Entre choques e perdas
17/12/2020 21:03
Victória Reis

Ex-aluno da PUC-Rio lança livro sobre relatos da tragédia com o avião da Chapecoense

O livro reúne histórias de pessoas que moram na cidade de Chapecó.

Há quatro anos uma fatalidade deixou um país de luto e impactou a vida de um jovem repórter. Após viver por sete meses na cidade de Chapecó, em meio à dor recente de torcedores, familiares e moradores, o jornalista Roberto Passeri lança o livro Infinitos Lutos- De Histórias Não Contadas de Chapecó. A obra, de 21 capítulos, reúne crônicas, cartas, poesia, transcrições de entrevistas e material jornalístico inédito, sob um olhar minucioso de relatos do maior acidente aéreo esportivo brasileiro dos últimos anos.

Durante 140 páginas, a narrativa se propõe a mostrar o ponto de vista de pessoas comuns, que vivem na região em que ocorreu o episódio, mas não se sentiram representadas pelas informações em fotos, textos ou vídeos, publicados pela mídia tradicional. Ex- aluno do Departamento de Comunicação, Passeri diz que os dados coletados buscam também servir de material histórico para pesquisadores que necessitem se aprofundar sobre o acontecimento no futuro.

- Importante jogar luz em cima disso tudo para que, de repente, quatro anos depois, tenhamos uma visão distinta sobre os fatos. Aliás, para que tenhamos mais visões sempre, o máximo possível. Acho importante também como objeto de reflexão para o próprio jornalismo: suas prioridades, seu foco, sua noção de tempo e do que é e deixa de ser notícia.

O ex-aluno da PUC-Rio Roberto Passeri morou durante sete meses em Chapecó.

A decisão do autor de ir morar no município catarinense veio do impacto devastador da notícia, uma crise existencial sobre o conteúdo que ele produzia em termos de relevância, e a lacuna narrativa deixada pela grande imprensa que precisava ser preenchida. Passeri comenta que na época trabalhava na redação publicitária de um canal esportivo e, mesmo diante do choque imenso coletivo, as pautas foram mudando após algumas semanas.

- Eu não conseguia pensar em mais nada, tinha perdido completamente o interesse no trabalho e, como estava em fim de contrato, decidi que talvez fosse o momento certo para abraçar uma missão jornalística independente. Algumas pessoas me acharam um pouco maluco, porque foi uma decisão meio impulsiva, nada planejada e sem prazo algum. Não conhecia Chapecó e nem ninguém de lá. Mas acabou dando certo, senão não tinha ficado tanto tempo.

Segundo o autor, entre tantas histórias, uma das que mais o chamou a atenção foi a do diretor de futebol, João Carlos Maringá. O jornalista conta que ele perdeu a esposa na véspera da tragédia e soube durante o velório que o avião da Chapecoense tinha caído. Mesmo no pior momento de sua vida, Maringá decide voltar para o clube e atua como uma das peças chaves na reconstrução do departamento de futebol e comissão técnica.

Velório dos mortos no acidente com o avião da Chapecoense, na arena Condá, em Chapecó.
Foto: Julio Cavalheiro / Fotos Públicas

A questão emocional foi o maior fator dificultador para o jornalista durante a produção literária, já que o levantamento de dados e relatos ocorreu em um momento de choque e dor por parte das pessoas. Passeri teve depressão e ficou mais de um ano sem escrever nada depois que saiu de Chapecó. A ideia de que nunca terminaria o exemplar, passava por sua cabeça ao mesmo tempo em que se cobrava por se sentir responsável pelas histórias.

- Esse é o tipo de coisa que não se consegue ensinar em sala de aula. Aprendemos técnicas, modelos, teorias, mas olhar fundo nos olhos de pessoas despedaçadas sem ter o que dizer a elas, não. Somos ensinados a ligar o gravador e tomar o máximo de notas, mas ninguém fala sobre como lidar emocionalmente com tudo isso, sobre que tipo de relação se constrói com os entrevistados, sobre ser humano e empático acima de ser profissional. Qual é o papel do jornalista nisto? É possível e aceitável ser imparcial mesmo diante da dor, da tragédia, da injustiça? Se a resposta é “sim”, então sou apenas escritor.

"INFINITOS LUTOS - De histórias não contadas de Chapecó"

Autor: Roberto Passeri

Número de páginas: 140 páginas

Editora: Ludopédio

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