Mercado independente de quadrinhos cresce no digital
16/12/2020 20:28
Victor Meira

Artistas da área e aluno da PUC-Rio contam que apesar de ser um nicho pequeno, existe demanda por obras independentes

Obras que compõem o portfólio do quadrinista independente Marcel Bartholo

Após sucessos de bilheteria nos cinemas e numerosas adaptações para a televisão, as histórias em quadrinhos caem cada vez mais no gosto do grande público. Segundo dados divulgados nos sites ICv2 e Comichron, em 2018, o mercado norte-americano de quadrinhos movimentou um recorde histórico de mais de US$ 1 bilhão. Além da visibilidade que as demais mídias trazem para as histórias, um outro fator pode estar relacionado a este crescimento: o mercado de títulos independentes. 

Com o avanço do digital, qualquer artista disponibiliza seu trabalho, sem precisar de editoras para publicação das obras. Em 2015, foi criado o primeiro serviço de streaming de quadrinhos no Brasil: o Social Comics. A plataforma tem mais de 1.500 títulos on-line e muitas obras independentes. Desenvolvida pelo Omelete Group, a ferramenta é uma alternativa para acesso aos conteúdos via internet, no celular ou no computador. A empresa também é responsável pela Comic Con Experiencie (CCXP), convenção da comunidade geek que em 2019 bateu recorde de público com mais de 280 mil fãs. Este ano, por conta da pandemia da Covid-19, o evento foi batizado CCXP Worlds e realizado de forma remota, nos dias 4 a 6 de dezembro.

A CCXP é uma feira de convenções voltada para o universo dos quadrinhos e para as outras mídias como cinema, televisão, videogames, criadores de conteúdo e influencers. Criada em 2014, a feira abriu um espaço para artistas independentes do mundo inteiro divulgarem e venderem os trabalhos, diretamente para os fãs, na seção Artist’s Valley. 

Foi assim que, em 2016, o artista Santtos (Blackout, Samurai Doggy) começou a entrar no mercado com seu primeiro quadrinho impresso, o Blackout. Em colaboração com Chris Tex, o ilustrador produziu a primeira leva de 300 cópias para vendê-las no evento, e a tiragem esgotou em apenas dois dias.

− Vimos que havia um público preparado. Começamos a trabalhar na história (Blackout) e ainda não terminamos, falta o último volume, que sai no ano que vem. Mas começamos a fazer de forma independente porque vimos que o mercado se transformou e agora existe a possibilidade de cada um fazer o próprio quadrinho.

Canil faz parte do selo de quadrinhos de horror do ilustrador Marcel Bartholo.

Santtos conta que uma das maiores dificuldades ainda é a distribuição das obras. Os recursos para a montagem são viabilizados a partir de campanhas on-line de financiamento coletivo, que atingem as metas por causa do público fiel. Mas a distribuição ainda é uma barreira, pois algumas questões podem ser inviáveis como a impressão da gráfica, o envio para todo o país e a promoção dos títulos para que mais pessoas as conheçam. O artista diz que a internet ajuda bastante a divulgar, mas ainda sente falta de uma atenção da grande mídia.

O estudante Eduardo Figueira, do Programa de Pós Graduação do Departamento de Artes & Design da PUC-Rio, trabalhou com histórias em quadrinhos paradidáticas e pesquisa narrativas multimodais, com diferentes linguagens e representações. Ele acredita que, apesar da maior demanda ainda vir das grandes editoras, existe um mercado de atuação que procura pelo independente. 

- São várias as formas de conseguir orçamento hoje em dia, de financiamentos coletivos, a editais, a projetos editoriais de grande e pequeno porte. É sempre uma questão, acredito para qualquer área seja assim, mas existem outras dificuldade como a divulgação e até a distribuição, inclusive para grandes editoras. Não consigo precisar se está crescendo, mas tenho a impressão de um nicho, mesmo que pequeno, estabelecido neste meio.

A obra O Santo Sangue é vencedora do prêmio de Melhor Roteiro no 31º Troféu HQ Mix.

Segundo o ilustrador Marcel Bartholo (O Insubstituível, Canil, Carniça), que desenhou um dos quadrinhos vencedores do 31º troféu HQMix, um projeto abre caminho para viabilizar outros, e encontros do meio são importantes para mostrar portfólio e conhecer profissionais. 

− O mercado ainda é um nicho de certa forma. Você tem que conhecer as pessoas e mostrar seu trabalho. Ir pelos esquemas de parceria: você, um roteirista e mostrar para as editoras. Não tem que ter medo. Os primeiros quadrinhos eu que banquei. Fiz o orçamento na gráfica e o esquema de parceria com outro autor, dividir os custos e dividir o lucro. No independente, você vende diretamente, e o dinheiro é todo seu.

Santtos e Marcel concordam que o consumo cresce e ganha espaço, mas ressaltam que não é uma indústria estabelecida. Santtos relata que há evidências do aumento.

− Está crescendo sim. Em dez anos, sentimos a diferença. A CCXP é um exemplo, na primeira (edição) havia poucos quadrinistas fazendo sua obra. Hoje, não, você vê inúmeros. Inclusive autores mais consagrados vêm para o mercado autoral, como o Mike Deodato Jr. O mercado fortalece, e a tendência é que cresça mais. Nós esperamos não só o apoio da grande mídia, mas que outras pessoas conheçam, e prospere até virar uma indústria que se sustente.

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