Repensar valores
30/09/2020 21:29
Juan Pablo Rey*

Os três primeiros dias do seminário Cinco Anos da Laudato Si’ abordaram teologia, ecologia integral e biodiversidade

O seminário Cinco Anos da Laudato Si ocorreu entre os dias 14 e 18 de setembro.

A Laudato Si’, Encíclica do Papa Francisco, completou cinco anos no dia 18 de junho. Para homenagear a ocasião, a Rede de Ambiente e Sustentabilidade da Associação de Universidades Confiadas à Companhia de Jesus na América Latina (RAS/AUSJAL) promoveu, de 14 a 18 de setembro, o seminário Cinco Anos da Laudato Si’.

De segunda a sexta-feira, palestrantes de 30 países e 14 universidades jesuítas discutiram assuntos em torno do tema principal da Encíclica: o cuidado com o Planeta Terra, que o Papa Francisco define como a Casa Comum. A cada dia, um aspecto diferente foi abordado. Os temas foram Teologia, Ecologia Integral, Biodiversidade, Clima e Ensino.

Teologia

O primeiro tema da semana foi a dimensão teológica do documento. Com presença do Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., a mesa de abertura foi mediada pelo diretor do Núcleo Interdisciplinar do Meio Ambiente (NIMA) da PUC-Rio, professor Luiz Felipe Guanaes. Também participaram do encontro a secretária executiva da AUSJAL, Patrícia Guerrero, o diretor de Sustentabilidade Ambiental da Universidade Católica Andrés Bello (UBAB), Joaquin Benitez, a professora Florencia Cordero, da mesma instituição, e o Reitor da Universidade Jesuíta de Guadalajara, Luis Arriaga, S.J..

Arriaga destacou que a crise não é natural, mas produto da atividade humana e, portanto, reversível. De acordo com ele, para que isto aconteça é necessária uma árdua tarefa de famílias, igrejas, escolas e universidades. O Reitor da PUC-Rio frisou o crescente engajamento da população mundial em torno da conscientização ecológica nas últimas décadas, mas ponderou que, apesar disto, houve aumento na destruição dos biomas.

— Teremos que repensar muito os nossos valores. Nós nunca tivemos, na história da humanidade, um crescimento da consciência ecológica como temos hoje em todos os lugares do mundo. É um fator de evolução extraordinário se compararmos com o que ocorria há 50 anos. A humanidade toma mais consciência de sua responsabilidade à Casa Comum. Paradoxalmente, porém, observamos o aumento da destruição de nossos biomas. Mas somos seres resilientes e vamos conseguir dar a volta por cima e superar estas contradições.

Mediada pelo Coordenador da Cultura Religiosa (CRE) da PUC-Rio, padre Abimar Oliveira de Moraes, a segunda mesa do dia discutiu as implicações espirituais e pastorais da crise socioambiental à luz da Laudato Si’. A professora e Doutora em Teologia Francilaide Ronsi também participou do debate e destacou que na Encíclica o Papa afirma que não existem duas crises separadas, uma ambiental e outra social, mas sim uma única e complexa crise socioambiental. Ela observou que a atual situação de colapso exige transformações das causas estruturais que promovem a pobreza, a degradação do meio ambiente e as desigualdades. A professora apontou que a Amazônia é o exemplo de um lugar onde a dor e a violência estão presentes na destruição da natureza e da vida humana.

- A nossa atitude de mudança tem que ser de dentro para fora, há muito o que fazer. Os ensinamentos do documento da Laudato Si’ ecoam e vão ecoar até que assumamos a nossa realidade de urgência e o compromisso no qual estamos todos interligados.

Na terceira parte do primeiro dia do seminário, participaram o professor Afonso Murad, da Faculdade Jesuíta (FAJE), e o professor Luiz Carlos Susin, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Susin comentou que a conversão ecológica tem uma conotação que chegou a surpreender a Igreja. Ele explicou que esta concepção é um contraponto à ideia da religião de se conectar a Deus e ter um certo distanciamento do mundo. Para o acadêmico, o homem deve entender o Planeta também como criação de Deus.

- Temos que acabar com essa tendência de o ser humano achar que é o dono de tudo, dono da Terra. É preciso ensinar a todos que os animais não são simplesmente ecologia, eles são parte da nossa casa, são criaturas que também foram criadas por Deus. Eles participam do nosso mundo como habitantes do planeta. Nossa missão religiosa está ligada ao nosso cuidado com a Terra.

Ecologia Integral

A ecologia integral foi o tema do segundo dia do seminário. No primeiro grupo de discussões, a integração do ambiente universitário com a natureza e a conscientização do impacto do ser humano no meio ambiente foram os principais assuntos abordados. A professora da Escola Politécnica Homóloga de Meio Ambiente RAS/AUSJAL Ana Garcia moderou o encontro, que também teve participação do professor da Escola Politécnica da Unisinos Marcelo Caetano e do padre Sandoval Alves Rocha.

Padre Sandoval Alves salientou que discutir a Ecologia Integral com os alunos é refletir sobre o atual contexto ambiental brasileiro e perceber como os jovens estão dispostos a pensar no tema. Para ele, as consequências negativas do homem no meio ambiente são reforçadas com o antropocentrismo patológico, que o indivíduo acredita ser superior a determinado grupo ou pessoa.

A segunda mesa do dia foi composta pelo professor da Faculdade de Ciências Ambientais e Agrícolas da Guatemala César Castañeda Salguer e o padre Miguel Cortés Boffil, S. J., do mesmo país. O jesuíta acredita que todas as crises vividas na atualidade estão interligadas e, na visão dele, a ecologia integral requer desenvolvimento que deve envolver o processo global e a ética social. É preciso vincular a paz à ecologia, disse o padre. Segundo o religioso, a educação tem um papel fundamental em uma eventual reconstrução dos conceitos que se tem sobre as crises e a vida no planeta.

- Mais do que nunca, não podemos educar se não temos em conta o grande universo, que necessita de harmonia. Precisamos de um novo tipo de educação que aborde de uma forma distinta a preocupação pela Terra. Uma educação na qual haja cooperação de ensino das virtudes econômicas, ressaltando a violência do abuso e a exploração dos corpos e da natureza.

Biodiversidade

O terceiro dia do seminário abordou o aspecto da biodiversidade. Participaram da primeira apresentação o diretor da Estação Científica de Yasumi da Pontifícia Universidade Católica do Equador (PUCE), David Lasso, e a professora do Departamento de Geografia da mesma instituição Olga Jerez. Lasso explicou que a estação tem o intuito de impulsionar a inovação e a consciência ambiental do uso sustentável dos recursos naturais. Estes elementos, segundo o diretor, têm o objetivo de conservar a biodiversidade do Parque Nacional Yasuni e da Reserva da Biosfera Yasuni, a Amazônia Equatoriana.

– A estação é um lugar científico e socioambiental importante, principalmente pela sua megadiversidade. Acredito que seja muito interessante conhecer que a localização geográfica é uma das características que realmente faz este lugar particularmente diverso e bonito. A localização junto à linha equatorial permitiu que as suas características climáticas e fatores bióticos formem um ecossistema único no mundo.

Na segunda parte do encontro remoto, pesquisadores do Instituto Interdisciplinar de Ciências Naturais da Universidade da América Central (UCA), na Nicarágua, falaram sobre desequilíbrio ambiental e a relação com a pandemia da Covid-19. A especialista em gerenciamento e qualidade da água, Katherine Vammen, afirmou que a instabilidade ambiental tem ligação direta com a epidemia do Sars-Cov-2. Segunda ela, consequências como a diminuição da umidade de certos locais, desflorestamento, perda de recursos hídricos e mudanças climáticas afetam a capacidade de uma sociedade lidar com crises de saúde.

- O surgimento da pandemia da Covid-19 se vincula diretamente com o estado desequilibrado que vem de uma crise ambiental-climática global causada pela intervenção humana.

A Amazônia foi tema de debate da terceira mesa do dia com participação dos professores da Universidade Católica Andrés Bello, na Venezuela, Laila Iskandar, Florencia Cordero e Joaquín Benítez. Florencia valorizou a importância da Amazônia para o mundo. Segundo ela, a floresta atua como um sumidouro de carbono, pois armazena entre 90 mil e 140 milhões de toneladas de gás carbônico, liberando oxigênio posteriormente, um processo que ajuda a regular o aquecimento global. A maior parte da floresta Amazônica - cerca de 60% - fica no Brasil e a região abriga 34 milhões de habitantes. Quase três milhões são indígenas de 420 tribos diferentes.

- Há duas formas de valorizar a floresta tropical: a egoísta e a antropocentrista, para os interesses agropecuários, minérios, construção de sistemas de comunicação e muitos outros fatores que afetam a floresta. Beneficia um grupo bem particular que visa ao lucro. Porém há outra forma de valorizar a floresta, favorecendo o ecossistema - apontou Cordero.

*Participaram da cobertura: Ana Moraes, Caroline Névoa, Esther Obriem, Emily Motta, Gustavo Magalhães, Heloiza Batista, João Gabriel Mancuso, Letícia Messias, Mariana Albuquerque, Nathalie Hanna, Núbia Trajano, Victor Meira

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