Arte dinâmica e nada banal
11/03/2020 16:42
Gabriela Azevedo

Ex-aluno de design da PUC-Rio, Maxwell Alexandre expõe trabalhos no Museu de Arte do Rio e conta um pouco do caminho até às artes plásticas

Maxwell Alexandre. Foto: Maloni Cuerci.

Atento, curioso e ambicioso. É assim que o artista carioca Maxwell Alexandre, 28 anos, se descreve. Formado em Design pela PUC-Rio, o pintor, nascido na Rocinha, realizou uma exposição individual no Museu de Arte Contemporânea de Lyon, na França, e foi capa da Revista Forbes, como um dos jovens, abaixo de 30 anos, mais influentes na categoria artes plásticas. Criador da capa do CD Gigantes, do rapper BK, o artista usou papel pardo como base para as composições que fazem parte da série Pardo é Papel e estão no Museu de Arte do Rio.

Maxwell também fez parte, no dia 25 de fevereiro, da exposição coletiva Have You Seen a Horizon Lately? disponível no Museu de Arte Contemporânea Africana, em Marrocos. Pardo é Papel está em exposição até o dia 24 de maio e o artista explica que a série, de 2017, aborda o futuro especulativo do negro. Esta mostra e outra série, intitulada Reprovados, ressalta Maxwell, são produções que coincidem com o debate atual sobre as minorias. Para o pintor, as obras funcionam como um lugar de fala e da representatividade. 

 - Na história da arte, os negros sempre são retratados no lugar de subserviência ou de escravidão. A atividade artística exige tempo de ócio e precisa estar com as necessidades básicas sanadas para poder ficar três meses em uma pintura, por exemplo. Por isso, quem registrava os negros eram os brancos. Nesse momento, contamos nossa própria história, e isso é uma coisa relevante. As fotos da exposição do Pardo é Papel, que fiz na França, são crianças francesas, europeias, muito pequenas, olhando para quadros de quase cinco metros, nos quais o negro é o centro, o poder, o herói e vitorioso. O impacto do que é o negro para essas crianças já é outro.

Exposição da série Pardo é Papel, no Museu de Arte do Rio. Foto: Gabriela Azevedo.

Maxwell, que assina como MW, desenha desde pequeno e por influência de anime, videogames, revista em quadrinhos (HQ). Com desejo de trabalhar com o cartunista Mauricio de Souza, o artista desenvolveu o primeiro trabalho: a Turma do Pedrinho, uma paródia dos HQs da Turma da Mônica. Por causa do jogo Sonic Adventure 2 Dreamcast, Maxwell começou a se envolver com o patins street, modalidade de patinação análoga ao skate board. 

- Minha mãe dizia que minha habilidade para desenhar era um dom que Deus tinha me dado. Sempre tive medo que minha vida fosse pacata e comum, por isso, busquei que minha existência fosse uma aventura, algo mais dinâmica e não tão banal. Quando eu brincava com os meus amigos, gostava de dizer que eu era o Shadow, um porco-espinho preto que andava em um par de patins futurista. Foi por causa dele que me envolvi com o esporte.

Andar de patins foi uma das atividades que o pintor mais gostou de fazer, por causa da adrenalina que proporciona. Em quatro anos de disputa na modalidade, Maxwell estava invicto nas competições do Rio e tinha os melhores patrocínios. A indústria dos patins levou o desenhista a estudar sobre a história do esporte, a criar marcas próprias - competições, camisas e troféus – e foi neste momento que o desenho retornou.

- A indústria dos patins é muito falida. Você vai estar no topo, mas se olhar o melhor patinador do mundo não ganha um salário. A frase: Estude para ser alguém na vida, não fazia sentido para mim. Então, quando terminei a escola, já estava cansado da rotina e falava que nunca mais ia estudar. Observava as pessoas que estudavam para prestar vestibular e não me via naquilo. Fiquei pouco tempo parado, só andando de patins, mas me envolvi em um curso de fotografia aqui na favela. Depois, entrei para o Exército e cumpri um ano de serviço obrigatório, que também era um sonho meu.

Após essas experiências, Maxwell Alexandre procurou uma profissionalização. Primeiro surgiu a ideia de fazer Publicidade, mas depois de conhecer o curso de Design, o artista optou pela segunda opção, já que abrangia áreas com as quais ele trabalhava, como serigrafia, vídeos e fotografia. O carioca iniciou os estudos na PUC-Rio para trabalhar na indústria dos patins e, durante a graduação, desenvolveu diversos projetos na área. 

- Eu andava de patins há um tempo e nada acontecia, por isso, fui procurar uma profissionalização. Mas eu queria estudar na melhor faculdade, por isso escolhi a PUC. Tenho uma pesquisa muito densa da história dos patins e ela fala sobre minoria. Me envolvi com esse estudo até que no 3º período esbarrei com o Eduardo Berliner (artista plástico e professor do Departamento de Artes&Design). Ele foi meu primeiro contato com arte contemporânea, ali minha vida mudou completamente.

Gávea Tourist Hotel. Foto: Acervo Pessoal.

Eduardo Berliner ainda é um referencial para Maxwell, não só em relação à pintura, mas também ao pensamento. O pintor explica que a graduação que cursou na PUC-Rio é baseada na antropologia, que envolve atuação de campo e observação participante. No projeto final do curso, Maxwell Alexandre abordou modalidade de patins street e como ela poderia se tornar conhecida. Para contar toda a narrativa do esporte, ele ocupou o hotel Gávea Tourist, que fica na Estrada das Canoas e está abandonado.

- Lá era um lugar que tinha um distanciamento da cidade, tinha mais silêncio, mas foi quando comecei a ter algumas frustrações no campo dos patins e estava começando a ficar mais contaminado com as questões do campo da arte, naquele momento de mais reflexão e silêncio, comecei a prestar atenção nas linhas que apareciam no chão quando eu andava de patins, já que o local estava muito empoeirado. Via os movimentos como desenhos. Fiz uma ação em que eu jogava a tinta no chão, prendia alguns canvas na tela, passava por cima da tinta e fazia a tinta migrar do chão para a tela. Eu considero essas as minhas primeiras pinturas, são pinturas abstratas. 

Ocupação do artista no Gávea Tourist. Foto: Acervo Pessoal.

Após o hotel fechar, Maxwell Alexandre começou a fazer essas pinturas de patins na rua, e o trabalho mudou. Foi quando percebeu que, na verdade, essas criações não eram pinturas, mas, sim, anotações.

- Quando eu já tinha me formado, comecei a espalhar canvas pela laje da minha mãe para fazer anotações. Minha mãe começou a se incomodar com isso, porque eu já estava formado, ela perguntava sobre emprego e um trabalho. Nesse momento, eu consegui o meu primeiro ateliê, no Complexo Esportivo da Rocinha. Comecei a ter uma rotina de ateliê, mas minha mente estava contaminada com as questões da laje.

Tijolo, henê e látex são materiais usados pelo artista, incorporados, anteriormente, por causa do baixo custo. Com o passar do tempo, porém, MW trabalhou questões conceituais com esses materiais que fazem parte da vivência que teve na periferia. Maxwell Alexandre afirma que suas obras têm um teor político e ativista, mas acredita que esta seja uma consequência de sua biografia. 

-  O lugar que eu ocupo dentro do mundo elitista da arte é fundamental. Mas temos que ficar muito atentos, pois é um mundo muito branco e colonizador. As minhas questões de vida, quando entram para o mundo da arte, são, majoritariamente, fetichizada pelo mercado, tudo vira produto. É um jogo muito complexo, é preciso frieza. Meu trabalho sempre tem que estar na frente até da minha vida. Eu acho que esse é o meu propósito.

Obra da séire Pardo é Papel. Foto: Gabriela Azevedo.

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