber que a identidade deles está ali. 

No colégio de Deryk Almeida, a atividade continua com o intuito de um trabalho sustentável, sem fim. A professora Walewska Braga, da Escola Municipal São Tomás de Aquino, conta que na sala de aula é possível escutar do aluno e do professor questões e, então, começar a tentar entendê-las. A educadora diz que uma das abordagens é pedir aos alunos para desenharem o cérebro, com isso há uma reflexão sobre a vida, algo que não se copia da internet.

- Uma menina grávida desenhou o cérebro dela e do bebê. Ela tinha muita raiva, porque ela gostava de ir a festas e fazer muitas coisas que agora não podia. A gente começou a conversar sobre isso e ela disse que tinha ódio e amor pelo bebê. Quando perguntei o que estava acontecendo na cabeça do bebê, ela escreveu amor, comida, dormir, enquanto ela também tinha sono mas pensava em dinheiro, na continuação do estudo, no futuro. Eu fiquei muito emocionada, porque você vê que é vida. 

Estudante grávida realiza, durante aula de inglês, trabalho sobre ela e o bebê. Foto: Amanda Dutra

O Brasil e o Reino Unido apresentam realidades diferentes, mas as salas de aula têm similaridades, nas palavras do professor. Para ele, os meios e desafios enfrentados dentro das classes dos dois locais são os mesmos, como a ideia do professor que tem o papel de explicar e controlar o comportamento do estudante. Kiely acredita na transformação das salas de aula a partir da mudança de pensamento do professor. 

A tecnologia é outro influenciador no ambiente de estudo, que varia de acordo com o uso adotado pelo professor. Ele acredita que a tecnologia é uma “incrível ferramenta” com o poder de ajudar e limitar o estudante. Um profissional especializado em linguística, Kiely pensa em um futuro no qual haverá um melhor entendimento da dimensão social das salas de aula e como os elementos sociais funcionam neste universo. Na geração tecnológica, ser autodidata, como quando se usa aplicativos de língua em smartphones, apresenta a ausência do social, conclui o educador.

- A linguagem é social, e, para a aprendermos, são necessários um contexto social e um espaço social, proporcionados pelas salas de aula. A aprendizagem não ocorre sem compartilharmos neste recinto. Por isso, quando uma pessoa começa a aprender sozinha uma língua estrangeira, ela desiste depois de algumas semanas ou mesmo após alguns meses.

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