Pluralidade cultural
29/11/2019 16:35
Gabriela Azevedo e Tatiana Abreu

Organizado por alunos da Universidade, Festival de Primavera promove diálogo entre ritmos e gerações

Lenine faz show no Festival de Primavera. Foto: Laura Gonzaga.

Rap, funk, techno house e MPB comandaram o som da edição de 2019 do Festival de Primavera que teve como tema Surrealidade - Uma Transgressão do Real. O movimento de resistência cultural trouxe ao campus da Universidade uma intensa programação com diversas manifestações artísticas e shows de 4 a 8 de novembro. Nesses quatro dias, os principais artistas convidados foram o rapper Akira Presidente, o grupo Heavy Baile, a banda carioca Biltre e o cantor Lenine. 

Lenine foi escolhido como patrono desta edição e relembrou a juventude na Universidade Católica de Pernambuco, onde fez grandes amigos e concretizou o desejo de fazer música profissionalmente. O cantor disse ser especial se apresentar em um festival na PUC-Rio, já que participou de festivais também quando jovem. Para ele, a universidade é fundamental pelas grandes transformações do ser humano. 

- Eu sou o cara fruto justamente dessa experiência na minha época, estar aqui ainda sexagenário e constatar essas transformações sociais é muito bacana para mim. 

De acordo com Eduarda Catanhede, estudante que fez parte da coordenação do festival, a escolha do título de patrono para Lenine foi feita a partir da temática referente ao movimento de vanguarda do século 20. Eduarda comentou que o cantor se encaixou com a mensagem a ser passada, pois ele evidencia sentimentos e mazelas nas músicas. A estudante destacou o desafio de incluir um músico de uma outra geração na programação para dialogar entre o passado e o presente.

- O Lenine é uma pessoa muito emblemática na nossa cultura. É importante criar essa ponte e relembrar a nossa cultura, nossas raízes, nossos artistas. É sempre um desafio, mas as pessoas acabam, com certeza, acatando.

Patrono desta edição faz participação especial no show da banda Biltre. Foto: Gabriela Callado.

No mesmo dia em que Lenine subiu ao palco do festival, o cantor também fez uma participação especial no show da banda Carioca Biltre com quem compôs a música Aceitar. Sobre esse encontro de gerações e as mudanças na música nacional, Lenine observou que o formato, a maneira de fazer, e a própria transformação do campo analógico para o digital significou um salto gigantesco. Mas, para o músico, o que não mudou foi o desejo de fazer música.

- O que não muda é a música que continua impregnando as pessoas e, no meu caso, não mudou o desejo de continuar fazendo com que a música seja um farol de referência e informação. Depois de todos esses anos, isso me mantém são.

Ex alunos retornam para show na Universidade. Foto: Gabriela Callado.

Os integrantes da banda, Arthur Ferreira, Claudio Serrano, Diogo Furieri, Pablo Tupinambá e Vicente Coelho contaram que sempre admiraram Lenine e consideram a parceria a realização de um sonho. O grupo nunca quis ficar fechado a um estilo musical: sem baterista e com apenas bases eletrônicas, a banda já flertou com diversos ritmos como soul, afrobeat e até mesmo com o funk. Para os integrantes, o importante é fazer uma fusão de ritmos. Os ex-alunos da Universidade destacaram como é especial retornar para se apresentar no Festival.

- É a terceira vez que a gente se apresenta nesse festival, como a gente se formou há algum tempo (risos), bate aquela saudade. Sempre fomos muito fãs do trabalho do Lenine, a influência dele na nossa música e na MPB em geral é enorme.

A diversidade de ritmos é uma marca já tradicional das edições do Festival de Primavera. Eduarda destaca que manifestações artísticas diversas são de grande importância para transformar a atividade em uma semana multicultural. Segundo ela, a definição dos ritmos para cada dia foi estabelecida no ano passado – quarta-feira é o dia do rap, quinta o dia do funk e sexta da MPB. Além de trazer um viés eclético e multicultural, há o objetivo de marcar movimentos musicais e artísticos. 

Vocalista do Heavy Baile. Foto: Amanda Dutra.

Marcelo Valentim, conhecido como Mc Tchelinho, é o mestre de cerimônia do grupo Heavy Baile que foi a principal atração do festival no dia dedicado ao funk. Tchelinho, que também foi convidado para tocar com os rapazes da Banda Biltre, disse que os estilos são diferentes, mas dialogam do mesmo lugar e da mesma energia musical. E sobre a participação dele no festival, o cantor destacou a importância de se apresentar fora do ambiente com o qual costuma circular.

- É de suma importância mostrar a nossa realidade e a nossa cultura artística para outros lugares onde não existe, de certa forma, uma ligação tão direta com a gente. A gente se sente muito feliz.

O rap, assim como o funk, é um ritmo marginalizado pela sociedade, mas têm conquistado o público jovem com letras sobre liberdade, amor e cotidiano. A prova disso, foi o show do rapper Akira Presidente que encheu a Vila dos Diretórios Marielle Franco mesmo sob chuva. Em seu trabalho, Akira exalta como principal conquista a superação de barreiras sociais e a construção de uma família. 


- O rap está presente na nossa cultura há muito tempo, mas ele foi muito pouco compreendido, e agora é uma fase que a linguagem está mais próxima das gerações mais novas. A gente está com uma nova mentalidade, quebrando certos preconceitos e todo mundo está criando uma identidade própria.

O rapper é co-fundador do selo Pirâmide Perdida. Foto: Juan Luengo.

Também conhecido como Fa7her, o rapper se apresentou com a mulher, Ainá, que também faz rap. Segundo o cantor, ela precisou priorizar outras questões na vida e não pôde dedicar o tempo para a carreira. Mas o artista destacou a importância de estar com ela e a filha sempre presente nos trabalhos.

- Ter elas sempre presentes faz parte da minha realidade. Acho muito bom ter uma voz feminina no rap presente. A gente fala muito de representatividade e é minha maneira de mostrar na prática também.

A produção do Festival de Primavera promoveu a arrecadação de doações para Organizações Não Governamentais na quinta e na sexta-feira, dias em que os shows são mais esperados. De acordo com os organizadores, foram arrecadadas duas toneladas de alimentos não perecíveis para a ONG Casa Nem e cerca de 2.000 livros para a ONG Meninos de Luz.

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