E quem não tem casa?
26/06/2020 10:46
Letícia Messias

O dilema das pessoas que não têm acesso a condições básicas de higiene para enfrentar a Covid-19

Dados do Ipea contabilizam mais de 14 mil pessoas em situação de rua no Rio de Janeiro. Foto: Murilo Salazar


De acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), mais de 14 mil pessoas lutam diariamente pela sobrevivência nas ruas do Rio de Janeiro. E em meio à pandemia do novo coronavírus, este cenário evidencia a fronteira que as recomendações do Ministério da Saúde não conseguem atravessar. Para quem vive nas calçadas, o acesso a condições básicas de higiene é apenas um dos obstáculos a serem superados. O número de vagas disponíveis nos abrigos da cidade chega a 2,3 mil, mas é insuficiente para atender à crescente demanda.

Em abril, a prefeitura do Rio chegou a abrigar 150 pessoas no Hotel Popular da Central do Brasil para que elas pudessem realizar um isolamento social. O local, porém, foi denunciado pelos habitantes por oferecer condições insalubres. Quem está à frente da causa é o escritor e ex-morador de rua Leo Motta, 39 anos, criador do projeto A rua é casa de muitos, não deveria ser de ninguém. Ele afirma que a falta de políticas públicas é um dos maiores problemas no momento, mas que não é novidade, uma vez que, de acordo com ele, desde o início da gestão do prefeito Marcelo Crivella, em 2017, não foi feito nenhum estudo nesse sentido.

— A prefeitura é muito falha e incompetente. Eu já questionei as máscaras que foram distribuídas, pois eram de papelão. Quem está ali tem nome, sobrenome, uma história e merece ser respeitado. Graças à imprensa, consegui a doação de milhares de máscaras, que estão sendo distribuídas, e vamos lutar por vagas nos abrigos. Ainda que tenha melhorado desde que questionamos as condições apresentadas, há muito pelo que lutar.

O escritor e ex-morador de rua Leo Motta busca melhores condições para pessoas sem-teto durante a pandemia. Foto: Luciano Belford


Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a doença pode ser transmitida pelo contato com superfícies e objetos contaminados, tosse ou espirros. Diante desta realidade, a engenheira Ana Paula Rios, 33 anos, desenvolveu o protótipo de uma pia móvel para que sem-tetos possam higienizar as mãos. Paula é fundadora do projeto Da Rua Para Você, que oferece cursos de capacitação profissional para quem se encontra em situação de vulnerabilidade.

Após o decreto da quarentena, a suspensão das atividades voluntárias fez com que ela pensasse em uma outra forma de ajudar, o que resultou na Pia do Bem. Ao conhecer a ideia, o jogador Marcelo, do Real Madrid, resolveu patrocinar a montagem de mais de 100 unidades, hoje distribuídas em 20 bairros do Rio de Janeiro. A engenheira conta que, caso a água seja reposta, a Pia do Bem pode fornecer até 4,5 mil lavagens.

— A Pia do Bem surgiu durante a pandemia para garantir que a população de rua também tenha acesso à higienização das mãos, que é uma das principais orientações da OMS, com o isolamento social. Como é o único procedimento que conseguem fazer, já que estão nas ruas, eu pensei em desenvolver alguma coisa para que eles também pudessem se proteger da Covid-19.

A engenheira Ana Paula Rios ensina pessoas em situação de rua a higienizarem as mãos na Pia do Bem. Foto: Reprodução


Motta viveu seis meses nas ruas após perder o filho de cinco meses e, ao sair desta situação, se tornou o primeiro ex-morador de rua a lançar um livro em todas as edições da Bienal do Livro. Desde então, segundo ele, usa os meios de comunicação para dar visibilidade à causa. Mas, no momento, o autor está concentrado na divulgação para as doações que, ressalta, são fundamentais neste momento de pandemia.

— As doações diminuíram muito, pois estamos vivendo uma situação de instabilidade total, em que não sabemos quando ocorrerá o retorno do emprego e da renda. Ao mesmo tempo, nós só conseguimos promover ações por meio das doações, porque não há política pública. É triste, porque tratar da população de rua é tratar da cidade. Hoje, a rua é casa de muitos e não deveria ser de ninguém, então, peço sempre menos julgamentos e mais amor.

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