Do Dona Marta para a Alemanha
02/12/2019 16:27
Clara Martins

Estudantes da PUC-Rio apresentam no exterior pesquisa sobre instalação de placas de energia solar em comunidades brasileiras

O cofundador da Insolar, Henrique Drumond, o estudante da PUC-Rio Caio Silva, a professora do Departamento de Administração Ruth Espínola, e a estudante da PUC-Rio Isabela Borges na Zeppelin University. Foto: Fornecida pela Insolar

Alunos da PUC-Rio participaram do Transcultural Winter School 2019 da Zeppelin University, Alemanha, na semana do dia 11 ao dia 20 de novembro. Na programação, estudantes brasileiros, em parceria com alemães, organizaram simpósios e workshops sobre as pesquisas realizadas em conjunto sobre a Insolar. Acompanhados da professora Ruth Espínola, do Departamento de Administração, e do cofundador da Insolar, Henrique Drumond, os estudantes Caio Silva, de Engenharia de Produção, e Isabela Borges, de Psicologia, apresentaram estudos de caso sobre a startup no Brasil.

O simpósio Transcultural Winter School 2019 busca desafiar e oferecer oportunidades aos universitários, assim como possibilitar que eles apresentem as pesquisas e discutam o projeto para diversos profissionais. Neste ano, alunos da PUC-Rio estiveram, durante duas semanas, na Alemanha, para expor um trabalho produzido com estudantes alemães da Zeppelin University sobre a Insolar.

Fundada por um ex-aluno da PUC-Rio, Henrique Drumond, e pelo economista Michel Baitelli, a Insolar é um negócio social que visa democratizar o acesso à energia solar no Brasil, com a instalação de painéis solares em comunidades de baixa renda. O projeto aprovou 15 comunidades no Rio de Janeiro para colocar os painéis – 200 já foram instalados. Moradora da comunidade Santa Marta, em Botafogo, Kelly Guedes comenta que as instalações beneficiaram diversas gerações da comunidade porque elas ampliaram a rede elétrica no morro.

– As instalações dos painéis melhoraram a qualidade de vida de todos os moradores da comunidade, principalmente de idosos, gestantes, mulheres com crianças de colo e deficientes físicos. Agora, também temos painéis solares em creches comunitárias e na associação de moradores, o que é de extrema importância para a economia de energia elétrica.

Painéis solares da Insolar na Comunidade Santa Marta, Botafogo. Foto: Clara Martins

Segundo Drumond, a ideia de criar a startup surgiu a partir de um desejo de produzir algo que integrasse o conhecimento profissional de empreendedorismo e ao mesmo tempo contribuísse socialmente para o mundo. O administrador diz que durante muito tempo trabalhou no setor privado e, ao longo dos anos, percebeu que ainda faltava algo como um propósito para sua vida. Após morar três meses em Moçambique, na África, onde foi voluntário em vários projetos para a redução de fome, Drumond percebeu o interesse em montar um negócio que combinasse o corporativismo e o social. No final de 2013, quando Drumond e Baitelli participaram da 1ª Maratona de Negócios Sociais do SEBRAE, a ideia da startup foi lançada.

O empresário destaca os desafios do negócio social nas instalações de painéis solares nas comunidades, sobretudo a manutenção do projeto. De acordo com ele, alguns locais não têm uma boa infraestrutura, têm uma estrutura elétrica precária, e uma mão de obra qualificada escassa para as instalações. O cofundador da Insolar afirma que sustentar o negócio a longo prazo é o maior obstáculo, porque exige uma estratégia completa.

– Não adianta instalar um painel sem que haja pessoas qualificadas para manutenção, é necessário também engajar as lideranças locais para que o projeto seja entendido como da comunidade e não como algo externo a ela. Simultaneamente, o negócio social deve articular com o setor financeiro para analisar recursos para as instalações.

A professora Ruth Espínola diz que o interesse em estudar a Insolar surgiu a partir de pesquisas no radar do ecossistema de impacto social no Rio de Janeiro. Docente na rede de academia nacional sobre empreendedorismo social, a professora comenta que a empresa se destaca como um dos poucos casos relevantes no campo de negócio social na cidade, pois contempla os ramos da sustentabilidade, de geração de renda e de inovações tecnológicas.

De acordo com Caio Silva, ele e Isabela Borges foram escolhidos para apresentar o caso sobre o empreendimento social da Insolar na Alemanha, porque, além de serem estudantes da PUC-Rio, também são moradores da comunidade Santa Marta e, desde pequenos, participam de programas sociais. Para ele, os estudantes da Zeppelin University tiveram empatia para entender o projeto a partir do olhar dos brasileiros.

– Todos ficaram muito interessados no projeto e em entender como funciona, qual o impacto social, como recebe dinheiro, como os moradores lidam com as inovações e quais são as oportunidades que surgem.

Os estudantes Caio Silva e Isabela Borges na Zeppelin University. Foto: Fornecida pela Insolar

O estudante de Engenharia afirma que a experiência de apresentar o estudo de caso no exterior foi enriquecedora. Durante duas semanas, participou de workshops e trabalhou em equipe com pessoas de diversas nacionalidades, com pensamentos convergentes e divergentes. De acordo com ele, o diálogo multicultural com o grupo de estudantes alemães aprofundou o resultado de análise do projeto.

– É exatamente esse o objetivo do projeto, a transculturalidade, ou seja, trazer diferentes visões de mundo para criarmos soluções em conjunto. Não necessariamente pensamentos iguais, pelo contrário, devemos compilar as diferenças e encontrar pontos em comum para seguirmos em frente e gerarmos soluções.

Encontro entre grupos de estudantes brasileiros, alemães e profissionais da área. Foto: Fornecida pela Insolar

Isabela, por sua vez, considera que a experiência na Zeppelin University agregou profissionalmente e pessoalmente na vida. De acordo com ela, a convivência com mentalidades e culturas diferentes trouxe o desejo de construir ideias em conjunto a partir de pontos em comum. A organização de workshops, a visita a multinacionais alemães e a ida a palestras também foram muito construtivas para a estudante.

– Tivemos atividades práticas com profissionais muito envolvidos no assunto e pensamos em como tudo isso poderia ser implementado nos projetos que estamos participando. Os momentos foram muito incríveis, hoje, profissionalmente, eu trago essa bagagem e muito aprendizado para o Brasil.

As pesquisas sobre a Insolar percorrem mais de dois anos, revela Ruth. Segundo ela, há um ano e meio, foi realizado um videocase sobre o desenvolvimento do negócio local e, posteriormente, produzido um estudo de caso sobre a startup. Em colaboraçao com os alunos Caio e Isabela, Ruth foi convidada a escreverum capítulo do livro da Zeppelin, com previsão de término para fevereiro de 2020, sobre as percepções alemães e brasileiras a respeito da Insolar.

– Ainda não acabamos o estudo, estamos aprofundando os olhares sobre a Insolar a partir dos alemães, está sendo um processo muito frutífero. Pretendemos terminar a escrita, em inglês, até fevereiro, para ser publicada na Alemanha e, futuramente, lançada no Brasil.

A professora do Departamento de Administração Ruth Espínola comenta a produção de livro sobre a Insolar. Foto: Fornecida pela Insolar

Mais Recentes
Liberdade de expressão no mundo
Diretora regional do Repórteres Sem Fronteiras na América Latina analisa a democracia jornalística no continente
Conexões entre comunicação e a cidade
Muniz Sodré e Julita Lemgrumber analisam os problemas que o Rio de Janeiro enfrenta  
Elo entre mestres e alunos na escola pública
Profissionais de ensino discutem o incentivo à formação de professores no país