Desafios da ajuda humanitária
10/09/2020 11:38
Vinicius Portella

Agentes da ACNUR relatam o trabalho com refugiados em Roraima

Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

A experiência de agentes da ACNUR com refugiados venezuelanos em Boa Vista, capital de Roraima, foi assunto da mesa-redonda Conversas sobre Arquitetura Humanitária, no dia 27 de agosto. A ACNUR é um braço da ONU para proteção e assistência a refugiados e, no encontro, os agentes humanitários Fabiano Sartori e Juliana Coelho relataram como é o trabalho em abrigos e as dificuldades enfrentadas nos últimos meses por causa da pandemia do novo coronavírus.

Com o tema Arquitetura nos abrigos de refúgio, a primeira discussão de  Conversas sobre Arquitetura Humanitária teve como mediadora a professora Vera Hazan, do Laboratório de Arquitetura Humanitária, do Departamento de Arquitetura e Urbanismo, e a presença da coordenadora de programação da Rio2020 - Capital Mundial da Arquitetura, Olga Maria Campista, e da aluna Júlia de Queiroz, que faz parte do Laboratório de Arquitetura Humanitária da PUC-Rio.

Formado em arquitetura, Sartori destacou a atuação da ACNUR no combate à Covid-19 na Região Norte e definiu o desafio como “uma emergência dentro de uma emergência”. Além de lidar com as questões rotineiras do trabalho, apontou o arquiteto, os agentes humanitários têm que atender uma população em vulnerabilidade sanitária e com maior risco de contaminação. Segundo ele, a saúde se tornou prioridade, e o objetivo é evitar que o vírus chegue aos abrigos, já que são ambientes muito propícios a aglomerações. Para enfrentar a pandemia, foram construídos hospitais de campanha e elaborados protocolos de prevenção em conjunto com as Forças Armadas.

De acordo com Sartori, a desconfiança sobre a existência do vírus e a gravidade da doença também é um problema a ser combatido, assim como o sentimento alimentado por alguns moradores locais de que as pessoas provenientes da Venezuela teriam trazido a Covid-19 para o Brasil. Juliana apontou para o fato de que, na medida do possível, é necessário agilizar as ações por causa das condições de vida dos refugiados.

- O maior desafio, não só da Covid-19, mas da resposta de emergência, é o tempo. A gente estava organizando a chegada de 25 mil pessoas em uma semana. Como que a gente faz? Qual a rapidez de resposta? Essas pessoas precisam de um abrigo, você não pode deixar as pessoas ao relento. Qual que é a nossa capacidade de responder em uma velocidade incrível?- observou.

Os agentes humanitários ressaltaram que questões socioculturais complexas se somam à limitação temporal. A resistência da população em aceitar a chegada dos refugiados e das organizações humanitárias é uma delas. Sartori comentou que o estabelecimento da ACNUR em uma região afeta diretamente a comunidade, a dinâmica da sociedade local e, segundo ele, é comum haver reações tanto de rejeição quanto de solidariedade. Ele citou o processo de gentrificação do restaurante em que os agentes comiam e a mudança drástica na infraestrutura de Boa Vista com a instalação dos abrigos. O arquiteto ainda lembrou que os milhares de refugiados instalados em uma determinada área provocam outros desafios como a sobrecarga dos serviços públicos.

Agentes da ACNUR auxiliam refugiados venezuelanos na capital de Roraima. Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Ação coletiva

Lidar com a necessidade de adaptação dos refugiados foi outro ponto discutido durante a roda de conversa. Uma alimentação adequada, a criação de espaços de integração sociocultural e artística e de proteção e a inclusão de minorias, são, segundo os agentes, fundamentais para o trabalho humanitário.

A alta demanda não é atendida unicamente pela ACNUR, que trabalha em conjunto com outros setores da sociedade. A Operação Acolhida, nome do projeto desenvolvido em Roraima, é coordenada pela ACNUR e gerida coletivamente pelo governo local, Exército, Cruz Vermelha, Médico Sem Fronteiras e outras organizações nacionais e internacionais.

De acordo com os agentes, a própria ACNUR é multidisciplinar, com a participação da Unicef, ONU Mulheres e outros braços das Nações Unidas e, por isto, o desenvolvimento do projeto, a escolha dos locais de abrigos, a aplicação de recursos e todas as decisões são tomadas em grupo. A importância de canais de comunicação com os refugiados para o exercício do trabalho humanitário participativo e inclusivo também foi destacada. Um exemplo é a formação de comitês nos quais os refugiados atuam diretamente na gestão do abrigo.

- Uma resposta de emergência é por natureza coletiva - enfatizou Sartori.

O arquiteto acrescentou que o abrigo é uma ferramenta de proteção e resposta para a reconstrução de identidade e da vida de uma população vulnerável, algo que demanda esforço e tempo. Mas, observou, o objetivo é sair o mais rápido possível do local e deixar um legado e uma estrutura para um projeto pós-missão.

- O papel das Nações Unidas é dar suporte à resposta desenvolvida por governos. A gente não tá aqui para substituir o governo e, sim, para tentar potencializar a resposta e os serviços do governo.

Juliana lembrou do pouco tempo de contato com família e amigos no dia a dia, por causa da alta demanda que consome grande parte da rotina. Já Sartori comentou sobre as péssimas condições de trabalho, contratos curtos, sem benefícios e estabilidade, e fez questão de dizer que o trabalhador humanitário não é herói, mas um profissional. Apesar das dificuldades e problemas, os dois disseram que a experiência é enriquecedora, e o aprendizado e a troca com outras realidades e culturas compensa todo esforço e obstáculos enfrentados.

No fim, Fabiano deixou a mensagem de que a arquitetura humanitária deve ir além das situações emergenciais e ser incorporada ao cotidiano da sociedade.

- A gente tem que desmontar essa ideia de que a arquitetura humanitária é uma questão de emergência, que a gente vai desenvolver quando acontece um terremoto. Não, a gente precisa estar dentro das favelas, das comunidades carentes, das cidades que não têm saneamento básico.

Conversas sobre Arquitetura Humanitária vai ocorrer às quintas-feiras, de duas em duas semanas, até o dia 19 de novembro, com transmissão pelo canal do YouTube do LabAH, Laboratório de Arquitetura Humanitária. O encontro é uma parceria entre LABAH -EMAU/DAU PUC-Rio (Laboratório de Arquitetura Humanitária da PUC - Rio), Cátedra  Sérgio Vieira de Mello (CSVM / ACNUR / PUC-Rio) e Centro Carioca de Design (CCD), e faz parte da programação oficial da Rio2020 - Capital Mundial da Arquitetura e dos eventos preparatórios do 27º Congresso Mundial de Arquitetura Rio 2021(UIA2021).

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