Mães universitárias em quarentena
10/05/2020 19:23
Núbia Trajano

Alunas e mães, estudantes da PUC-Rio contam como é conciliar a rotina de estudos com o cuidado com os filhos

Aulas on-line, textos para ler, trabalhos, monografia e tomar conta de crianças. No caso de algumas alunas da PUC-Rio, a rotina no isolamento social não se resume apenas a cumprir as atividades acadêmicas. Enfrentar a jornada de multitarefas com filhos é um desafio, e é necessário ter organização, disciplina e equilíbrio interno. Além de incumbências como alimentar, dar banho, lembram as entrevistadas, é importante também criar formas de distrair os pequenos, que estão presos em casa há mais de um mês. 

Mãe do menino Leonardo, 3 anos, a mestranda em Geografia Carine Lacerda, 36 anos, diz que a sensação de estar superlotada é uma realidade constante. Ela conta que o marido é muito participativo, mas o casal precisou mudar o esquema do dia a dia porque neste momento eles não contam com a ajuda da faxineira, que está sem trabalhar porque cumpre a quarentena. 

- Tínhamos uma faxineira uma vez por semana.  As tarefas da casa estão bem divididas, e o meu marido faz muita coisa. Mas, mesmo assim, eu estou sobrecarregada. Acho que vale falar sobre isso, pois fico pensando nas mães solteiras, as mães solo, e nos maridos que não fazem nada, porque são machistas. 

O isolamento social mudou a forma como as mães se ajeitam com a educação e a recreação das crianças. Estudante do curso de cinema, Tainá Cavaliere, de 27 anos, comenta que prioriza as atividades do filho Luigi, de 3 anos, e que muitas vezes abre mão de deveres acadêmicos para poder atender o menino.  

- Além das demandas dele, em geral, eu preciso manter uma rotina de ensino e também as brincadeiras de estímulo que ele tinha na escola. O desenvolvimento dele, agora, é muito mais importante que a minha formação. Por mais que eu precise me formar, pois necessito trabalhar, ele está em uma fase crucial. Estar em casa, sem ter nenhum estímulo, pode afetá-lo de diferentes formas.

Foto: Arquivo pessoal

As aulas ministradas por vídeo conferência começaram a fazer parte da rotina dos alunos da Universidade, mas, segundo a estudante de publicidade Bárbara Christine Campos, de 26 anos, é mais difícil ordenar o cotidiano quando tudo ocorre em um só lugar. Para ela, que é mãe de Théo, 13 meses, a adaptação neste novo esquema nem sempre flui e até prejudica o rendimento no aprendizado. 

- Eu estudo muito menos do que eu faço as outras coisas, às vezes eu perco as aulas. Eu preciso do ambiente da faculdade, do trabalho, para mim está sendo muito ruim essa adaptação. Espero que acabe logo isso tudo, pois escrever a monografia e ter mais quatro matérias para estudar é complicado. O meu estudo está sendo prejudicado.

Situações extremas como as vividas em uma pandemia podem, segundo médicos e psicólogos, levar à ansiedade, ao estresse e ao esgotamento mental. Nesse contexto, não dar conta de todas as incumbências é  angustiante, como assinala a estudante de arquitetura Liliane Barboza, de 28 anos, mãe de Luiz Miguel, 18 meses.  Diante de tantas solicitações, Liliane comenta que, em determinadas ocasiões, sente desânimo porque fica insatisfeita com o seu desempenho tanto no curso como na criação do filho .

 - Tem dias que eu acordo desmotivada e acabo me cansando com mais facilidade, e na hora dos estudos fico procrastinando. Eu sinto sempre que estou fazendo o mínimo e vivo frustrada, ainda mais por não poder levar meu filho na rua para brincar e socializar. 

A dobradinha mãe-estudante em tempos de pandemia se transformou em um desafio diário, garante a aluna de Relações Internacionais Paloma Dottori, 30 anos, mãe de Mikhael Dottori, 11 meses. Dona da confecção ByZahira, de biquínis artesanais, manufaturados com materiais reutilizáveis e sustentáveis, Paloma buscou a ajuda dos pais após 30 dias de isolamento em casa. Ela diz que isto foi absolutamente necessário para dar conta das demandas da Universidade, do próprio negócio e dos cuidados com o filho. A estudante confessa que não imaginava que, ao ficar confinada em casa, seria tão difícil entreter um bebê.

- Como eu levava o meu filho para todos os lugares, para o trabalho, reuniões e inclusive para a universidade, essas diversas impressões o deixavam cansado no final do dia. Hoje, quase todos os dias são iguais, e, mesmo com a grande ajuda do meu marido, precisei de um reforço a mais. Sem isso, eu não daria conta de fazer mentoria, escrever TCC, dar atenção ao filho e ainda cuidar da minha empresa.

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