Trajetória de fé e solidariedade
04/11/2020 14:02
Nathalie Hanna e Victoria Reis

Palestrantes relembram as ações e os caminhos percorridos por Padre Cícero e pelos fiéis



Para celebrar os 150 anos de ordenação sacerdotal de Padre Cícero, o Departamento de Teologia, a Arquidiocese do Rio de Janeiro e a Diocese de Crato-CE realizaram o simpósio Um padre e sua fé: Cícero, história e legado, nos dias 6 e 7 de outubro. A abertura teve a participação do Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., o diretor do Departamento de Teologia, padre Waldecir Gonzaga, o Arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, o bispo da Diocese de Crato, Dom Gilberto Pastana de Oliveira, e o Reitor da Basílica Santuário Nossa Senhora das Dores, padre Cícero José da Silva.

Durante a abertura, o Arcebispo do Rio de Janeiro ressaltou que a data comemorativa é importante para que, mais uma vez, o papel de Padre Cícero seja valorizado, especialmente na cultura nordestina. Ele observou que o isolamento social não impediu os fiéis de compartilhar o interesse e o respeito pelo religioso, que ele apontou como um personagem fundamental para a fé popular.

– A comemoração dos 150 anos da ordenação sacerdotal de padre Cícero Romão Baptista é uma boa ocasião para refletir sobre o movimento religioso do Nordeste. É o momento de aprofundar este assunto e trazer à tona toda a vida, obra e fé de  Padre Cícero. Além disso, também temos em parte a comemoração dos 80 anos da fundação da PUC-Rio. Parabéns a todos que levaram a sério a missão de cuidar da primeira Universidade Católica do Brasil.

 

O Reitor da PUC-Rio, padre Josafá Carlos de Siqueira, S.J., expressou o sentimento de admiração pelo trabalho religioso realizado por Padre Cícero. De acordo com o Reitor, o reconhecimento e o legado que o sacerdote deixou foi  notável para a comunidade cristã e para o nordeste brasileiro.

 

– Eu tenho muito apreço pela figura de Padre Cícero. As marcas deixadas pela figura dele na religiosidade são muito significativas, e o povo reconhece isso. Para o povo de Deus, eu creio que o mais importante é o testemunho da vida dele. Acho que o padre deixou um legado pastoral e político que se transformou em um espaço de piedade, devoção e mediação de um povo sofrido no nordeste brasileiro.

 

O professor Ítalo Santirocchi, do Departamento de História, ressaltou que Padre Cícero veio de uma formação lazarista em um seminário reformado. De acordo com Santirocchi, o sacerdote ainda pregava e seguia uma série de devoções ultramontanas, como o próprio Sagrado Coração de Jesus. 

 

– O Padre Cícero, na verdade, tem dentro da ação e da simbologia dele, que vai estar presente, vários traços do ultramontanismo. Eu vejo o Padre Cícero muito mais como um padre ultramontano, que acabou desviando em alguns aspectos que vão gerar o conflito com o bispo, do que um padre ligado ao catolicismo tradicional, ao catolicismo popular.

 

Segundo o professor, o padre nunca foi acusado de ter visões de misticismo, mas as características que dificultavam a formação do religioso, inicialmente, eram as suas ideias e problemas com a hierarquia, além de ele não ser muito presente com o sacramento.   

 

 

Padre Cícero e os pobres

 

A romaria ao juazeiro de Padre Cícero, uma peregrinação nascida e consolidada pelas massas populares nordestinas, foi abordada em uma das palestras. Segundo o professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará José Carlos dos Santos, ela mantém viva a expressão do povo, que independe da institucionalização da hierarquia da Igreja ou mesmo de alguma tutela do poder público.

 

Santos contou que, historicamente, as romarias de Juazeiro são marcadas por tensões, conflitos e disputas sociais, políticas e religiosas. De acordo com ele, a romaria é a vivência do ato de penitência, o pagamento da promessa, a prática do sacrifício e o espírito comunitário na partilha dos bens. O professor afirmou que  Padre Cícero é o grande responsável por transformar uma vila em metrópole em 100 anos de existência.

 

– A gente sabe que a origem da romaria dos juazeiros se deu a partir do fenômeno, do milagre, no dia 1º de março de 1889. Tem uma coisa importante que  descobrimos com os estudos, que é a admiração do querer bem do povo, como  Padre Cícero foi antes do fenômeno. Padre Cícero se apresentava como um padre diferente na época. Ele aconselhava e orientava, moralizou a cidade, mas teve uma coisa muito importante, começou a apresentar a fisionomia do padre conselheiro.

 

A viagem de um romeiro pelas estradas do Nordeste para chegar a Juazeiro, segundo Santos, é a experiência de fé que se exprime na oração espontânea e na vivência do espírito de solidariedade. Conforme o professor destacou, um romeiro é um profeta e caminhante que se faz mover na história e realiza o conhecimento em uma marcha que abre novos horizontes, que não poupa o sofrimento, mas reforça a fé.

 

– Eu considero muito forte essa questão de Juazeiro porque é possível encontrar qualquer coisa, seja da economia até a política, no Padre Cícero. Juazeiro é o lugar que ele colocou a mão e esta cidade é exatamente construída e imaginada, projetada e abençoada pelo padre. Ele sempre acreditou que ali ocorreu um sinal. A ideia do sinal, da presença de Jesus no lugar santo. Juazeiro estava projetado para ser o lugar de salvação.

Mais Recentes
Sonho que se transformou em realidade, inteligência e diálogo para uma educação de qualidade
Reitor entrega medalhas a benfeitores do Fundo Patrimonial Endowment e destaca a capacidade de resiliência e superação da PUC-Rio ao longo de 2020
Inclusão Digital supera obstáculos gerados pela pandemia
Objetivo é promover o acesso a computadores e pacotes de dados para alunos da PUC-Rio em situação de vulnerabilidade socioeconômica